
Diversas espécies de carvalhos e árvores estão morrendo por conta da “broca-de-tiro-polífaga”, um tipo de besouro invasor que ataca não só essas árvores, como pelo menos outras 600 espécies de plantas. Com origem em Stellenbosch, África do Sul, o besouro representa uma ameaça ampla, pois basta uma única fêmea para iniciar uma infestação. Até mesmo os ovos não fertilizados podem dar origem a machos, com os quais a própria fêmea se acasala depois. As fêmeas perfuram orifícios com a espessura de palitos de dente nas árvores, depositam ovos e injetam um fungo na madeira, que produz estruturas reprodutivas que vão servir de alimento para os futuros recém-nascidos besouros. O problema é que essa perfuração atinge canais internos que transportam água entre as raízes e as folhas das árvores, o que acaba matando as plantas às vezes.
Estamos perdendo uma grande parte da copa das florestas urbanas David Richardson, biólogo especializado em invasões biológicas da Universidade de Stellenbosch (SU).
Recentemente, estudos e levantamentos encontraram a espécie do besouro em outros continentes, o que motivou a preocupação dos pesquisadores e de autoridades ambientais dos locais.
Conforme as informações, a problemática da espécie está na capacidade de “polifagia”, como sugere o próprio nome do besouro.
Ou seja, diferentemente de outros insetos invasores, que são “especializados” em um tipo específico de plantas, a broca-de-tiro-polífaga facilmente consegue se reproduzir, se alimentar e, eventualmente, matar ao menos 600 espécies da flora global.
O besouro tem origem na China e no Vietnã, com dimensões de uma semente de chia. Ele é capaz de viajar escondido em pallets de madeira, caixotes de transporte e em plantas. Foi assim que chegou à África do Sul por volta de 2012.
O contexto motivou um estudo publicado no Journal of Pest Science, que tenta mapear e prever a disseminação do besouro por meio de genética. A pesquisa conta com uma equipe internacional de cientistas que buscam cooperar para entender o problema, igualmente, global.
Expansão global
Além da África do Sul, o besouro alcançou pelo menos mais seis países ao redor do mundo, segundo o novo estudo, que utilizou sequenciamento de DNA para identificar exatamente qual era a espécie que estava em cada um dos locais.
Angela Mech, entomologista florestal da Universidade do Maine, aponta que o achado reforça como é complicado barrar o avanço de insetos invasores.
Os resultados também permitiram a equipe compreender que a “broca polífaga” tolera uma faixa mais ampla de temperaturas e climas mais secos do outras espécies similares, além de aparentar ser um colonizador mais agressivo.
A previsão da pesquisa acredita que ele deverá se espalhar por partes do Mediterrâneo, sudeste dos Estados Unidos, Madagascar e quase toda a costa leste da Austrália. E, caso não seja controlado, pode alterar a estrutura dos ecossistemas a nível de alterar paisagens locais.
Ainda restam dúvidas sobre quais são os alvos preferidos pela espécie. Alguns indícios apontam para árvores frutíferas e “ornamentais” (que decoram parques, ruas e jardins), enquanto outros sugerem que a relação tem a ver com a saúde das árvores, que seria pior em ambientes urbanos.
Contudo, os danos não se limitam somente às plantas urbanas, já que na África do Sul, onde a espécie mais se desenvolveu pelo tempo que está estabelecida no local, os ataques começaram a atingir florestas nativas.
François Roets, ecólogo da Universidade de Stellenbosch, que acredita que as consequências de longo prazo dessas invasões florestais serão “substanciais”.
Regiões afetadas:
- África do Sul: a espécie chegou em 2012, devastou árvores urbanas entre Stellenbosch e Cidade do Cabo, e agora está se estabelecendo fortemente e matando árvores em florestas nativas sul-africanas;
- Estados Unidos: a praga avançou pelo Sul da Califórnia e migrou para região de San Jose. Há uma expectativa de que alcance plantações agrícolas do fértil Vale Central da Califórnia;
- Austrália: Foi detectado na cidade de Perth em 2021, o que motivou um investimento de R$200 milhões (40 milhões de dólares) pelo governo para tentar barrar o avanço. Ainda assim, a situação não foi totalmente controlada.
- Brasil: A broca foi detectada pela primeira vez em 2020, dentro de uma área de 3.500 quilômetros da costa da América do Sul. Árvores decorativas importadas tem sido o principal alvo na região.
Outros estudos, como o de Paul Rugman-Jones, entomologista da Universidade da Califórnia em Riverside, testam se vespas parasitoides, inimigas naturais desse besouro, podem ser utilizadas para controlá-lo na Califórnia.
