Casa de luxo R$ 2 milhões na Riviera virou alvo de ‘tribunal do crime’ do PCC, aponta investigação


Casa na Riviera de São Lourenço virou disputa no “tribunal do crime”
Reprodução
Uma casa de alto padrão na Riviera de São Lourenço, em Bertioga, no litoral paulista, tornou-se o centro de uma disputa que, segundo o Ministério Público de São Paulo, acabou sendo resolvida não pela Justiça, mas por um “tribunal do crime” do Primeiro Comando da Capital (PCC).
A negociação do imóvel é apontada como um dos principais episódios que aproximaram empresários investigados por lavagem de dinheiro de integrantes da facção e ajuda a embasar a Operação Janus, deflagrada nesta terça-feira (21).
Segundo o MP, o empresário Cléber Azevedo dos Santos, um dos principais investigados, teria recorrido voluntariamente ao mecanismo paralelo de resolução de conflitos do PCC para tentar solucionar um impasse envolvendo a venda da residência, localizada na Riviera de São Lourenço.
De acordo com a investigação, a divergência envolvia o pagamento de R$ 2 milhões relacionados à negociação do imóvel entre Cléber e Marcelo de Morais Oliveira. A partir da análise de celulares apreendidos, os investigadores concluíram que o conflito extrapolou a esfera comercial e passou a ser tratado por integrantes da facção criminosa.
As apurações indicam que Cléber contou com o auxílio de Antonio Carlos Ubaldo Júnior e Marlon Antonio Fontana — ambos denunciados anteriormente na Operação Bazaar — para se aproximar de integrantes do PCC, entre eles Leonardo Monteiro Moja, o Léo do Moinho, apontado como uma das lideranças da facção.
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Reuniões com integrantes da facção
Os investigadores afirmam que, em maio de 2023, Cléber relatou a um interlocutor ter participado de uma reunião na Zona Sul de São Paulo com integrantes do PCC para discutir o impasse envolvendo a casa. Segundo as mensagens analisadas, Marcelo de Morais Oliveira compareceu acompanhado de faccionados, que teriam tentado intimidar Cléber. Como não houve acordo, os envolvidos decidiram submeter o caso à deliberação da organização criminosa.
Em outra conversa, Cléber afirma estar enfrentando problemas relacionados às “ideias do comando” sobre o imóvel da Riviera e diz que a questão seria resolvida no chamado “resumo de SP”. Para o Ministério Público, a expressão faz referência ao sistema interno do PCC para solucionar conflitos entre pessoas ligadas à organização.
A investigação indica que, diante desse cenário, Cléber participou voluntariamente de um “tribunal do crime” promovido pela facção. Nas mensagens analisadas, ele se refere a integrantes do PCC como “irmãos”, agradece pela atenção recebida e trata Marcelo de Morais Oliveira como “companheiro” da organização criminosa. Embora afirme não ser um integrante formal da facção, o Ministério Público sustenta que Cléber se submetia às regras e à hierarquia do grupo.
Segundo os promotores, essa não teria sido a primeira vez que ele buscou o PCC para resolver uma disputa privada. A investigação aponta que Cléber já havia recorrido à facção em outro conflito envolvendo a aquisição de um galpão na Zona Leste de São Paulo, do qual também eram sócios Leonardo Meirelles e Raphael Flores Rodriguez.
Áudio do tribunal
A investigação encontrou ainda um grupo de WhatsApp chamado “Assunto Pertinente a casa Riviera”. Nele, havia uma gravação feita durante o suposto tribunal do crime, que, segundo o Ministério Público, provavelmente foi registrada por Alexandre Viriato da Silva, conhecido como “Gordão”.
Nos áudios, os investigadores identificaram a participação de integrantes apontados como lideranças da facção, entre eles um homem conhecido como “Zoio” e Antonio Carlos Sampaio, o “Compadre” ou “Kaka”, condenado anteriormente por organização criminosa. De acordo com o MP, mensagens mostram que “Compadre” chegou a manifestar disposição para manter em cativeiro pessoas envolvidas na disputa.
A investigação também identificou um encontro presencial realizado em novembro de 2023 para tratar do caso. O endereço foi compartilhado por Cléber com Antonio Carlos Ubaldo Júnior, Antonio Carlos Sampaio, Danillo Vinicius da Silva Rosário e André de Souza Haddad, conhecido como “Minhoca”, outro investigado com histórico criminal citado na decisão.
Intervenção de Léo do Moinho
Para os promotores, Antonio Carlos Ubaldo Júnior foi o responsável por aproximar Cléber de Leonardo Monteiro Moja, o Léo do Moinho. Além de atuar como um dos principais clientes da estrutura financeira investigada na Operação Janus, Léo teria usado sua posição dentro do PCC para acompanhar e intervir na disputa pela casa da Riviera.
Em uma das conversas analisadas, Cléber relata ter se encontrado com Léo do Moinho e envia uma reportagem que o apontava como liderança do crime organizado. Na sequência, afirma que o faccionado iria “acompanhar as ideia”.
Para o Ministério Público, as mensagens demonstram que Cléber buscou deliberadamente a influência de uma liderança da facção para resolver um conflito patrimonial de R$ 2 milhões.
Entre os personagens envolvidos diretamente na disputa pela casa, tiveram a prisão preventiva decretada Cléber Azevedo dos Santos, Antonio Carlos Ubaldo Júnior, Marlon Antonio Fontana, Leonardo Monteiro Moja, André de Souza Haddad, Antonio Carlos Sampaio, Alexandre Viriato da Silva, Danillo Vinicius da Silva Rosário e Marcelo de Morais Oliveira. Segundo o Ministério Público, eles participaram, em diferentes momentos, das negociações, da intermediação com integrantes do PCC ou do chamado “tribunal do crime” que teria analisado o conflito envolvendo o imóvel da Riviera.
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