Trump amplia incerteza global enquanto tarifaço ao Brasil avança

O recuo de Donald Trump na cobrança de 20% sobre as cargas que atravessam o Estreito de Ormuz retirou de cena uma medida considerada de difícil aplicação, mas não eliminou as incertezas provocadas pela política externa dos Estados Unidos. O presidente norte-americano afirmou que substituiria a taxa por acordos comerciais e investimentos de países do Golfo, sem detalhar participantes, valores ou prazos.

“Soltou, mas eu acho que não tem nenhum planejamento de acordo para substituir o que era improvável dos 20% de pedágio”, afirma Roberto Dumas, mestre em economia e estrategista-chefe da GCB.

Volatilidade afeta petróleo, seguros e fertilizantes

As mudanças frequentes no discurso de Trump influenciam a formação de preços de commodities e ativos financeiros. A instabilidade amplia os custos de proteção das operações, pressiona os seguros do transporte marítimo e dificulta a elaboração de projeções para petróleo, inflação e juros.

“De manhã a gente lê uma coisa, à tarde a gente lê outra. Não há análise que sobreviva”, observa Carlos Honorato, economista.

Os efeitos também alcançam o agronegócio brasileiro, que depende da importação de fertilizantes e outros insumos. Uma elevação prolongada dos custos de produção pode afetar as margens dos produtores, os preços dos alimentos e a competitividade das exportações brasileiras.

“A questão dos fertilizantes, dos implementos, dos insumos agrícolas vem sofrendo muito. Nós temos, por exemplo, o enxofre, que já subiu 300%”, destaca Miguel Daoud, analista de economia e política.

Tarifaço contra o Brasil continua no radar

O recuo em relação ao Estreito de Ormuz não representa uma mudança automática na política comercial de Washington para o Brasil. Os Estados Unidos continuam avaliando medidas relacionadas a tarifas, etanol, comércio digital, propriedade intelectual e Pix, enquanto o governo Lula sustenta que ainda há espaço para negociação.

“Do ponto de vista das tarifas, o que eu tenho acompanhado é que provavelmente isso vai entrar em vigor”, avalia Carlos Honorato.

Uma eventual reação brasileira precisaria considerar a diferença de peso econômico entre os dois países e os impactos sobre exportadores, empresas e consumidores. A recomendação apresentada no Painel BM&C foi preservar os canais diplomáticos e buscar ajustes em produtos e alíquotas, evitando uma escalada comercial.

“Retaliar nunca é uma boa em relação aos Estados Unidos. Claro que, se vier o tarifaço, de alguma maneira isso acaba prejudicando. Continua negociação, negociação, negociação”, defende Roberto Dumas.

Pix entra na disputa comercial e monetária

A inclusão do Pix nas discussões comerciais também foi analisada sob duas perspectivas. De um lado, o sistema pode ser interpretado por Washington como concorrente de empresas privadas de pagamento. De outro, representa uma pequena mudança em um sistema financeiro internacional ainda baseado na predominância do dólar.

“O dólar não vai ser substituído. Então também tem uma coisa que a gente tem que chegar para Trump ou Trump pensar e falar: ‘Escolha as suas brigas’”, explica Roberto Dumas.

Para Daoud, o crescimento do Pix não impediu a expansão do mercado de cartões de crédito no Brasil. O avanço da bancarização ampliou o acesso a diferentes serviços financeiros, o que enfraquece a tese de que o sistema brasileiro teria eliminado a concorrência privada no setor de pagamentos.

“O faturamento dos cartões de crédito cresceu, então não tem nada a ver com a tese de Donald Trump”, argumenta Miguel Daoud.

Incerteza política limita investimentos no Brasil

Além dos riscos externos, a economia brasileira enfrenta dificuldades relacionadas à articulação política, ao Orçamento e à falta de previsibilidade regulatória. Quando empresas não conseguem estimar se uma medida será aprovada, alterada ou judicializada, a decisão de investir tende a ser adiada, reduzindo a capacidade produtiva do país.

Nesse ambiente, a desorganização internacional pode direcionar parte do capital estrangeiro ao Brasil por comparação com economias diretamente envolvidas em conflitos. Esse movimento, porém, não substitui a necessidade de ampliar os investimentos, melhorar a coordenação entre os Poderes e criar condições para um crescimento sustentado.

EUA confirmam tarifaço e sinalizam novas exceções

Nesta quarta-feira (15), o governo dos Estados Unidos confirmou ao governo brasileiro a recomendação de um novo tarifaço sobre produtos do país. O chefe do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), Jamieson Greer, informou que a proposta final foi encaminhada ao presidente Donald Trump e deu as negociações por encerradas. Apesar disso, o representante norte-americano sinalizou que a lista de produtos isentos poderá ser ampliada no anúncio das medidas. Atualmente, as novas tarifas atingiriam 21% das exportações brasileiras aos Estados Unidos, considerando os valores comercializados.

A confirmação reforça a avaliação apresentada no Painel BM&C de que o tarifaço provavelmente seria implementado, embora com ajustes na relação de mercadorias alcançadas pelas alíquotas. A possibilidade de novas exceções mantém espaço para negociações setoriais, mas não elimina os riscos para as empresas brasileiras expostas ao mercado norte-americano. O episódio também mostra que o recuo de Trump no Estreito de Ormuz não reduziu a imprevisibilidade comercial, que continua afetando decisões de investimento, preços e projeções para a economia brasileira.

 

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