Criadores com deficiência têm 98% de confiança e marcas ignoram

Creators 3.0 se destacam em uma era movida pela economia da paixãoDivulgação

Durante anos, o marketing de influência perseguiu alcance, engajamento e métricas de conversão como principais indicadores de sucesso. Agora, um novo levantamento revela que talvez exista um ativo ainda mais valioso que tem sido negligenciado pelas marcas: a confiança.

Pesquisa inédita da Tambor, agência especializada em creator economy, mostra que 98,2% dos brasileiros confiam nas recomendações feitas por criadores de conteúdo com deficiência. Além disso, 98,7% consideram essas indicações autênticas — índices raramente alcançados no universo digital, no qual a credibilidade dos influenciadores frequentemente é colocada à prova.

O contraste, porém, chama atenção. Mesmo diante de uma audiência altamente receptiva, criadores com deficiência continuam pouco presentes nas estratégias de marketing das empresas.

92% não se sentem representados

O estudo, realizado com 453 participantes em todo o país entre outubro e novembro de 2025, aponta que 92% das pessoas com deficiência não se sentem representadas pela publicidade brasileira. Mais da metade — 52,7% — afirma nunca ter participado de uma campanha patrocinada.

Os números revelam um paradoxo do mercado. Enquanto as empresas ampliam seus discursos sobre diversidade e inclusão, boa parte das campanhas continua reproduzindo um modelo que reserva espaço limitado para criadores com deficiência — muitas vezes em ações pontuais ligadas a datas comemorativas.

O cenário se torna ainda mais relevante sob a ótica econômica. O Brasil reúne mais de 14 milhões de pessoas com deficiência, um público responsável por movimentar cerca de R$ 260 bilhões em renda por ano.

62,7% já compraram após recomendação 

Os dados mostram que essa credibilidade se traduz em resultados concretos. Cerca de 62,7% dos entrevistados afirmam já ter adquirido produtos ou serviços após recomendações feitas por criadores com deficiência. Entre pessoas com deficiência ou que convivem diretamente com esse público, esse índice sobe para 65%.

Outro dado derruba um dos argumentos mais utilizados pelo mercado para justificar cautela nas campanhas. Embora 92% dos entrevistados afirmem identificar facilmente conteúdos patrocinados, isso não provoca rejeição automática. Pelo contrário: 82% dizem assistir normalmente às campanhas em vez de ignorá-las.

A pesquisa também mostra que, entre aqueles que nunca compraram produtos indicados por esses influenciadores, o principal motivo não está relacionado ao preço — mas simplesmente à falta de interesse pelo item anunciado. O resultado sugere que o desafio está menos na disposição do consumidor e mais na escolha dos produtos e na coerência entre marca, creator e audiência.

63,1% priorizam recomendações de criadores com deficiência

Para Vitor Bastos, fundador e CEO da Tambor, o mercado ainda trata esses influenciadores como iniciativas isoladas, quando deveria incorporá-los de forma permanente às estratégias de comunicação.

Segundo ele, quando um creator alcança níveis de confiança superiores a 98%, o diferencial competitivo deixa de ser apenas representatividade e passa a ser eficiência na comunicação. A construção de relações consistentes entre marcas e influenciadores tende a gerar campanhas mais relevantes e maior identificação com o público.

O levantamento reforça essa percepção ao mostrar que 63,1% das pessoas priorizam recomendações feitas por criadores com deficiência no momento da decisão de compra — principalmente pela autenticidade transmitida por esse tipo de conteúdo.

O desafio é transformar discurso em estratégia permanente

O marketing de influência vive uma fase de amadurecimento em que autenticidade passou a valer tanto quanto audiência. Nesse contexto, a pesquisa da Tambor aponta que a inclusão deixou de ser apenas uma pauta institucional para se tornar uma oportunidade concreta de negócios.

Mais do que ampliar a diversidade nas campanhas, os dados sugerem que existe espaço para uma revisão da forma como as marcas selecionam seus parceiros e distribuem investimentos em creator economy.

A credibilidade já está consolidada. A audiência também. O poder de consumo é evidente. O que ainda parece faltar é uma mudança estrutural nas estratégias das empresas para transformar esse potencial em relacionamentos permanentes — e não apenas em ações pontuais motivadas por calendário ou posicionamento institucional.

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