
Julian Ryall
Fortalecida pela proximidade com Moscou e com os recursos recebidos após o envio de tropas para apoiar a invasão russa na Ucrânia, a Coreia do Norte agora testa seu poderio mais perto de casa.
Em uma reunião no fim de junho com o Comando das Nações Unidas, o Ministério da Defesa da Coreia do Sul expressou preocupação com atividades de engenheiros norte-coreanos em vários pontos ao longo da Zona Desmilitarizada (DMZ, na sigla em inglês), que se estende por 238 quilômetros e divide a Península Coreana desde que um armistício encerrou de forma precária a Guerra da Coreia (1950-1953).
Desde então, houve incontáveis confrontos e incursões na DMZ, como a construçao de túneis subterrâneos secretos pela Coreia do Norte, a travessia de desertores por campos minados e cercas de arame farpado em busca de liberdade no Sul, além de eventuais trocas de tiros.
Coreia do Norte está forçando os limites na DMZ?
Choo Jae-woo, professor de política externa da Universidade Kyung Hee, em Seul, acredita que, neste momento, o Norte sonda até onde pode avançar antes de encontrar resistência.
“Eles estão testando os limites”, disse à DW. “Sabem que têm o apoio tanto da Rússia quanto da China em todos os seus empreendimentos — militares, econômicos e geopolíticos — e Pyongyang sente que este é o momento de ver até onde pode ir.”
“Vemos isso em outros lugares, na forma como o Norte está construindo novos e avançados navios de guerra, e não me surpreenderia se começássemos a ver testes semelhantes da NLL [Linha Limite Norte] no Mar do Oeste”, afirmou.
A NLL é a fronteira marítima na costa oeste da península, contestada pela Coreia do Norte e palco de vários confrontos mortais. O episódio mais recente ocorreu em 2010, quando a Coreia do Norte disparou cerca de 170 projéteis de artilharia contra a ilha de Yeonpyeong, matando quatro sul-coreanos e ferindo outros 19.
Especialistas afirmam que o Norte intensificou seus testes na DMZ para um nível considerado ainda aceitável pelo Comando da ONU. O movimento ocorreu em abril de 2024, meses após Kim Jong-un anunciar que estava redefinindo as relações com a Coreia do Sul.
Em vez de manter o objetivo declarado de reconciliação e reunificação, Pyongyang agora enxerga a relação como a de “dois países hostis e dois beligerantes em guerra”.
Tropas de engenharia norte-coreanas ergueram novas cercas, construíram barreiras e valas antitanque, cavaram trincheiras, abriram novas estradas militares para ampliar o acesso, limparam áreas de terreno e instalaram novos campos minados.
Os trabalhos foram realizados do lado norte da Linha de Demarcação Militar (MDL, na sigla em inglês), mas vêm se aproximando cada vez mais desse limite, que corresponde exatamente à metade da DMZ, cuja largura é de 4 quilômetros.
Aproximação da Linha de Demarcação Militar
Em algumas áreas, segundo os militares sul-coreanos, as obras foram realizadas a menos de 100 metros da MDL, o que Seul considera uma violação do armistício.
A instalação de capacidades militares adicionais tão perto do ponto central neutraliza, na prática, a função da DMZ como zona de amortecimento, afirmou a porta-voz do Ministério da Defesa da Coreia do Sul, Chung Binna, durante entrevista coletiva em 25 de junho.
Dan Pinkston, professor de relações internacionais no campus de Seul da Universidade Troy, acredita que Pyongyang aprendeu com a absorção gradual de territórios realizada pela China nas extremidades de suas próprias fronteiras — como os atóis do Mar do Sul da China — e com a falta de uma reação internacional coordenada contra essas apropriações territoriais.
“Trata-se de uma potência revisionista que está insatisfeita com a governança global e procura obter vantagens de todas as formas possíveis”, disse Pinkston à DW.
“Eles estão cooperando com Moscou no Extremo Oriente russo em comércio, na obtenção de equipamentos militares avançados e recebendo da China tecnologias de uso dual”, observou.
E, com o apoio explícito tanto de Moscou quanto de Pequim, Kim Jong-un “acredita que pode ir além dos limites”, afirmou Pinkston.
O especialista ressaltou, porém, que as ações norte-coreanas até o momento não configuram violação do Acordo de Armistício de 1953.
O que diz o Comando das Nações Unidas?
Em comunicado enviado à DW, o Comando das Nações Unidas informou que continua monitorando e avaliando as atividades na DMZ para garantir a conformidade com o acordo de 1953.
“As atividades dentro da DMZ devem ser compreendidas em seu contexto integral e são avaliadas com base nos fatos específicos, nas circunstâncias e nas disposições aplicáveis do Acordo de Armistício e de acordos posteriores”, afirmou.
“A construção, a fortificação e outras medidas defensivas não constituem automaticamente violações do Acordo de Armistício”, acrescentou.
“Quando apropriado, o Comando da ONU trata das preocupações relacionadas ao armistício por meio dos mecanismos estabelecidos e permanece comprometido com a preservação da paz e da estabilidade na península coreana.”
Em um informativo divulgado em 23 de junho, o Comando da ONU afirmou que a construção de estradas e cercas é permitida pelos termos do armistício, desde que permaneçam ao norte da MDL.
A instalação de minas também é permitida, segundo o órgão, que destacou que tropas sul-coreanas também realizam projetos de remoção de vegetação. O comunicado acrescentou que não há indícios de que o Norte tenha levado “armamentos pesados ou capacidades de drones” para dentro da DMZ, o que configuraria violação do acordo.
O Comando da ONU observou ainda que continua investigando relatos de que cercas norte-coreanas ultrapassam a MDL e de que minas foram instaladas no lado sul da linha.
“A colocação de minas ao sul da MDL deixa de ser uma medida defensiva e constitui uma violação automática”, informou. “Qualquer cruzamento confirmado acionará imediatamente os protocolos de violação do armistício.”
Sul acompanhará situação de perto
Choo acredita que as mudanças anunciadas pelo Norte em sua Constituição, relativas à Coreia do Sul, estão impulsionando essas ações.
“A nova Constituição redefine o conceito de fronteiras e territórios nacionais”, disse. “Agora eles veem a MDL — o ponto exato no meio da DMZ — como sua fronteira sul e estão tomando medidas para estender seu controle sobre essa terra até o limite máximo. Eles não veem mais a DMZ como uma zona de amortecimento; querem controlá-la como parte de seu território.”
Pinkston afirmou que os relatos confirmados até agora sobre as atividades norte-coreanas não configuram violações do acordo, mas que os trabalhos realizados pelas tropas de Pyongyang merecem monitoramento cuidadoso.
“Cercas de arame farpado, campos minados e barreiras antitanque são todas medidas defensivas, mas a natureza da guerra mudou drasticamente nos últimos anos, e o Sul observará com muita atenção para garantir que isso não evolua para violações”, afirmou.
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Autor: Julian Ryall
