Endividamento segue no maior patamar da série histórica e famílias continuam no limite financeiro

Após cinco meses consecutivos de alta, o endividamento das famílias brasileiras apresentou estabilidade em junho, mas permaneceu no maior patamar da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O levantamento mostra que 81,6% das famílias possuem algum tipo de dívida, mesmo percentual registrado em maio, enquanto 29,9% estão com contas em atraso. Embora a sequência de altas tenha sido interrompida, os indicadores mostram que a pressão sobre o orçamento doméstico continua elevada.

Os números mostram que o crédito permanece como um dos principais instrumentos utilizados pelas famílias para equilibrar as finanças em um cenário de juros elevados e custo de vida pressionado. Ao mesmo tempo, ainda que a Peic aponte uma composição um pouco mais favorável em junho, com avanço da fatia de famílias pouco endividadas (34,2%) e nova queda no tempo médio de atraso (64,8 dias), a estabilidade do indicador agregado não representa, por si só, uma melhora estrutural da saúde financeira da população.

O quadro pode sinalizar que boa parte das famílias já atingiu um limite de comprometimento da renda, tornando ainda mais importante o planejamento financeiro e o uso consciente do crédito. “O crédito faz parte da vida financeira da maioria dos brasileiros e pode ser uma ferramenta importante para antecipar projetos ou organizar o fluxo de caixa. O problema surge quando ele deixa de ser uma decisão planejada e passa a ser utilizado para cobrir despesas recorrentes, comprometendo a construção de patrimônio no longo prazo”, afirma Ana Toledo, co-founder e CIO da Ella Wealth,  especializada em gestão patrimonial e consultoria financeira. Nesse sentido, vale observar que o cartão de crédito segue como a modalidade mais utilizada pelas famílias (84,7%), à frente do carnê de loja (16%) e do crédito pessoal (13,2%), o que reforça a importância de acompanhar de perto o custo efetivo dessas operações.

Segundo a especialista, é fundamental diferenciar endividamento de inadimplência, pois dívidas relacionadas à aquisição de imóveis, investimentos ou financiamentos estruturados podem fazer parte de uma estratégia patrimonial saudável. Já o uso frequente do crédito para consumo cotidiano ou pagamento de outras dívidas tende a aumentar a vulnerabilidade financeira, especialmente em um ambiente de juros elevados.

Além disso, em um cenário de maior oferta de produtos financeiros digitais e facilidade de contratação, decisões que antes exigiam planejamento passaram a ser tomadas com poucos cliques. Essa conveniência amplia o acesso, mas também aumenta a responsabilidade do consumidor em compreender o custo efetivo das operações e o impacto que elas terão sobre seu orçamento ao longo do tempo.

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