
Priscila Carvalho
Emojis, expressões e outros símbolos aparentemente inofensivos podem fazer parte de estratégias de aliciadores para ser aproximar de crianças e adolescentes em ambientes digitais.
Em determinados contextos, esses elementos deixam de ter o significado original e passam a funcionar como formas de comunicação dentro de grupos fechados, o que dificulta a sua identificação por usuários e pelas próprias plataformas digitais.
Embora haja relatos recentes de circulação desses códigos em aplicativos de relacionamento e redes sociais, especialistas alertam que o fenômeno não está restrito a uma única plataforma.
Segundo pesquisadores ouvidos pela DW, mais importante do que conhecer cada símbolo é entender como funciona o processo de aliciamento, que muda constantemente e se adapta à medida que determinadas práticas se tornam conhecidas.
“A divulgação indiscriminada desses códigos pode ampliar seu alcance e facilitar que pessoas mal-intencionadas os adotem. Assim, evita-se publicá-los justamente pelo risco de operacionalizar a prática”, afirma a psicopedagoga Patrícia Espíndola de Lima Teixeira, coordenadora do Observatório Juventudes da PUC-RS.
Segundo ela, pesquisadores, autoridades policiais e organizações de proteção têm priorizado explicar os mecanismos de aliciamento e não reproduzir os códigos utilizados por esses grupos.
O processo de aliciamento é conhecido internacionalmente como grooming. O conceito descreve uma estratégia gradual de construção de confiança, manipulação emocional e redução das defesas do adolescente. Geralmente, nas etapas iniciais, não há conteúdo sexual explícito.
“Vai acontecendo paulatinamente uma apropriação de símbolos, emojis, palavras e imagens de uso cotidiano. Na prática, dentro de comunidades digitais fechadas, há uma recodificação, e aquilo que era inocente torna-se outra mensagem”, afirma Teixeira. A especialista ressalta ainda que esses códigos são dinâmicos e costumam ser substituídos assim que passam a ser identificados.
Os símbolos mais comuns
O que diferencia um código usado por pessoas envolvidas na exploração sexual de crianças e adolescentes de um símbolo comum é o contexto em que ele aparece.
Isoladamente, um emoji, uma palavra ou uma imagem não indicam prática criminosa. O significado passa a existir quando esses elementos são combinados e inseridos num conjunto de comportamentos que podem indicar uma tentativa de aproximação, aliciamento ou compartilhamento de material de abuso sexual infantil. “Eu sempre explico que o emoji sozinho não significa nada”, destaca a educadora Sheylli Caleffi. Segundo ela, símbolos de uso cotidiano acabam sendo apropriados justamente por despertarem menos suspeitas.
Entre os exemplos mais conhecidos estão referências à pizza, à bola de futebol americano, ao espiral azul e ao pirulito. Em alguns casos, a palavra “leque”, abreviatura de moleque, também pode ser associada à pedofilia. “A bola de futebol americano, por exemplo, os criminosos costumam associar com um jogador de futebol americano que foi preso por estupro de vulnerável”, diz.
“Importante salientar também que você não vai denunciar uma pessoa por ela usar um emoji. Não tem como. Aquilo é uma sinalização entre eles, justamente para camuflar as reais intenções. O importante é você começar a perceber e rapidamente denunciar assim que alguma coisa mais explícita for dita”, diz Caleffi.
O advogado Bernardo Fico, especialista em Direito Digital e diretor do Legal Wings Institute, explica que não existe um código universal ou permanente. Segundo ele, a Internet Watch Foundation (IWF), organização internacional especializada na identificação e remoção de material de abuso sexual infantil, mantém uma lista de palavras, expressões e símbolos utilizados exclusivamente por seus membros e atualizada mensalmente. “Determinadas palavras podem ser totalmente comuns quando consideradas isoladamente, mas adquirem significado ilícito quando empregadas em combinações específicas ou dentro de determinado contexto”, afirma.
Um dos exemplos mais documentados envolve referências à expressão inglesa cheese pizza, cujas iniciais, CP, passaram a ser utilizadas por alguns grupos como forma de ocultar menções a material de abuso sexual infantil. “As iniciais CP são usadas como forma codificada de alusão à expressão child pornography (pornografia infantil)”, explica o advogado.
Outro caso citado por Fico é o uso da palavra corn (“milho”, em inglês), empregada em alguns ambientes digitais como substituta da palavra “pornografia” para tentar contornar mecanismos de moderação das plataformas. O advogado ressalta, porém, que esse uso também aparece amplamente em contextos relacionados a conteúdo adulto legal e, por isso, pode não possuir qualquer relação automática com crimes envolvendo crianças e adolescentes.
