
Será que boicotaram o Neymar e, com isso, “ferraram” o Brasil na Copa do Mundo? A pergunta é dura. Pode parecer exagerada. Contudo, diante do que aconteceu, não deve ser simplesmente descartada sem reflexão. Quando Neymar foi convocado por Carlo Ancelotti ainda em recuperação de uma lesão, o presidente Lula ironizou o jogador, chamando-o de “primeiro convocado home office do mundo”, porque treinava separadamente durante seu processo de recuperação. Lula também afirmou publicamente que Neymar deveria ser convocado por aquilo que apresentasse em campo, e não apenas pelo peso de seu nome ou por seu passado. Chegou a relatar uma conversa com Ancelotti sobre as condições físicas e esportivas do atleta. É importante reconhecer: não existe prova de que Lula tenha determinado, solicitado ou articulado a exclusão de Neymar da equipe titular. Tampouco há evidência pública de que o treinador tenha recebido uma ordem política para não escalá-lo. Mas também é impossível ignorar o ambiente que foi criado. Nosso Príncipe. O maior jogador brasileiro de sua geração chegou à Copa sob desconfiança e críticas presidenciais e enorme pressão política, midiática e popular. Nesse contexto, será que a comissão técnica se sentiu absolutamente livre para tomar suas decisões? Ou procurou evitar o risco de o escalar como titular e parecer que estava concedendo tratamento privilegiado ao craque justamente criticado pelo presidente da República? Ao assistir Messi atuar durante toda a partida entre Argentina e Suíça, mesmo aos 39 anos, tornou-se evidente que grandes jogadores não são avaliados apenas pela capacidade de correr durante noventa minutos. Eles permanecem em campo porque confundem a marcação e decidem uma partida em um passe, uma cobrança de falta, um drible ou um pênalti. Foi exatamente o que Neymar demonstrou contra a Noruega. O Brasil teve um pênalti desperdiçado por Bruno Guimarães no primeiro tempo. Neymar, que não iniciou a partida, entrou depois e converteu a outra cobrança nos acréscimos, marcando o gol de honra brasileiro na derrota por 2 a 1. Naturalmente, ninguém pode assegurar que Neymar converteria o primeiro pênalti. Futebol não admite certezas retrospectivas. Mas é absolutamente razoável imaginar que, caso estivesse em campo desde o início e assumisse aquela cobrança, a história muito provavelmente poderia ter sido diferente. Um gol naquele momento mudaria o placar, a confiança dos jogadores, a postura da Noruega e toda a dinâmica da partida. Por que, então, Neymar não começou jogando? Foi uma decisão exclusivamente técnica? Médica, certamente, não parece ter sido, porque ele entrou em campo e, aliás, fez nosso gol de honra. Ou houve preocupação em não contrariar o ambiente político construído ao redor de sua convocação? Repito: não estou afirmando que houve interferência. Não existe prova pública disso. Porém, a dúvida permanece, e cada brasileiro tem o direito de refletir e tirar suas próprias conclusões. Talvez tenha sido apenas um erro do treinador. Talvez realmente tenha sido uma tática equivocada dele não iniciar o jogo e, mais, ainda, dele não entrar em campo naquele exato momento para bater o primeiro pênalti. No entanto, caso tenha existido qualquer cálculo destinado a agradar o poder político, estaremos diante de algo gravíssimo. A Seleção Brasileira pertence ao povo. Não pertence ao governo, à CBF, aos dirigentes, aos partidos nem aos ocupantes temporários do poder. Desconstruir nossos ídolos e misturar conveniência política com decisão esportiva seria desrespeitar milhões de brasileiros, especialmente as crianças e os jovens que ainda veem em Neymar, com a camisa 10 amarela, um símbolo de orgulho, esperança, alegria e união nacional. Se a politicagem interferiu, ainda que indiretamente, e impediu o Brasil de utilizar desde o início seu jogador mais decisivo, ela pode ter nos custado uma Copa do Mundo e “ferrado” o Brasil. Que cada um faça sua reflexão. E que Deus livre o futebol e o Brasil da politicagem barata que contamina instituições, destrói oportunidades e, no final, deixa ao povo apenas o custo e a tristeza pelas consequências, especialmente, nossos jovens e crianças, que tanto precisão de direção. RICARDO SAYEG Colunista do iG. Jornalista. Advogado titular da HSLAW, especializado em Special Legal Situations. Jurista Imortal da Academia Brasiliense de Direito e da Academia Paulista de Direito. Professor Livre-Docente de Direito Econômico da PUC-SP e professor do Curso de Recuperação de Empresas do Insper. Doutor e Mestre em Direito Comercial e Pós-Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Oficial da Ordem do Rio Branco. Presidente da Comissão de Direito Econômico Humanista do IASP. Presidente da Comissão Nacional Cristã de Direitos Humanos da FENASP. Comandante dos Cavaleiros Templários do Real Arco
