Na Expert, Galípolo evita sinalizar próximo passo da Selic mas reforça ‘calibragem’ da expectativas

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, evitou antecipar qual será o próximo movimento da taxa Selic durante participação em painel na Expert XP 2026. Ao tratar da política monetária, ele afirmou que o cenário ainda exige juros em patamar restritivo e que a instituição não tomará decisões com base em um indicador isolado.

“Não vamos reagir em função de um dado específico”, afirmou Galípolo.

A comunicação foi avaliada como neutra por Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica Investimentos. Segundo ela, as declarações não apresentaram mudanças suficientes para alterar a percepção de quem espera a continuidade do ciclo de redução dos juros ou de quem considera necessária uma postura mais cautelosa.

“Não acho que quem projeta que o Banco Central vai continuar o ciclo de calibração vá mudar muito de opinião por causa da fala. Também não acho que quem tem uma postura mais conservadora vá mudar de avaliação”, analisou Natalie.

Para a economista, Galípolo manteve uma linha próxima à adotada nas comunicações mais recentes do Comitê de Política Monetária, o Copom. A apresentação também teve caráter institucional, com explicações sobre as pesquisas realizadas pelo Banco Central e os diferentes setores consultados pela autoridade monetária.

Banco Central busca preservar opções para a Selic

Durante o painel, Galípolo afirmou que “calibração” é a palavra escolhida pelo Banco Central para descrever a condução da política monetária. Segundo ele, a instituição analisa estratégias diferentes para levar a inflação à meta dentro do horizonte relevante.

“Quando vemos os cenários possíveis para alcançar a meta no horizonte relevante, analisamos estratégias distintas”, declarou o presidente do BC.

Galípolo também observou que a taxa de juros já produz efeitos sobre a economia, mas ponderou que as expectativas de inflação também se deslocaram para cima. Esse movimento, segundo ele, contribui para a necessidade de manter a política monetária restritiva.

Na avaliação de Natalie, o Banco Central procura ganhar tempo antes de assumir um compromisso com a continuidade dos cortes ou com uma interrupção do ciclo.

“O Banco Central ainda está querendo ganhar tempo e não se comprometer com uma direção”, explicou a economista.

Ela considera que essa postura encontra justificativa em um ambiente marcado por oscilações no preço do petróleo, conflitos no Oriente Médio e sinais divergentes entre os indicadores de inflação e atividade econômica.

Galípolo também afirmou que a incerteza exige cautela na comunicação e na interpretação dos dados.

“Em um ambiente de incerteza, é natural que sejamos mais humildes no comunicado e no uso dos dados”, afirmou o presidente do BC.

Expectativas para 2028 e 2029 geram alerta

Embora Galípolo tenha reconhecido a alta das expectativas, Natalie considera que o comportamento das projeções de longo prazo demanda uma sinalização mais firme da autoridade monetária.

A economista destacou que a projeção de inflação para 2028 subiu nas últimas pesquisas do Boletim Focus mesmo com a estimativa para 2026 ainda sendo revisada para baixo.

Segundo Natalie, movimentos em que as expectativas de dois anos à frente sobem enquanto a projeção mais próxima recua são pouco frequentes na série histórica do Focus. O levantamento realizado pela instituição indica que esse tipo de evento ocorre em cerca de 5% das observações.

“Para mim, isso deveria acender uma luz vermelha. O presidente do Banco Central não foi tão incisivo quanto eu esperava”, afirmou Natalie.

Petróleo pode afetar combustíveis e expectativas

Galípolo afirmou que o choque do petróleo permanece entre as variáveis acompanhadas pelo Banco Central. Além dos efeitos diretos sobre combustíveis e custos de produção, a instituição monitora os efeitos de segunda ordem, quando a pressão começa a atingir outros preços da economia.

“Choque do petróleo é sempre uma variável importante; temos olhado os efeitos de segunda ordem”, explicou Galípolo.

O presidente do BC também declarou que o Brasil tem sido visto de forma favorável por ser exportador líquido de petróleo. Essa condição reduz parte da vulnerabilidade externa do país, mas não elimina os impactos internos da alta da commodity.

Economista recomenda pausa no ciclo de cortes

Diante da piora das expectativas e da incerteza internacional, Natalie considera que o Banco Central deveria manter a Selic na próxima reunião do Copom.

“O mais recomendável seria o Banco Central adotar uma postura especialmente cautelosa, pausar agora e, quando a situação ficar menos nebulosa, retomar o ciclo de cortes”, defendeu a economista.

Na avaliação dela, uma pausa permitiria que a autoridade monetária retomasse a flexibilização posteriormente sobre bases mais consistentes. Isso poderia abrir espaço para reduções mais efetivas, tanto em relação ao ritmo quanto ao nível final da Selic.

Natalie argumentou que os cortes já realizados produziram impacto limitado sobre as condições financeiras. Apesar da redução da taxa básica, a curva de juros permaneceu pressionada, e algumas medidas de juros reais chegaram a subir.

“Se o corte de juros não é visto como sustentável e justificável, ele não impacta tanto a curva de juros. Com isso, o efeito sobre a atividade econômica fica muito menor”, explicou Natalie.

Apesar de defender a manutenção da Selic, Natalie afirmou que a projeção poderá ser revista conforme a divulgação dos próximos indicadores. Entre os dados que serão acompanhados estão o IPCA-15, as informações sobre o mercado de trabalho e as próximas edições do Boletim Focus.

“Os dados são os donos da verdade. Se a realidade for diferente do meu cenário básico, nada impede que a gente revise”, ponderou a economista.

Galípolo defende diversidade nas pesquisas do BC

Durante o painel, Galípolo também contestou a percepção de que o Banco Central escuta exclusivamente participantes do mercado financeiro.

“Queremos combater a desinformação. Temos visto crescer, em artigos e debates, a ideia de que o BC escuta exclusivamente o mercado financeiro, mas não é verdade”, declarou o presidente da instituição.

Ele afirmou que o Banco Central busca ouvir diferentes setores da economia em suas pesquisas. Entre os instrumentos apresentados está a Firmus, que reúne informações sobre as expectativas e a percepção de empresas.

Natalie avaliou que esse foi um dos pontos institucionais da apresentação. Segundo ela, as informações mostraram aberturas e recortes que nem sempre aparecem nas divulgações regulares da autoridade monetária.

Endividamento e crédito também entram no debate

Galípolo apontou o crédito sem garantia como o principal problema relacionado ao endividamento das famílias. Segundo ele, parte dos consumidores entrou diretamente no sistema financeiro por meio do cartão de crédito.

O uso do cartão aumentou em diferentes países depois da pandemia, mas, no Brasil, o crescimento também foi impulsionado pela inclusão financeira e pelo aumento da competição.

O presidente do BC também ponderou que as estatísticas podem classificar como endividadas pessoas que ainda estão dentro do prazo de pagamento da fatura.

“100 milhões de consumidores aparecem nesses levantamentos, mas apenas cerca de 40 milhões teriam dívidas efetivas. Os demais estariam dentro da janela de 30 dias do cartão”, afirmou Galípolo.

Ao tratar das empresas, Galípolo afirmou que os pequenos negócios enfrentam dificuldades para acessar crédito mais barato por questões relacionadas à estrutura econômica, e não apenas pela ausência de garantias.

O presidente do BC também destacou o crescimento do mercado de capitais como uma alternativa de financiamento para as companhias. O acesso a esses instrumentos, no entanto, permanece mais concentrado entre empresas de maior porte.

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