A forma como esses símbolos são utilizados também levanta questionamentos sobre os mecanismos de busca e recomendação das plataformas. Durante a apuração desta reportagem, foi possível localizar resultados associados a alguns desses termos no TikTok.
Segundo Fico, os códigos mudam à medida que passam a ser identificados por plataformas e autoridades. “O indício somente adquire relevância quando aparece associado a um conjunto de fatores, como uma conta adulta que interage repetidamente com perfis de crianças, utiliza linguagem de compra ou troca, tenta migrar a conversa para aplicativos privados ou adota outros comportamentos compatíveis com estratégias de aliciamento”, diz.
Como identificar aliciadores
Ao contrário do que se costuma imaginar, não existe um perfil único que sirva para identificar pessoas envolvidas no aliciamento de crianças e adolescentes no ambiente digital.
“O que costuma aparecer com frequência é um padrão comportamental de manipulação, paciência e adaptação às vulnerabilidades da vítima”, afirma Teixeira.
Segundo ela, é importante desconstruir o estereótipo do “estranho misterioso”, já que, em muitos casos, o aliciador é alguém que já possui algum tipo de acesso à vítima – por meio da família, da escola ou de atividades extracurriculares – ou que constrói essa proximidade de forma deliberada e paciente pela internet.
A especialista explica que esse processo costuma ocorrer de maneira progressiva. O criminoso testa limites, observa a reação da criança, do adolescente e da família, recua quando percebe risco de ser descoberto e adapta a abordagem conforme a resposta obtida. Na internet, também pode operar com múltiplos perfis simultaneamente e utilizar estratégias diferentes para cada vítima.
Segundo a psicopedagoga, diferentes plataformas acabam sendo utilizadas em etapas distintas desse processo. Redes sociais podem servir para o primeiro contato, que depois migra para mensagens privadas. Jogos online oferecem chats integrados, reduzindo a percepção de risco por parte de pais e adolescentes. Já aplicativos de mensagens criptografadas costumam ser utilizados numa fase posterior, dificultando a detecção das conversas por terceiros.
Para a pesquisadora, embora as plataformas tenham ampliado seus mecanismos de segurança, ainda existem limitações na verificação de idade e nos sistemas de recomendação, que podem aproximar perfis com interesses semelhantes.
Ela ressalta, no entanto, que os códigos representam apenas uma parte do problema. “O risco principal continua sendo a vulnerabilidade relacional. Predadores exploram carências afetivas, solidão, necessidade de reconhecimento e confiança, muito antes de recorrerem a qualquer símbolo.”
Como se proteger e denunciar
O recomendado é que crianças e adolescentes não tenham livre acesso a redes sociais e jogos online. Pais e responsáveis devem estar atentos a quantas horas os filhos passam em frente às telas e se há alguma mudança de comportamento.
Aplicativos de controle parental também podem ser usados como ferramentas para que adultos monitorem buscas, gerenciem o tempo de tela e bloqueiem acessos inadequados nos celulares dos filhos.
Diante de uma suspeita de aliciamento ou exploração sexual de crianças e adolescentes na internet, especialistas orientam que a prioridade é preservar as evidências e acionar os canais oficiais de denúncia.
Segundo Thiago Vizoli, gerente de advocacy da Childhood Brasil, a aprovação do ECA Digital trouxe novas obrigações para as plataformas em relação à remoção e comunicação de conteúdos de aparente exploração sexual infantil. Para pais, responsáveis e demais pessoas físicas, no entanto, o procedimento continua o mesmo. “O fluxo segue sendo a delegacia da Polícia Civil. A maior parte das delegacias já tem um boletim de ocorrência online, que pode ser preenchido”, afirma.
Além do registro da ocorrência, há outros canais que podem ser acionados. O Disque 100, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, funciona gratuitamente 24 horas por dia e recebe denúncias anônimas. O aplicativo Proteja Brasil, desenvolvido pelo Unicef Brasil em parceria com o ministério, também permite encaminhar denúncias e localizar órgãos da rede de proteção.
Já a SaferNet Brasil recebe denúncias de crimes e violações de direitos humanos praticados na internet, incluindo conteúdos relacionados à exploração sexual de crianças e adolescentes. O Conselho Tutelar também pode ser acionado para aplicar medidas de proteção e encaminhar o caso aos órgãos competentes.
Teixeira, da PUCRS, lembra ainda que crianças, adolescentes e seus familiares também devem receber acompanhamento psicológico. “O cuidado emocional faz parte da proteção e pode ser fundamental durante todo o processo”, afirma.
Autor: Priscila Carvalho
