As maiores polêmicas que marcaram a história da seleção argentina

A ‘Mão de Deus’ eternizou Maradona, mas também revelou um dos capítulos mais controversos dos Mundiais: um gol irregular que dividiu o futebol mundial.Reprodução

A seleção argentina é uma das maiores potências da história do futebol mundial. Dona de títulos, ídolos lendários e gerações marcadas por grandes conquistas, a camisa albiceleste construiu uma trajetória de respeito e protagonismo nos principais torneios internacionais.

Mas, além das glórias, a história da Argentina também é marcada por episódios controversos que ultrapassaram as quatro linhas. Conflitos internos, decisões questionadas, rivalidades intensas e momentos cercados por polêmicas ajudaram a construir a imagem de uma seleção que, ao mesmo tempo em que desperta admiração, também provoca fortes críticas e rejeição entre muitos torcedores ao redor do mundo.

Nesta lista, relembramos alguns dos maiores escândalos que marcaram a história da seleção argentina.

A “Mão de Deus” (Copa do Mundo de 1986): 

“A Mão de Deus” – Maradona contra a Inglaterra (1986) Um dos gols mais famosos e polêmicos da história. Maradona marcou com a mão, mas o lance foi validado pela arbitragem.Reprodução

Poucos lances na história das Copas do Mundo geraram tanta discussão quanto a chamada “Mão de Deus”, protagonizada por Diego Armando Maradona no confronto entre Argentina e Inglaterra, pelas quartas de final do Mundial de 1986, no México.

Aos seis minutos do segundo tempo, Maradona disputou uma bola aérea com o goleiro inglês Peter Shilton e, em uma jogada claramente irregular, desviou a bola com a mão antes de ela entrar no gol. O árbitro tunisiano Ali Bin Nasser não percebeu a infração e validou o lance, causando revolta entre os jogadores ingleses e críticas que atravessaram décadas.

O episódio ganhou ainda mais repercussão porque aconteceu apenas quatro anos após a Guerra das Malvinas, conflito entre Argentina e Reino Unido que deixou profundas marcas nos dois países. Para muitos argentinos, o gol teve um significado simbólico de revanche esportiva; para os ingleses, ficou como uma das maiores injustiças da história das Copas.

Minutos depois, Maradona marcou aquele que seria considerado o “Gol do Século”, driblando vários jogadores ingleses e ampliando a vitória argentina por 2 a 0. A partida consagrou o craque argentino como herói nacional, mas o primeiro gol continuou sendo lembrado como um dos momentos mais polêmicos dos Mundiais.

Ao explicar o lance após a partida, Maradona afirmou que a bola havia entrado “um pouco com a cabeça de Maradona e um pouco com a mão de Deus”, frase que eternizou o episódio e deu nome a uma das maiores controvérsias da história do futebol.

 Argentina 6 x 0 Peru (Copa do Mundo de 1978): a goleada que levantou suspeitas

Argentina x Peru em 1978 Jogadores de Argentina e Peru disputam a partida decisiva da Copa do Mundo de 1978. A vitória argentina por 6 a 0 garantiu a classificação para a final, mas até hoje é cercada por suspeitas e debates.Reprodução

Um dos jogos mais polêmicos da história das Copas do Mundo aconteceu em 1978, justamente envolvendo a seleção argentina. Jogando em casa, diante de sua torcida, a Argentina enfrentou o Peru em uma partida decisiva da segunda fase do Mundial e venceu por impressionantes 6 a 0.

A Argentina precisava vencer por uma diferença de pelo menos quatro gols para superar o Brasil no saldo de gols e garantir uma vaga na final contra a Holanda. O resultado surpreendente chamou atenção: uma equipe peruana que havia feito boas atuações no torneio sofreu uma derrota expressiva e pouco resistiu ao domínio argentino.

A partida passou a ser cercada por suspeitas de manipulação. O contexto político aumentava ainda mais a desconfiança: a Copa era realizada durante a ditadura militar argentina, comandada pelo general Jorge Rafael Videla, que buscava utilizar o torneio como propaganda para melhorar a imagem do regime.

Décadas depois, novas acusações voltaram a colocar o jogo no centro das discussões. O ex-jogador peruano José Velásquez, que participou daquela Copa, afirmou que alguns companheiros teriam recebido benefícios financeiros para facilitar a vitória argentina. Segundo ele, seis jogadores do Peru teriam se vendido, embora nunca tenha sido apresentada uma comprovação definitiva das acusações.

Também surgiram relatos e teorias envolvendo possíveis pagamentos e acordos nos bastidores, mas nenhuma investigação oficial conseguiu provar que o resultado foi comprado.

