Martha Lillard: décadas de vida presa a uma máquina

Martha morreu em 26 de junho de 2026, aos 78 anos, em Shawnee, Oklahoma, tornando-se a última norte-americana a viver graças a um pulmão de aço.REPRODULÇAO

Na manhã em que a poliomielite mudou sua vida para sempre, Martha Lillard acordou com o sol entrando pela janela. Tinha apenas cinco anos, era junho de 1953, e ao tentar se levantar percebeu que não conseguia nem mesmo erguer a cabeça do travesseiro. Em poucos dias perdeu a consciência e, quando despertou, já não conseguia mover os braços, as pernas ou respirar sozinha. A partir daquele momento, uma máquina conhecida como pulmão de aço passou a fazer o trabalho de seus pulmões. Ela dependeria desse equipamento pelos 73 anos seguintes. Martha morreu em 26 de junho de 2026, aos 78 anos, em Shawnee, Oklahoma, tornando-se a última norte-americana a viver graças a um pulmão de aço.

Na época, a vacina contra a poliomielite ainda não existia. Ela só seria disponibilizada dois anos depois, em 1955, quando Jonas Salk apresentou a primeira vacina eficaz. Martha foi infectada logo após uma das piores epidemias da história dos Estados Unidos, que deixou dezenas de milhares de pessoas doentes, mais de 21 mil paralisadas e milhares de mortos. O medo era enorme, pois ninguém compreendia exatamente como a doença era transmitida.

A poliomielite a deixou paralisada do pescoço para baixo. Com anos de fisioterapia, conseguiu recuperar os movimentos das pernas e parcialmente do braço esquerdo, mas o braço direito jamais voltou a funcionar. Durante muito tempo viveu quase o dia inteiro dentro do pulmão de aço, saindo apenas por algumas horas. Ela lembrava das enfermarias lotadas de crianças presas às máquinas e do terror provocado pelas tempestades: se a energia acabasse, os aparelhos precisavam ser acionados manualmente, e nem sempre havia profissionais suficientes. Sem ar, as crianças só conseguiam emitir pequenos estalos com a língua, transformando o silêncio do hospital em um som que ela comparava ao cacarejar de um galinheiro.

Martha Lillard num ‘pulmão de ferro’ Reprodução

Os médicos disseram à família que Martha dificilmente chegaria aos 20 anos. Ela viveu até os 78. Seu avô adaptou o pulmão de aço para que pudesse abrir o equipamento sozinha, permitindo que conquistasse uma vida surpreendentemente independente. Morou sozinha, cozinhou, dirigiu por um período e transformou limitações em novos talentos. A menina que sonhava em ser bailarina passou a pintar, escrever poemas, compor músicas apenas com a mão esquerda, fazer trabalho voluntário e resgatar cães. “Hoje penso que minha vida foi como um balé”, dizia. “Precisei aprender a equilibrar muitas coisas.”

Martha Lillard ao lado de seu pulmão de aço adaptado. Após anos de treinamento e adaptação, ela conseguiu passar períodos fora da máquina, utilizando outros recursos de ventilação, mas continuou dependendo do equipamento para respirar com segurança ao longo da vida.Reprodução

O amor também chegou de maneira inesperada. Após os atentados de 11 de setembro, conheceu pela internet o egípcio Baha Seleh. Os dois conversaram durante mais de vinte anos até que ele se mudou para Oklahoma para viver ao seu lado. Em uma ocasião, quando um tornado interrompeu a energia elétrica, foi ele quem a manteve viva respirando em sua boca até a chegada do socorro. Casaram-se em fevereiro de 2026, apenas quatro meses antes de sua morte.

Nos últimos anos, Martha enfrentou duas infecções por COVID-19 e desenvolveu COVID longa, agravando ainda mais sua capacidade respiratória. O antigo pulmão de aço, fabricado décadas antes, já não tinha peças de reposição nem técnicos capazes de repará-lo. Mesmo assim, nenhum respirador moderno conseguiu substituí-lo. Até seus últimos dias, Martha defendia a vacinação. Ela dizia que partia seu coração encontrar pessoas contrárias às vacinas e repetia uma frase que resume toda a sua história: “Eu faria qualquer coisa para impedir que alguém tivesse de passar pelo que eu passei. Se a vacina existisse quando eu era criança, minha mãe teria me vacinado sem pensar duas vezes.”

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