
Redação DW
O governo brasileiro anunciou na quinta-feira (16/07) que vai reforçar medidas de proteção à indústria nacional diante do tarifaço imposto pelos Estados Unidos, previsto para entrar em vigor na próxima semana.
Um dia após os EUA anunciarem tarifas de 25% sobre uma série de produtos brasileiros, sob alegação de supostas práticas comerciais “desleais”, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva escalou sua equipe econômica, além de ministros de outras áreas, para apresentar o que será feito diante da contenda comercial – e política.
A tarifa será aplicada a milhares de produtos brasileiros, mas várias categorias importantes de exportação ficarão isentas, incluindo petróleo e gás, carne bovina, café, laranjas e peças de aeronaves. Pelos cálculos do governo, o tarifaço deve atingir 18% das exportações brasileiras aos EUA, o equivalente a 7,4 bilhões de dólares (R$ 38 bilhões), considerando dados de 2024.
Entre as principais medidas anunciadas pelo Brasil está um reforço do programa Brasil Soberano, que oferece linhas de crédito a empresários afetados pelo tarifaço americano. A iniciativa foi criada em agosto de 2025, em meio aos primeiros anúncios de sobretaxa dos EUA.
Na época, o governo americano impôs uma tarifa de 40% sobre muitas exportações brasileiras. No entanto, em novembro, após uma reunião com Lula, o presidente americano, Donald Trump, revogou parte dessas tarifas por meio de uma ordem executiva.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) JÁ pediu ao Ministério da Fazenda a liberação de mais R$ 7,25 bilhões para reforçar as linhas de crédito criadas pelo governo federal para ajudar empresas afetadas pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos.
Ainda não há detalhes sobre como o auxílio será liberado nesta nova rodada de ameaças comerciais. Em agosto, o governo ofereceu R$ 30 bilhões, sendo que metade foi desembolsada em março deste ano.
Em coletiva de imprensa, na quinta, ministros defenderam que as tarifas americanas são “injustas” e reafirmaram que o Brasil recorrerá ainda aos mecanismos previstos na Lei da Reciprocidade Econômica e à Organização Mundial do Comércio (OMC). Eles afirmam, contudo, que o país continua aberto a negociações com os EUA.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, classificou o novo tarifaço como uma tentativa de interferência dos EUA, e disse que o Brasil não vai “baixar a cabeça” nem agir com “viralatice” diante da posição americana.
Reciprocidade contra barreiras comerciais
A Lei de Reciprocidade foi aprovada pelo Congresso em abril de 2025 e sancionada por Lula em julho do mesmo ano, na esteira do anúncio de Donald Trump de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros.
O dispositivo permite ao Brasil responder a medidas unilaterais adotadas por país ou bloco econômico que “impactem negativamente a competitividade internacional brasileira”.
Entre as medidas previstas, estão a “suspensão de concessões comerciais, de investimentos e de obrigações relativas a direitos de propriedade intelectual”.
“Nós temos a Lei da Reciprocidade, aprovada por unanimidade no Congresso Nacional, que o governo, no momento adequado, saberá como implementar”, afirmou o vice-presidente Geraldo Alckmin, durante a coletiva conjunta à imprensa.
Rebatendo argumentos
Entre as justificativa dadas pelos EUA para a tarifa estão práticas como favorecimento ao Pix, acesso ao mercado de etanol e problemas relacionados à corrupção e desmatamento.
Para o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, os argumentos contra o sistema brasileiro de pagamentos digitais são o caso mais “flagrante” da ofensiva americana.
O governo Trump acusa o Pix de prejudicar empresas do setor de pagamentos ao criar uma concorrência considerada desigual, que favorece de forma injusta o sistema brasileiro.
Galípolo frisou que, desde a implementação do Pix, o mercado de cartões de crédito cresceu 150% e que foram os cheques e o dinheiro físico que perderam espaço.
“Quando a gente olha para as alternativas e o que aconteceu no mercado, quem perde espaço são os cheques e o dinheiro físico, o que é absolutamente desejável para todos”, disse. “Então, o caso da implementação do Pix, ele consegue se configurar como um desses em que ele é benéfico para quem demanda e para quem oferta para o setor público e para o setor privado”, defendeu.
Sobre as alegações de “combate à corrupção” usadas pelo governo americano, a secretária nacional de Justiça, Maria Rosa Guimarães, observou que os dados considerados são de 2023, da gestão anterior, de Jair Bolsonaro.
Washington também tem apontado falhas na fiscalização do desmatamento como justificativa para impor barreiras comerciais. No entanto, o governo Trump ignora que o Brasil reduziu drasticamente as taxas de destruição florestal nos últimos anos, após os níveis recordes registrados durante o governo Bolsonaro.
Acusação de interferência política
O governo brasileiro acusa ainda Washington de usar as tarifas como forma de interferência política, e tem buscado colar o tarifaço à articulação política da família Bolsonaro.
Um dos argumentos para as primeiras tarifas foi a de que a Justiça brasileira fazia uma “caça às bruxas” contra o ex-presidente Bolsonaro. Após reuniões com o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que vive há mais de um ano nos EUA, o governo Trump instou a Justiça brasileira a encerrar o processo contra o pai, que acabou condenado por tentativa de golpe de Estado.
Outro filho do ex-presidente, o senador e presidenciável Flávio Bolsonaro também realizou viagens a Washington para pedir apoio do governo Trump ao seu movimento conservador. No entanto, ele afirma que nunca trabalhou pela imposição de tarifas contra o Brasil.
Nas últimas semanas, à medida que seu desempenho em pesquisas iniciais de intenção de voto se deteriorou, Flávio procurou se distanciar das tarifas e pediu ao governo Trump que adiasse sua aplicação para depois das eleições.
sf (Agência Brasil, ots)
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