O goleiro peruano Ramón Quiroga, argentino naturalizado peruano, tornou-se um dos principais alvos das críticas pela atuação naquela partida, enquanto os jogadores argentinos sempre defenderam que a vitória foi resultado da superioridade técnica e da pressão de uma seleção que buscava seu primeiro título mundial.

O doping de Diego Maradona (Copa do Mundo de 1994):

Maradona sendo levado ao exame antidoping Diego Maradona segura a mão de uma enfermeira após a partida contra a Nigéria na Copa de 1994. A cena se tornou uma das imagens mais marcantes da história dos Mundiais e simbolizou o escândalo que tiraria o craque argentino da competição.Reprodução

A Copa do Mundo de 1994 deveria marcar o retorno de Diego Maradona ao grande palco do futebol mundial, mas acabou entrando para a história por um dos momentos mais dramáticos da carreira do craque argentino. Aos 33 anos, o camisa 10 voltava a defender a Argentina em um Mundial cercado de expectativas e esperança de repetir os feitos de 1986.

Após a vitória da Argentina por 2 a 1 sobre a Nigéria, pela fase de grupos, Maradona foi sorteado para realizar o exame antidoping. O resultado apontou a presença de efedrina e outras substâncias proibidas, e a FIFA determinou seu afastamento imediato da competição.

A cena de Maradona sendo conduzido pela mão de uma enfermeira até o exame antidoping se tornou uma das imagens mais marcantes daquela Copa. O momento, transmitido para milhões de pessoas ao redor do mundo, simbolizou uma queda inesperada para um jogador que ainda era visto como o grande líder da seleção argentina.

Maradona alegou que as substâncias estavam presentes em um medicamento usado durante sua preparação física e negou qualquer tentativa de obter vantagem esportiva. A FIFA, no entanto, manteve a decisão, e o argentino foi obrigado a abandonar o torneio.

Sem seu principal astro, a Argentina perdeu força e acabou eliminada nas oitavas de final, derrotada pela Romênia por 3 a 2. O episódio encerrou de maneira melancólica a participação de Maradona em Copas do Mundo e se tornou uma das maiores controvérsias da história da seleção argentina.

A “água batizada” contra o Brasil (Copa do Mundo de 1990): 

O lateral-esquerdo brasileiro Branco, um dos principais cobradores de falta da seleção, durante a Copa do Mundo de 1990. O jogador afirmou que passou mal após beber uma água oferecida durante o clássico contra a Argentina, episódio que ficou conhecido como “água batizadaReprodução

Brasil e Argentina sempre protagonizaram uma das maiores rivalidades do futebol mundial, mas o confronto pelas oitavas de final da Copa do Mundo de 1990, na Itália, ficou marcado por um episódio que ultrapassou os limites das quatro linhas. Além da eliminação brasileira, aquela partida entrou para a história por uma acusação de jogo sujo que ainda gera debates décadas depois.

O Brasil vinha fazendo uma campanha superior no Mundial. Sob o comando do técnico Sebastião Lazaroni, a equipe contava com jogadores como Careca, Romário, Bebeto, Branco e Dunga, e dominou boa parte do clássico contra a Argentina. A seleção brasileira criou diversas oportunidades de gol, acertou a trave e pressionou os argentinos durante grande parte do confronto.

A Argentina, por outro lado, vivia um torneio complicado. A equipe comandada por Carlos Bilardo defendia o título conquistado em 1986, mas chegou ao mata-mata com dificuldades e dependia cada vez mais da genialidade de Diego Maradona para sobreviver na competição.

Porém, durante a partida, o lateral-esquerdo brasileiro Branco afirmou que recebeu uma garrafa de água oferecida por integrantes do banco argentino e passou mal após consumir a bebida. Segundo o jogador, ele sentiu tontura, fraqueza e uma queda de rendimento após beber o líquido.

 O jogo terminou com uma das eliminações mais dolorosas da história brasileira em Copas. A Argentina venceu por 1 a 0, graças a um gol de Claudio Caniggia, após uma jogada brilhante de Maradona, que driblou marcadores e encontrou o atacante livre para decidir o confronto.

Já na época a suspeita era de que a água teria sido adulterada com alguma substância para prejudicar o desempenho dos brasileiros. O episódio rapidamente ficou conhecido como o caso da “água batizada”, tornando-se uma das histórias mais polêmicas envolvendo a seleção argentina.

Anos depois, o próprio Diego Maradona aumentou a repercussão do caso ao afirmar em entrevistas que a garrafa realmente teria sido preparada com um sedativo. O craque argentino chegou a dizer que a intenção era tirar Branco de campo ou reduzir sua capacidade física durante a partida. Apesar das declarações, nunca houve uma comprovação oficial por parte da FIFA ou uma punição aos envolvidos.

