
No último final de semana, a aparição de briozoários acumulados nos Molhes da Barra, na Praia do Cassino, em Rio Grande (RS) chamou atenção de visitantes e moradores. O evento despertou a dúvida sobre o que são aquelas “sujeirinhas”, que se confundem com algas, e se são inofensivas. Diferentemente de infestações de águas-vivas, que também podem ocupar faixas de areia em praias, o encalhe de briozoários não machuca mesmo com o toque. No máximo, atrapalha a balneabilidade no mar. O professor Renato Mitsuo Nagata, do Instituto de Oceanografia da Universidade Federal de Rio Grande (FURG), explica que a identificação dos briozoários pode ser feita a olho nu mesmo. Eles costumam ter um formato levemente ondulado, que lembra renda ou algas, mas com a cor esbranquiçada. Observando mais atentamente, é possível enxergar pequenos poros transparentes. Na verdade, cada “bichinho” é composto por vários briozoários, que se depositam em um aglomerado que se torna aquela estrutura que conseguimos enxergar. Os poros têm milímetros e são como “casinhas” onde cada briozoário está.
A maior diferença entre esses animais e algas é o fato de não realizarem fotossíntese, mas se alimentarem de outros organismos. No caso dos briozoários, a dieta costuma ser “filtrando” micro-organismos suspensos na água do mar.
Por que eles aparecem?
Ainda não existe resposta para a presença dos briozoários na Praia do Cassino. Segundo Nagata, a espécie é exótica, ou seja, não cresce nem se desenvolve originalmente na região, nem do RS nem de SC, onde também aconteceram aparições.
O processo que leva uma espécie de um ambiente onde é natural a outro pode ser perigoso ao meio ambiente, mas também não tem qualquer confirmação sobre danos ao ecossistema causados pelos briozoários.
Algumas hipóteses sobre como eles chegaram são baseadas em ocorrências conhecidas de outras espécies: embarcações que podem estar trazendo água com eles, água de lastro, ou animais que crescem sobre o casco de embarcações e acabam transportados de um local para o outro.
Nagata complementa que as aparições nessa abundância ainda ocorrem eventualmente, o que sequer se repete todo ano. Ele observa que, na Praia do Cassino, o evento tem ocorrido sempre da mesma maneira, após a passagem de frentes frias. A suspeita principal é de que sejam da espécie Membraniporopsis tubigera.
Caso a frequência e abundância aumentem e haja indícios de estarem se alimentando de espécies locais, ou causando danos como atrapalhar a pesca, a balneabilidade e mais detalhes, será possível discutir a classificação como invasora biológica.
Em 2022 foram registradas aparições ainda maiores, se estendendo por uma longa área da Praia do Cassino, enquanto, desta última vez, os briozoários estavam concentrados nos Molhes da Barra, em uma das pontas da praia.
Estudos pretendem confirmar o que está acontecendo
Conforme o professor, estudos devem aprofundar que fatores meteorológicos estão associados à aparição dos briozoários na praia. A hipótese principal acredita que tenha relação com ondulações intensas que jogam os organismos em direção à costa.
Ainda, os pesquisadores devem confirmar, por meio da genética, qual é a espécie, para a partir disso tentar traçar um histórico do que está acontecendo, de onde vem a população e que processo a traz para a região entre o RS e SC.
Para isso, os pesquisadores vão comparar o DNA dos organismos encontrados com outros dados genéticos de repositórios. Esse material fica preservado em álcool até que isso seja feito.



