Messi, o maior de todos?

Lionel Messi após mais uma virada histórica da Argentina na Copa de 2026Vanessa Carvalho / Parceiro / Agência O Dia

São onze horas da noite e estou deitado, sem lente e sem óculos, com um celular colado à cara assistindo pela oitava vez à entrevista fake de Lionel Messi postada pelo canal Santo Fole, do Instagram.

No vídeo, o camisa dez argentino debocha do entrevistador quando ouve os parabéns pela classificação dos caipora para a final da Copa de 2026. Diz que a equipe mal suou em campo, tal o efeito dos secadores ligados fora dele. “Parecia um salão de beleza”.

A sincronicidade entre vídeo e expressão facial é tão perfeita que parece real. Olho bem para o rosto de Messi, dublado em gauchês e traçando a estratégia para a final (“vamo mandar os piá taparem o ‘imbigo’ e ponhar as fitinha vermeia”) e penso um milhão de coisas. Não estranharia se, ao fim da carreira, ele fosse convidado a trabalhar em Hollywood em comédias do tipo Jerry Lewis. Seria um perfeito personagem panaca que tropeça nos cadarços, derruba a cerveja nos convidados da festa, é empurrado para fora, cai num alçapão, aciona o dispositivo de abertura da jaula de um leão faminto e provoca uma hecatombe involuntária. 

Messi tem cara de tudo, menos de jogador de futebol.

Aos 39 anos, parece no máximo um jogador aposentado. Mas acaba de colocar metade da Inglaterra para dançar numa jogada de linha de fundo antes do cruzamento perfeito, de pé direito. A trajetória da bola tira qualquer possibilidade de defesa. Em câmera lenta, Pickford, o goleiro até então imbatível, antevê a tragédia séculos antes da cabeçada certeira do Lautaro Martinez.

Lembro quando fiz 30 anos e voltei a jogar futebol, na quadra do prédio onde morava, a convite de uns vizinhos. Todo domingo, juntávamos três ou quatro marmanjos e desafiávamos os meninos de vinte e poucos anos do prédio ao lado. Era um massacre. Dez anos de diferença pareciam colocar em linha reta um automóvel turbinado contra uma bicicleta. Tinha dias de glória, mas muita luta para levantar também no dia seguinte.

Messi está a um passo dos 40 e implodiu as jovens linhas de defesa britânicas. Nessa idade, um ser humano normal precisaria fazer escolhas. Ou corre ou cruza ou chuta. Ou o sangue socorre as pernas ou a cabeça, que já não pensa depois de 30 minutos de atividade intensa. Quanto mais no fim do jogo.

Perto dos 40, o futebol para quem está em campo é só um conjunto de linhas por onde passa uma bola, várias chuteiras de cores diversas e uma sucessão de eventos que nosso reflexo já não absolve. 

Na minha turma, quando tem escanteio, um olha para a cara do outro e anuncia a desistência. Ou você vai até o canto do campo ou tem força para levantar a bola na área. Ou dorme oito horas na véspera ou passa o fim de semana no sofá. Ou bebe ou anda em linha reta no dia seguinte. Ou corre ou trabalha. É preciso fazer escolhas.

Messi fez a dele e agora esfrega na nossa cara que decretamos nossa velhice cedo demais.

Revejo os gols e penso que meu amigo Thiago Varella tem razão ao dizer que não é à toa que chamamos os argentinos de “hermanos”. Nossa rivalidade no futebol não se dá pelo ódio ou pela guerra, mas por algo muito mais íntimo: a inveja. 

“Somos aquele irmão espalhafatoso, aparecido, popular, mas displicente, disputando o amor da mãe bola ao mesmo tempo que nosso vizinho de quarto mais quieto, obstinado, porém menos querido”, escreve o Varella, coberto com a razão e a bandeira albiceleste.

Tudo o que faltou para a seleção brasileira após o primeiro gol de Halland, nas oitavas, contra a Noruega, sobrou para os vizinhos contra a Inglaterra. Calma, confiança, serenidade, entrega, raça. A receita estava a um passo da fronteira como uma lembrança distante. Futebol se joga com alma, e a alma do futebol hoje fala espanhol. Falará por mais quatro anos, vença a Argentina ou vença a Espanha – ambos os países transformados pelos pés de Messi.

Há dez anos, se alguém me perguntasse se dava para colocar Messi e Pelé na mesma prateleira, eu encheria o interlocutor de chinelada. Na cara.

Até ontem, Messi não podia reivindicar sequer o panteão de Maradona, soldado que colocou as mãos e os pés a serviço da vingança de um país recém-humilhado pelas tropas britânicas na Guerra das Malvinas.

Messi precisou de dois lances para deixar os argentinos num curto-circuito de um inútil e delicioso debate sobre quem é maior que quem.

Nem lembro a última vez que senti tanta inveja.

Volto ao vídeo do Santo Fole e tento pegar no sono na marra. É isso ou encher meu rosto de chinelada.

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