
Inscrição em persa antigo escondida no Theatro Municipal do Rio é decifrada após mais de um século
Durante quase 117 anos, um dos ambientes mais impressionantes do Theatro Municipal do Rio de Janeiro guardou um mistério. Desde a inauguração do prédio, em 1909, uma inscrição em escrita cuneiforme, gravada na parede do Salão Assyrio, nunca havia sido traduzida. O texto revela uma referência direta a um palácio do Império Persa.
O enigma foi solucionado por dois professores universitários recém-chegados ao Rio: Alex Mazzanti, professor de Latim da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Matheus Treuk, professor de Arqueologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
A descoberta foi feita justamente no ano em que o Theatro Municipal celebra mais um aniversário e revela uma ligação inédita entre um dos principais patrimônios culturais brasileiros e a antiga Pérsia.
Construído durante a grande reforma urbana promovida pelo prefeito Pereira Passos, no início do século XX, o Theatro Municipal foi fortemente influenciado pela Belle Époque francesa.
Enquanto a fachada foi inspirada na Ópera de Paris, um dos espaços internos recebeu uma decoração completamente diferente.
Localizado no subsolo, o Salão Assyrio mistura referências de diferentes civilizações da Antiguidade, especialmente dos impérios Assírio e Persa.
“Uma das características da Belle Époque era esse fascínio pelas culturas orientais e pelas civilizações antigas. O Salão Assyrio reúne referências de vários povos para criar essa atmosfera monumental”, explica Clara Paulino, presidente da Fundação Theatro Municipal.
Apesar do nome, especialistas afirmam que o ambiente possui muito mais elementos ligados ao antigo Império Persa do que à Assíria.
Entre eles estão colunas inspiradas na Apadana — o grande salão de audiências dos reis persas —, capitéis em forma de touro, relevos com leões, arqueiros e figuras que remetem às escavações arqueológicas realizadas no Oriente Médio no fim do século XIX.
“Na prática, o Rio de Janeiro ganhou uma pequena Apadana. É uma releitura de um palácio persa”, afirma o arqueólogo Matheus Treuk.
Inscrição em persa antigo escondida no Theatro Municipal do Rio é decifrada após mais de um século
Reprodução/RJ2
Um mistério que resistiu por gerações
Pixinguinha se apresenta no Salão Assírio do Theatro Municipal
Reprodução/RJ2
Durante décadas, milhares de pessoas passaram pelo Salão Assyrio sem saber o significado da inscrição esculpida na parede.
O espaço já funcionou como restaurante, recebeu apresentações de Pixinguinha e dos Oito Batutas, foi transformado em museu na década de 1940 e hoje abriga um café e espetáculos de música e dança.
A inscrição, porém, permaneceu sem tradução.
Foi durante uma visita guiada que Alex Mazzanti percebeu o texto.
“Eu vi a inscrição em cuneiforme e perguntei aos guias o que estava escrito. Eles disseram que ninguém sabia. Aquilo despertou minha curiosidade.”
Segundo a equipe educativa do Theatro Municipal, a falta dessa informação sempre representou uma lacuna nas visitas.
A tradução
Alex havia estudado persa antigo anos antes. De volta para casa, decidiu tentar decifrar a inscrição.
Para confirmar a hipótese, procurou um antigo colega de estudos: Matheus Treuk, especialista em arqueologia do Oriente Antigo e escrita cuneiforme.
Para ele, ler o texto foi relativamente simples: “O cuneiforme persa é uma escrita bastante acessível para quem trabalha com ela.”
Inscrição em persa antigo escondida no Theatro Municipal do Rio é decifrada após mais de um século
Reprodução/RJ2
A tradução revelou a seguinte frase:
“Do Apadana de Artaxerxes, grande rei, rei dos reis, filho do rei Dario.”
A descoberta solucionou apenas parte do mistério: uma assinatura inspirada em um sítio arqueológico
Após traduzir o texto, os pesquisadores passaram a investigar por que aquela frase estava justamente ali. A resposta levou à Europa do século XIX.
Na época, arqueólogos franceses e britânicos realizavam escavações em antigos centros das civilizações assíria e persa. Em 1886, escavações na cidade persa de Susa revelaram relevos, esculturas e inscrições que rapidamente despertaram fascínio na Europa.
As peças foram levadas ao Museu do Louvre e inspiraram reproduções apresentadas na Exposição Universal de Paris de 1889 — a mesma que marcou a inauguração da Torre Eiffel.
Segundo Treuk, a empresa francesa responsável pela decoração do Salão Assyrio participou dessas exposições e dominava a técnica de reprodução das cerâmicas e relevos persas.
Foi nesse contexto que surgiu a inscrição do Theatro Municipal.
“Quem criou esse painel adaptou uma inscrição antiga e acrescentou a expressão ‘do Apadana’, indicando claramente a origem da inspiração. Essa frase não existe exatamente dessa forma em nenhum monumento persa conhecido.”
Uma peça única no mundo
Para os pesquisadores, a descoberta também revelou algo inesperado: o Salão Assyrio é um patrimônio sem paralelo.
Enquanto as construções inspiradas na Pérsia feitas para as exposições universais europeias eram temporárias, o espaço do Theatro Municipal permanece preservado há mais de um século.
“É uma joia do patrimônio nacional. Não existe nada igual. As instalações europeias desapareceram, e aqui temos um conjunto permanente”, afirma Treuk.
Para a direção do teatro, a tradução ajuda a compreender melhor a própria história da construção.
“Essa parceria entre patrimônio, universidade e pesquisa é fundamental. Recuperamos não apenas o significado da inscrição, mas também o contexto histórico que motivou a criação desse espaço”, diz Clara Paulino.
Já para Alex Mazzanti, a descoberta foi uma surpresa desde o primeiro momento.
“Recém-chegado ao Rio, encontrei uma inscrição em persa antigo na parede de um teatro. Poder contribuir para compreender melhor a história da cidade e as relações entre o Rio, a França e a antiga Pérsia é extremamente gratificante.”
A partir de agora, o texto que permaneceu indecifrado por mais de um século passa a integrar oficialmente a história do Theatro Municipal e das visitas guiadas ao Salão Assyrio.
Inscrição em persa antigo escondida no Theatro Municipal do Rio é decifrada após mais de um século
Reprodução/TV Globo
