
Kersten Knipp
No último dia 13 de julho, Donald Trump anunciou que cobraria dos navios que passassem pelo Estreito de Ormuz um pedágio de nada menos que 20% do valor da carga embarcada. Como já era de se esperar do presidente americano, poucas horas depois, após conversas com os países do Golfo, Trump voltou atrás.
O episódio mostra o quanto as questões de segurança e economia no Golfo Pérsico estão intimamente ligadas aos Estados Unidos, mas também entre os próprios países da região. Além disso, aponta para uma tendência fundamental: será que a guerra de EUA e de Israel contra o Irã, controversa do ponto de vista do direito internacional, fez com que as nações árabes ficassem ainda mais unidas?
Em termos de política de segurança, sim; em termos de política externa, apenas de forma limitada, afirmam especialistas. A cooperação cresce onde ameaças comuns geram interesses comuns. No entanto, não se pode falar de uma política externa comum na região do Golfo.
Posições distintas, porém comuns
“Atualmente, observamos duas tendências opostas”, afirma a cientista política Hanna Voss, da Fundação Friedrich Ebert (FES), em entrevista à DW na capital libanesa, Beirute. Segundo ela, vários países árabes enfrentam a mesma ameaça por parte do Irã: ataques com mísseis e drones à infraestrutura energética, bem como o bloqueio do Estreito de Ormuz, artéria vital para o fluxo de mercadorias de importação e exportação. Apesar disso, as rivalidades políticas dentro da região não desapareceram.
O Center for Strategic and International Studies (CSIS), em Washington, chega a uma conclusão semelhante. De acordo com a entidade, a guerra afetou diretamente, pela primeira vez, todos os Estados-membros do Conselho de Cooperação do Golfo, composto por Bahrein, Catar, Kuwait, Omã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Isso reforçou a consciência na região pelos interesses comuns de segurança, fazendo com que a cooperação ficasse mais estreita, sobretudo no que diz respeito ao intercâmbio de informações de inteligência, à coordenação de ações militares e à proteção da navegação.
Pauline Raabe, do think tank berlinense Middle East Minds, também observa essa evolução. “A cooperação ocorre principalmente em questões de segurança”, afirma ela em entrevista à DW. Os países árabes se apoiam mutuamente na defesa aérea e coordenam as posições de política externa. No entanto, há nuances: Omã e Catar apostam na mediação, enquanto Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos adotam, em alguns casos, posições mais duras em relação ao Irã.
Limites da cooperação
Segundo avaliação do Congressional Research Service (CRS), serviço de pesquisa do Congresso dos EUA, é exatamente aí que reside o limite da cooperação. Embora a colaboração esteja crescendo na prática, as nações que fazem parte do Conselho de Cooperação do Golfo continuam adotando estratégias diferentes em relação a Teerã.
“Não há uma estratégia comum bem definida”, afirma Raabe, pontuando que a cooperação ocorre principalmente onde há interesses comuns imediatos, como na proteção da navegação ou da infraestrutura crítica.
“Por isso, eu não falaria de uma nova unidade árabe”, diz Hanna Voss, da FES. A guerra forçou os países a uma colaboração pontual, mas não eliminou as divergências. Esses atores não se uniram, segundo ela, porque perseguem os mesmos objetivos políticos, mas porque compartilham as mesmas preocupações.
Assim, a relação com o Irã na região continua marcada pelo pragmatismo. “Praticamente todos os países árabes continuam interessados em manter relações pragmáticas com o Irã”, diz Voss. Especialmente Omã e Catar dispõem de canais de diálogo estreitos com a república dos aiatolás, diz.
Relação com Israel
Estratégia semelhante também vem sendo adotada por países fora do Conselho de Cooperação do Golfo. O Egito, por exemplo, segundo a avaliação de Pauline Raabe, procura evitar a todo custo uma nova escalada. “Juntamente com a Jordânia, Cairo aposta sobretudo na redução da tensão e evita desafiar diretamente o Irã”, afirma ela. Diante da crise econômica e da importância do Canal de Suez, administrado pelo Egito, o país dificilmente poderia arcar com as consequências de uma ampliação do conflito. A maioria dos navios porta-contêineres da região do Golfo passa primeiro pelo Estreito de Ormuz e, em seguida, pelo Mar Vermelho e pelo Canal de Suez em direção à Europa.
A relação com Israel também mostra os limites de uma política árabe comum. Desde a assinatura dos chamados Acordos de Abraão entre os Emirados Árabes e Israel, em 2020, a cooperação entre ambos tem sido estreita. O Egito e a Jordânia também têm tratados de paz semelhantes com Israel. A guerra em Gaza, no entanto, dificultou significativamente essa aproximação. “A distância pública em relação a Israel aumentou. Isso, no entanto, não significa que a cooperação nos bastidores tenha chegado ao fim”, acrescenta Raabe. De acordo com a especialista, os Emirados Árabes continuam seguindo uma linha pragmática, enquanto a Arábia Saudita teria, em grande parte, suspendido a cautelosa aproximação com Israel.
Em busca de novos parceiros
Para os países do Golfo Pérsico, Washington continua sendo o principal aliado em matéria de segurança. Ao mesmo tempo, cresce a convicção na região de que, no futuro, será necessário diversificar a política externa. “Os países do Golfo aprenderam que não podem mais contar apenas com os EUA”, diz Hanna Voss. Por isso, afirma a cientista política da Fundação Friedrich Ebert, essas nações ampliaram as relações com China e Índia, aprofundaram a cooperação regional e, ao mesmo tempo, mantiveram o diálogo com o Irã. O objetivo não é substituir os EUA, mas ampliar a própria margem de manobra na política externa.
Ela explica que, nesse caso, a segurança não pode ser delegada de forma permanente a potências externas. O Conselho do Oriente Médio para Assuntos Globais, com sede em Doha, no Catar, acompanha essa linha de raciocínio. Por isso, segundo a especialista, o Conselho de Cooperação do Golfo deve criar estruturas comuns de alerta preventiva, defesa aérea e serviços de inteligência, além de aprofundar institucionalmente sua cooperação em matéria de segurança
“O objetivo real desses compromissos é um equilíbrio controlado”, resume. A especialista lembra que nem um Irã militarmente fortalecido nem um Irã em colapso são do interesse da maioria dos Estados árabes. Segundo Voss, um Irã mais forte poderia exercer maior pressão sobre seus vizinhos; por outro lado, o colapso da república islâmica poderia desencadear uma nova onda de refugiados e instabilidade de longo prazo.
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Autor: Kersten Knipp
