O Oriente Médio em chamas

O verão é a estação em que ocorre a maior parte das guerras nesta parte do mundo.ChatGPT

Quem não conhece aquela sensação angustiante da corrida imaginária contra o tempo? Quando, sentindo uma espécie de vertigem, você conta cada segundo na esperança (vã) de que lhe será permitido dar um sprint alucinado em direção ao futuro, como se estivesse correndo para escapar da aproximação de um furacão.

Essa foi, mais ou menos, a sensação que me acompanhou em minha longuíssima viagem de volta do Brasil para Israel, nesta semana que está terminando. Durante quase 30 horas (acredite se quiser), lutei, em minha fantasia, para acelerar o tempo de voo e o da conexão prolongada nos Emirados Árabes — justamente em Dubai, um dos principais alvos iranianos deste ano — enquanto acompanhava as notícias (como sempre histéricas) sobre a escalada da tensão no Oriente Médio.

Nem minha premente pressa diminuiu minha surpresa ao perceber o grande número de voos — não sei dizer se isso é algo rotineiro ou uma característica específica deste momento — que deixaram Dubai em direção a Tel Aviv durante a madrugada e a manhã de sexta-feira. Uma verdadeira ponte aérea, realizada a partir do único portão de embarque daquele aeroporto imenso que traz uma letra após o número (15A). Adoraria entender o porquê dessa exceção, mas chuto que tenha a ver com a eterna preocupação dos aeroportos em fazer os israelenses embarcarem a partir de algum ângulo mais protegido do edifício.

Verão inclemente

Claro que, estando no auge do verão, um calor insano me recebeu nos Emirados Árabes Unidos depois de dias frescos em São Paulo. Foi uma experiência alucinante percorrer o trajeto da saída do portão de embarque até a subida ao avião, estacionado bem, mas bem longe do terminal — a ponto de, durante a viagem de miniônibus até lá, me dar a impressão de que chegaríamos a Israel por terra. Foi uma preparação exagerada (às oito horas da manhã, os termômetros marcavam 38 graus) para o que me aguardava na Terra Santa.

Não há nenhuma explicação esotérica para o fato de esta ser a estação do ano em que a maioria das campanhas militares ocorre nessa região. Afinal, o verão proporciona melhor visibilidade às forças aéreas do que os invernos chuvosos. Curiosa como sou, procurei saber se essa “preferência” é compartilhada pelos soldados israelenses e, na primeira oportunidade, perguntei sobre isso a um combatente da reserva que acabara de passar alguns meses nas geladas montanhas do Líbano. Ele confirmou: é preferível lutar no verão e suar montes do que morrer de frio durante as longas e molhadas noites de inverno.

Eu não concordo, pois o calor é meu grande inimigo por aqui. Mas nunca passei uma noite ao relento em uma montanha nevada vestindo uma farda. Assim, me resta acreditar nas palavras dele.

O sofrimento do povo iraniano

Entre as várias horas de conexão, ouvi uma entrevista com o ativista e autor iraniano-canadense Armin Navabi (caso você entenda bem o inglês, este é o link). Ele apresenta fatos interessantes sobre as reais possibilidades de uma ressurreição iraniana que destrone o sanguinário regime islâmico.

Manifestantes iranianos condenados à morteHrana

Ao ouvi-lo, foi chocante, para mim, foi revisitar as cenas que ocorreram no Irã em janeiro deste ano, que hoje parecem tão distantes, mesmo que tenham acontecido há apenas seis meses. Mesmo tendo sido considerado um dos piores massacres de civis da história do planeta, a mídia, assim como os governos de todo o mundo, rapidamente apagou essas mortes da memória para focar a atenção na guerra pelo domínio do Estreito de Ormuz.

Com Navabi aprendi que os cerca de 40 mil iranianos mortos em 8 e 9 de janeiro não foram assassinados em 48 horas, mas ao longo de apenas dez horas — os ataques da Guarda Revolucionária e de seus comparsas se concentraram durante as noites.

Lembrei-me das terríveis imagens dos embates covardes entre soldados bem equipados e a população desarmada. Voltaram à mente as cenas de violência sangrenta nas ruas e, depois, os milhares de sacos pretos com corpos cobrindo as ruas das cidades. Os necrotérios do Irã, assim como aconteceria em qualquer país do mundo, não estavam preparados para lidar com um volume tão grande de cadáveres.

Aqui em Israel, acompanhamos diariamente as notícias sobre a execução de manifestantes presos naqueles dias. A pena mais comum é o enforcamento. Calculam-se 70 mil prisioneiros, mas esse número tenebroso diminui a cada dia: são artistas plásticos, estudantes, profissionais liberais, enfermeiros, professoras etc.

E esse é, vale lembrar, o regime que o governo brasileiro (e outros) se abstém, deselegantemente, de condenar. Que jornalistas brasileiros (e de outros países) abordam como se representasse um Estado normativo e respeitável, e não como uma gangue psicótica de turbantes que, desde que tomou o poder há quase 50 anos, migrou rapidamente da teocracia para uma ditadura brutal.

É uma vergonha, diria Boris Casoy, e com razão.

 

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