Como a corrupção potencializou a tragédia na Venezuela

Vigília em Caracas pelas vítimas do duplo terremoto de 24 de junho de 2026Ramón Cardozo Álvarez

Ramón Cardozo Álvarez

Os números oficiais ainda não refletem toda a dimensão da tragédia provocada pelo duplo terremoto que atingiu a Venezuela em 24 de junho. No entanto, já é evidente que a capacidade do Estado venezuelano está muito aquém das consequências daqueles 120 segundos de atividade sísmica.

Até agora, o balanço do governo reconhece 3.899 mortos e 16.740 feridos, números ainda preliminares diante das projeções de agências internacionais e de plataformas de monitoramento cidadão.

Serviço Geológico dos Estados Unidos estimou que o número de mortos pode passar de 10 mil. Uma plataforma local organizada por civis registra 33.388 pessoas sem contato. Já a ONG Comitê Internacional de Resgate calculou que o número de desaparecidos pode se aproximar de 50 mil pessoas, cifra considerada plausível pelo Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários.

Emergência habitacional

O estado de La Guaira, o mais afetado pelos tremores, vive uma “emergência habitacional de grande escala” e subnotificada, de acordo com a consultoria ANOVA Policy Research. Um estudo georreferenciado mostrou que há cerca de 73.500 pessoas vivendo em estruturas danificadas. Desse total, 37.611 residem em edificações gravemente comprometidas ou totalmente destruídas. Na contagem oficial, contudo, há 17.907 pessoas desabrigadas nessa faixa costeira.

A Organização Internacional para as Migrações (OIM), da ONU, estima que até 6,8 milhões de pessoas poderão precisar de abrigo, água, saneamento, atendimento médico ou outro tipo de assistência.

Tudo indica que os números oficiais disponíveis até o momento sobre danos materiais também estejam subdimensionados. Segundo o relatório do governo, foram contabilizados 856 edifícios afetados e 190 desabados.

Entretanto, análises de satélite da Nasa sugerem que aproximadamente 58 mil estruturas podem ter sido danificadas nas áreas atingidas pelo terremoto. Já o estudo georreferenciado da ANOVA calcula que, somente no litoral de La Guaira, 2.654 estruturas residenciais ficaram gravemente comprometidas ou foram destruídas.

Os custos econômicos da tragédia ainda são difíceis de quantificar com precisão, mas as estimativas já superam amplamente a capacidade atual do país. O Escritório das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres estima os prejuízos em 37 bilhões de dólares (cerca de R$ 189 bilhões): 24 bilhões de dólares em edificações e outros 13 bilhões em infraestrutura. O montante equivale a 43% do Produto Interno Bruto (PIB) venezuelano.

Um país suscetível a desastres e crises humanitárias

A enorme dimensão humana e material da tragédia venezuelana não pode ser explicada apenas pela intensidade dos dois terremotos que atingiram o país. Desde a década de 1990, a comunidade internacional deixou de compreender os desastres naturais como simples fatalidades e passou a analisá-los como resultado de uma equação mais complexa: o grau da ameaça física, a vulnerabilidade social e a capacidade de resposta a desastres.

Com base nessa lógica, a União Europeia e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) implementaram o índice de risco INFORM. O indicador avalia, em 191 países, o risco de ocorrência de crises humanitárias e desastres capazes de superar a capacidade nacional de resposta.

A edição mais recente do Índice INFORM, publicada em 31 de março de 2026, classifica a Venezuela na categoria de “alto risco”, atribuindo ao país uma pontuação geral de 5,9 em uma escala de 0 a 10, na qual valores mais altos indicam piores indicadores. Esse resultado coloca a Venezuela como o segundo país mais vulnerável da América Latina e do Caribe, atrás apenas do Haiti, e o 28º no mundo em exposição a crises humanitárias e desastres.

Alertas ignorados

Além da exposição a catástrofes naturais decorrente de sua localização geográfica, o elevado grau de vulnerabilidade da Venezuela se deve, em boa parte, à baixíssima capacidade do Estado para prevenir, responder e se recuperar desse tipo de evento.

Desde o início do século 21, especialistas e organismos nacionais e internacionais vêm alertando para a necessidade urgente de desenvolver um sistema estatal robusto de gestão de emergências e desastres de grande porte. No entanto, esses alertas foram sistematicamente ignorados.

