
Aos 80 minutos de jogo, Kylian Mbappe marcou de pênalti o primeiro gol da França na final da Copa do Mundo de 2022. A Argentina ainda vencia, por 2 a 1, e ele sabia que não dava para perder tempo. O momento era de partir para cima.
O atacante francês, então, correu para as redes, colocou a bola debaixo do braço e levou até o meio-de-campo para o jogo ser reiniciado o quanto antes. Aos 81 minutos ele marcou o gol de empate, que levaria a partida para a prorrogação. O jogo terminaria em 3 a 3, com outro gol dele, e a disputa foi definida só nas penalidades, com triunfo argentino. Não sem luta.
Revejo o lance de quatro anos atrás em um reels aleatório do Instagram e não consigo não pensar que Neymar teve chance parecida, há poucos dias, diante da Noruega. Nos acréscimos, ele converteu o pênalti que Bruno Guimarães não foi capaz de converter no começo da partida. Mas, em vez de pegar a bola no fundo das redes, reivindicou o título “Eu Venci Ørjan Nyland”, um feito individual, e foi bater boca com o goleiro norueguês. Nyland, a alguns minutos de se sair vencedor, riu da arrogância da maior promessa do futebol brasileiro desde Ronaldo. A promessa incapaz de ver que era o tempo dele que estava se esgotando, e não (só) da partida.
Volto ao lance de Mbpaee e pareço tomar um choque térmico. O vira-lata que habita em mim (em todo brasileiro desde Nelson Rodrigues) identifica o contraste e visualiza, de um lado, um ídolo de verdade e, de outro, um moleque.
O traço da imaturidade parece um sintoma de época. Neymar, aos 34 anos, tinha o campo todo, literalmente, para desfazer a imagem que criou fora dele: a de um pai relapso que deixa os filhos para jogar poker, que procura farra quando a companheira está grávida e precisa de atenção e cuidado, que perde patrocínio por não saber respeitar uma mulher, que foge de pergunta incômoda, que acha feio tudo o que não é espelho.
Neymar é hoje símbolo de um país infantilizado. Basta ligar a TV Senado para notar como tudo por aqui se transformou numa grande gincana de alunos presos a provocações, gritarias, piadas e indisposições típicas da quinta série. Será que colocaram alguma coisa na água dessa galera?
Olho de novo para o lado e vejo um craque pronto desde os 19 anos, quando disputou (e decidiu) a primeira final de Copa. E que, agora, aos 27 anos, lidera uma equipe que impressiona pela seriedade em campo. Que se nega a fazer propaganda de bets, que se posiciona contra o avanço da extrema-direita contra imigrantes (como seus pais) e que parece nunca perder tempo com bobagens.
Mbappe parece ter aprendido desde cedo que a vida é séria e a guerra é dura. Neymar segue protegido numa cápsula criada pelo pai e os patrocinadores e de onde não consegue ver mais nada a não ser a si mesmo.
Terminada a Copa, Neymar foi curar a ressaca em um resort nos Estados Unidos. Não deu uma única entrevista desde a eliminação do Brasil.
Mbappe estará em campo logo mais contra a Espanha de Lamine Yamal. Pode liderar a França rumo à terceira final seguida. Talvez nem conte com a torcida dos brasileiros, que um dia souberam o que é isso. Mas que dá gosto de ver, dá.
