
Jens Thurau
O chanceler federal alemão, Friedrich Merz, parecia bastante satisfeito consigo mesmo durante a sua entrevista coletiva antes das férias, apesar dos números ruins nas pesquisas, segundo as quais apenas entre 13% e 20% dos alemães estão satisfeitos com o desempenho dele e de sua coalizão de conservadores e social-democratas.
“A coalizão encontrou seu equilíbrio”, disse Merz. “O resultado foi positivo”, prosseguiu. “O governo federal encontrou seu ritmo, apesar de algumas críticas. Nós entregamos resultados.” Ele se referia a reformas adotadas, mas ainda não aprovadas pelo Parlamento, relativas a aposentadorias, saúde e impostos.
Ele mencionou especificamente as reformas no sistema de aposentadorias, que passarão a destinar, pela primeira vez, uma pequena parcela para investimentos no mercado financeiro. “Deveríamos ter feito isso há 30 anos, assim como os suecos, os dinamarqueses, os holandeses e muitos outros ao redor do mundo que o fizeram há muito tempo. Mas, pelo menos, estamos começando agora”, disse Merz.
Críticas a suposta interferência EUA
Uma pergunta da DW abordou uma reportagem sobre planos do Departamento de Estado dos EUA de lançar um programa de subsídios de 5 milhões de dólares (R$ 29 milhões) destinado a apoiar grupos alinhados ao movimento conservador Maga [sigla em inglês para “Tornar a América grande novamente”] na Europa, que pode beneficiar agremiações afiliadas ao partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD).
“Sempre disse que nós, de nossa parte, não interferimos nas eleições americanas”, respondeu Merz. “Sempre aderimos a esse princípio. E, inversamente, não quero que o governo americano ou instituições ligadas a ele interfiram nas eleições alemãs. E uma observação adicional: é ilegal financiar partidos políticos na Alemanha a partir do exterior.”
Merz fez ainda uma referência ao presidente dos EUA, Donald Trump, sem mencioná-lo nominalmente, ao afirmar que o governo dos EUA prejudicou a economia alemã através de sua política tarifária.
Alerta aos eleitores da AfD
Apesar da variedade de temas tratados na coletiva, as perguntas dos jornalistas muitas vezes se voltaram para a questão da AfD, partido que o Departamento Federal de Proteção da Constituição da Alemanha (BfV), a agência de inteligência interna do país considera que é, em partes, de extrema direita.
A AfD lidera atualmente as pesquisas de intenção de voto para eleições em dois estados no leste da Alemanha, marcadas para setembro.
Ao ser perguntado como ele espera impedir que extremistas de direita cheguem ao poder na Alemanha, o chanceler inicialmente tentou se esquivar. Mas, quando pressionado, ele surpreendeu ao se dirigir diretamente aos eleitores da Saxônia-Anhalt e de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, onde ocorrerão as eleições no segundo semestre: “Observem atentamente. Não deixem que as informações das redes sociais – independentemente de onde venham – sejam sua única fonte. Em vez disso, observem o que o governo federal está tentando realizar”, disse Merz.
Em resposta a um jornalista holandês, o chanceler argumentou que seria de fato “algo completamente diferente” se extremistas de direita conseguissem de novo chegar ao poder na Alemanha dado o passado nazista do país.
Apesar das pesquisas, ele pareceu não estar preocupado com as eleições de setembro. “As campanhas eleitorais estão apenas começando. Estou confiante de que conseguiremos impedir que a AfD conquiste a maioria das cadeiras nos parlamentos estaduais dos três estados, especialmente na Saxônia-Anhalt e em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental”, disse.
As eleições em setembro ocorrerão não apenas nesses dois estados do leste da Alemanha, mas também na cidade-estado de Berlim, um dos estados federativos da Alemanha.
Merz defende associação da Ucrânia à UE
O chanceler alemão reiterou sua controversa proposta de conceder inicialmente à Ucrânia apenas a perspectiva de adesão como membro associado da União Europeia (sem direito a voto).
Merz disse que é importante ser honesto com o país em dificuldades e explicar que o caminho para a Europa é mais difícil do que se pensava inicialmente, e que ele é a favor de dar passos pequenos, porém firmes.
“No momento, estamos considerando essencialmente cinco estados dos Bálcãs Ocidentais, Moldávia e Ucrânia como potenciais novos membros da UE. Eles estão aguardando que a UE dê os próximos passos”, disse Merz, lembrando que já se passaram 13 anos desde que o bloco admitiu novos membros, embora tenha havido muitas promessas.
São necessários passos pequenos, mas honestos, para garantir que a UE mantenha sua credibilidade, disse o chanceler. “Se perdermos essa credibilidade, perderemos esses países.”
Autocrítica cautelosa
Merz fez ainda uma rara autocrítica. Ele lembrou que, durante a campanha eleitoral, há cerca de um ano e meio, ele prometera acabar com a contratação de novas dívidas. Pouco depois, porém, lançou um superpacote de gastos para financiar o reequipamento das Forças Armadas alemãs (Bundeswehr) e projetos de infraestrutura. Isso acabou se tornando “um peso considerável para a minha credibilidade pessoal”, admitiu.
Este foi um dos poucos momentos, no entanto, em que o chanceler federal alemão demonstrou alguma hesitação em relação às suas políticas. Ele insistiu que a coalizão de conservadores e social-democratas continuará a governar com calma e determinação.
Apesar dos problemas, Merz fez o possível para transmitir confiança, embora questões como a infraestrutura precária, a crescente polarização da sociedade e – não menos importante – a lentidão na economia sejam motivo de grande preocupação para muitas pessoas.
Sobre esse último ponto, ele admitiu que ainda há uma necessidade significativa de recuperação, ao dizer que, economicamente, o país não está onde ele gostaria. “Conseguimos muito, mas ainda está longe do suficiente.” A questão fundamental, segundo afirmou, é restaurar a competitividade da economia alemã.
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Autor: Jens Thurau