Entre acusações, declarações posteriores e a ausência de provas oficiais, a “água batizada” se transformou em um símbolo da rivalidade intensa entre Brasil e Argentina e ajudou a alimentar a imagem de uma seleção argentina frequentemente associada ao jogo sujo.

A polêmica de Daniel Passarella e os jogadores da Argentina na Copa de 1998

Daniel Passarella comandando a Argentina na Copa de 1998Reprodução

A Copa do Mundo de 1998, na França, marcou uma das maiores polêmicas internas da seleção argentina. O técnico Daniel Passarella, campeão mundial como jogador em 1978, assumiu a equipe com a ideia de recuperar a disciplina e a identidade de uma seleção considerada desorganizada após anos de turbulência.

Passarella ficou conhecido por impor regras extremamente rígidas aos jogadores. A mais famosa delas foi a proibição de cabelos compridos, brincos, piercings e determinados estilos pessoais. Para o treinador, a aparência deveria representar disciplina, profissionalismo e respeito à camisa da seleção.

A decisão causou grande repercussão, principalmente porque muitos jogadores da época tinham um estilo mais rebelde, típico dos anos 1990. O caso mais famoso envolveu Fernando Redondo, um dos maiores talentos argentinos daquele período. O meio-campista, conhecido por seu cabelo comprido e personalidade forte, se recusou a cortar o cabelo e acabou ficando fora da Copa de 1998.

A ausência de Redondo gerou enorme debate na Argentina. Muitos torcedores e jornalistas questionaram se Passarella estava deixando de convocar um dos melhores jogadores do país por uma questão estética, e não técnica.

Outro episódio polêmico envolveu Claudio Caniggia, que também teve problemas com as regras do treinador. O atacante, símbolo da seleção nos anos anteriores, criticou a postura de Passarella e afirmou que algumas decisões eram exageradas.

Apesar das críticas, Passarella conseguiu montar uma equipe competitiva. A Argentina chegou às quartas de final da Copa de 1998, eliminando a Inglaterra em um dos jogos mais emocionantes daquele Mundial, mas acabou derrotada pela Holanda por 2 a 1, com o famoso gol de Dennis Bergkamp no fim da partida.

A polêmica deixou um legado controverso: para alguns, Passarella tentou recuperar a disciplina perdida no futebol argentino; para outros, sua rigidez prejudicou a seleção ao afastar jogadores importantes.

Casos de racismo 

Além das rivalidades históricas e das controvérsias dentro de campo, a seleção argentina também esteve envolvida em episódios relacionados a cânticos considerados racistas, que geraram críticas internacionais e levantaram discussões sobre o comportamento de torcedores e jogadores.

Um dos casos mais repercutidos aconteceu após a conquista da Copa do Mundo de 2022. Durante as comemorações do título, parte da torcida argentina entoou uma música com conteúdo considerado ofensivo contra jogadores da seleção francesa, especialmente atletas de origem africana. O cântico fazia referência à ascendência de diversos jogadores franceses e rapidamente se espalhou pelas redes sociais.

A repercussão foi mundial. O episódio gerou críticas de torcedores, jornalistas e entidades esportivas, que questionaram até que ponto determinadas provocações fazem parte da rivalidade esportiva e quando ultrapassam a linha para discursos de discriminação racial.

A polêmica voltou a ganhar força em 2024, após a conquista da Copa América. Durante uma transmissão ao vivo nas redes sociais, jogadores da seleção argentina apareceram cantando a mesma música que já havia sido alvo de críticas por seu conteúdo considerado racista. O vídeo foi publicado pelo volante Enzo Fernández e provocou uma nova onda de repercussão internacional.

O caso teve impacto especialmente no futebol europeu, já que vários companheiros de Enzo no Chelsea eram jogadores franceses ou descendentes de africanos. Alguns atletas demonstraram publicamente indignação com o episódio, enquanto Enzo Fernández pediu desculpas e afirmou que não teve intenção de ofender ninguém.

As situações reacenderam um debate sobre a cultura das torcidas, os limites das provocações no futebol e a responsabilidade dos jogadores como representantes de uma seleção nacional. 

Conclusão..

Essas controvérsias não anulam suas conquistas, mas fazem parte da complexa história de uma seleção que desperta paixões intensas. Para seus torcedores, muitos desses episódios representam momentos de superação e genialidade; para seus críticos, revelam um lado mais controverso de uma equipe acostumada a viver sob enorme pressão.

No fim, a trajetória da Argentina é marcada justamente por essa dualidade: uma seleção capaz de produzir alguns dos maiores talentos da história, como Diego Maradona e Lionel Messi, conquistar três Copas do Mundo e emocionar milhões de pessoas, mas que também deixou capítulos que continuam gerando discussões décadas depois. No futebol, poucas seleções conseguiram unir de forma tão intensa glórias, rivalidades e polêmicas como a Albiceleste.

 

 

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