Após o deslizamento de terras de 1999 que afetou Caracas e o Litoral Central, o governo venezuelano solicitou à Agência de Cooperação Internacional do Japão (Jica) um estudo para enfrentar a vulnerabilidade da capital a ameaças naturais.

Em março de 2005 foi apresentado oficialmente o resultado deste estudo, no qual ficava claro que a magnitude das consequências de um futuro desastre natural dependeria, em grande medida, das decisões que o Estado adotasse a partir daquele momento para reduzir a vulnerabilidade da cidade.

Entre as principais recomendações do relatório estavam a implementação de um Sistema de Alerta Precoce e Evacuação e a criação de um Centro de Comando de Emergência como sede centralizada para a coordenação da Defesa Civil, o que nunca ocorreu.

Em 2016, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) apresentou um relatório que mostrou que existia no país uma “defasagem considerável” entre o que estava previsto no marco legal – a Lei de Proteção Civil (2001) e a Lei de Gestão Integral de Riscos (2009) – e sua implementação efetiva. Em outras palavras, as normas evoluíram, mas nada foi feito para adequar as cidades a elas.

Estado cada vez menos preparado

A situação se agravou ao longo do tempo. Não houve apenas o abandono de um plano de enfrentamento de desastres, mas também a deterioração do que havia sido construído em períodos anteriores.

Dados do índice INFORM mostram que, entre 2015 e 2026, a pontuação da Venezuela no componente que mede a falta de capacidade de resposta do país diante de grandes desastres piorou significativamente, passando de 5,5 em 2015 para 7,0 em 2026. Para compreender essa deterioração, é necessário analisar as duas dimensões utilizadas pelo INFORM para calcular a capacidade de resposta dos países: infraestrutura e institucionalidade.

A dimensão de infraestrutura, que mede a capacidade de resposta e recuperação, incluindo redes de comunicação, infraestrutura física e acesso ao sistema de saúde, já apresentava deficiências importantes em 2015 e praticamente não se alterou no período analisado. Sua pontuação passou de 4,1 para 4,4 entre 2015 e 2026, com sinais especialmente críticos no acesso à assistência médica.

Já a dimensão institucional, que avalia a efetividade governamental, a percepção de corrupção, a solidez da administração pública, a qualidade dos serviços públicos, a preparação e os sistemas de alerta precoce para redução do risco de desastres, sofreu forte deterioração, passando de 6,5 em 2015 para 8,6 em 2026.

O fator corrupção

Uma análise detalhada dessa pontuação revela que um dos fatores que mais contribuíram para o colapso quase total da capacidade institucional da Venezuela de responder a emergências foi a persistente e altíssima corrupção governamental ao longo de todo o período avaliado pelo INFORM (2015-2026).

A corrupção no setor público atravessa toda a capacidade de resposta do país. Recursos destinados à prevenção de desastres são desviados, normas de construção antissísmica não são aplicadas, equipamentos de resgate deixam de ser adquiridos por causa de desvios de verba, a infraestrutura permanece sem manutenção, hospitais não recebem os insumos necessários, entre outros problemas.

Na mesma linha, um estudo elaborado em 2011 por Nicholas Ambraseys e Roger Bilham (dois dos sismólogos mais influentes do mundo) aponta que 83% das mortes causadas pelo desabamento de edifícios em terremotos ocorrem em países com níveis muito elevados de corrupção.

Resposta deficiente após o desastre

Quando o duplo terremoto atingiu a Venezuela, o desastre superou amplamente a capacidade do país de enfrentá-lo. Foi o que relataram meios de comunicação nacionais e internacionais, além dos inúmeros depoimentos e imagens que circularam nas redes sociais.

A resposta tardia das autoridades, a falta de coordenação, as falhas de comunicação, a escassez de equipamentos das equipes de resgate, a inoperância das Forças Armadas e os obstáculos à entrada de ajuda internacional, entre outros problemas, não foram falhas pontuais dos primeiros dias da emergência, mas o resultado de um longo processo de atraso e enfraquecimento das capacidades estatais, como o índice de risco INFORM vem apontando.

A resposta imediata ao desastre foi o primeiro teste. A grande questão que permanece é como será possível enfrentar o desafio da reconstrução sob as mesmas autoridades cuja gestão produziu o colapso institucional que ampliou a tragédia.

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Autor: Ramón Cardozo Álvarez

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