Super El Niño deve provocar ondas de calor frequentes e impactar agricultura no interior de SP: ‘Não está imune’, alertam especialistas


O que é o El Niño e como ele pode afetar o seu dia a dia
O interior de São Paulo não está imune ao chamado super El Niño, apesar da região não sofrer com impactos tão severos como os esperados no Norte, Nordeste e Sul do Brasil. A região paulista deverá ter ondas de calor mais intensas e frequentes, além de chuvas irregulares. Entenda como o fenômeno climático pode interferir na produção e no mercado em diferentes setores da agricultura para Piracicaba (SP) e região, segundo análises de especialistas consultados pelo g1.
Em vez de um padrão fixo e previsível, como a seca na Amazônia ou as inundações no Sul, o interior de São Paulo é marcado por forte oscilação climática e eventos extremos.
🌊O El Niño é caracterizado pelo aquecimento fora do normal das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial. Esse aquecimento altera a circulação dos ventos e muda os padrões de chuva e temperatura em várias partes do planeta.
Depois de bater recorde de menor temperatura do ano, Piracicaba alcançou 30ºC em pleno inverno
Claudia Assencio/g1
Agricultura da região de Piracicaba
Com a tendência de ocorrências de chuvas e temperaturas acima da média, a produção de cana-de-açúcar na região de Piracicaba (SP) deve se beneficiar.
O setor de hortaliças, por outro lado, deve ser prejudicado, estima o professor e pesquisador Fábio Marin, do Departamento de Engenharia de Biossistemas (LEB) da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, campus da Universidade de São Paulo (Esalq/USP) na cidade.
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“Para nossa região, por se tratar de uma zona de transição, os impactos do El Niño não são tão acentuados como se espera para o Rio Grande do Sul e para as Regiões Norte e Nordeste. Em anos de El Niño forte, temos normalmente uma elevação na produção de cana na região, com benefícios também para as pastagens e demais lavouras, trazendo, no geral, benefícios aos produtores”, pontuou
Agora no g1
Hortaliças
Marin afirma ainda que o principal diferencial de 2026 deve ser a temperatura. “As projeções indicam até 2 °C acima da média, elevando a demanda hídrica e os desafios de manejo na horticultura”, conforme reiterou em entrevista a pesquisadores do Cepea-Esalq, pela revista Hortifruti Brasil.
“O impacto mais negativo fica por conta das hortaliças, que sofrem com o excesso de umidade e o forte calor, com possível impacto nos preços durante o verão 26/27”, elencou o agrometeorologista e especialista em modelagem de sistemas agrícolas.
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Claudia Assencio/g1
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São Paulo não está em zona neutra
O cenário previsto com o El Niño é o de ondas de calor e frentes frias cada vez mais intensas.
São Paulo, destaca o climatologista, está exposto “simultaneamente à possibilidade de ser alcançado por períodos prolongados de seca e altas temperaturas do ar”, bem como tempestades que podem causar enxurradas, inundações e alagamentos.
Produtores de hortaliças perdem produção após temporais em Piracicaba
Edijan Del Santo/EPTV
O climatologista Paulo Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e membro do Comitê Científico Conjunto do Programa Mundial de Pesquisa Climática (WCRP-JSC), afirma que o aumento global da temperatura do ar, do mar e dos continentes intensifica a instabilidade atmosférica em todo o planeta.
“Isso significa que as perturbações atmosféricas se tornam mais intensas e frequentes sobre todos os continentes. O interior paulista não é exceção. Com o evoluir do corrente evento El Niño-Oscilação Sul, com razão denominado de Super El Niño, as cidades e o campo das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil devem se preparar para a ocorrência de precipitações intensas e ondas de calor”, alerta.
O especialista aponta que a sobreposição com o El Niño potencializa os extremos climáticos.
“Como ocorrido durante o mesmo fenômeno em 2024, com secas extremas na Amazônia e precipitações pluviométricas muito intensas em estados como o Rio Grande do Sul e São Paulo”, disse.
El Niño em São Paulo: ‘difícil de prever’
Em meio às incertezas sobre o impacto do El Niño no estado de São Paulo, o pesquisador Marcelo Seluchi, coordenador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), alerta que o fenômeno se manifesta na região por meio de sistemas extremos de difícil previsibilidade. Por isso, ressalta o cientista, é preciso estar sempre preparado.
Ao contrário do Norte, fortemente atingido pela seca, e do Sul, mais vulnerável a inundações, São Paulo não possui um padrão fixo de chuvas sob a influência do El Niño, alternando em seu histórico tanto períodos de fortes cheias quanto de secas severas.
Seluchi, em concordância com os demais especialistas entrevistados pelo g1, também indica que o efeito mais consistente e preocupante no interior de São Paulo é o aumento na frequência das ondas de calor, fator que intensifica a evaporação e eleva significativamente a pressão sobre os recursos hídricos e o sistema elétrico.
Quando o El Niño deve chegar?
Carlos Afonso Nobre, pesquisador do Cemaden e professor no MBA Internacional em Emergências Climáticas: Sociedade, Cidades e Florestas da Esalq-USP, destaca que as previsões dos órgãos científicos em todo o mundo apontam que o El Niño alcançará o pico a partir de setembro de 2026.
“A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) nos Estados Unidos, na Europa o ECMWF, a Organização Meteorológica Mundial, e aqui no Brasil o Inpe e o Cemaden, todos estão prevendo que esse El Niño vai atingir uma força muito grande, talvez um dos mais fortes dos últimos 100 anos”, afirmou.
Nobre indica que o El Niño 2026 deverá atingir sua força máxima em setembro, outubro, novembro e dezembro e vai durar até março e abril de 2027.
“Ele já começou. Por exemplo, essas chuvas fortes no Rio Grande do Sul nos últimos dias já estão associadas a esse El Niño. Nós temos que estar muito preparados”, alertou. “No Sudeste, vamos nos preparar, principalmente, para as ondas de calor e, às vezes, pancadas fortes de chuva”, acrescentou.
O que é possível fazer?
Paulo Nobre explica que a adaptação a uma condição de extremos climáticos requer ações sistemáticas. Entre os exemplos de iniciativa, o pesquisador listou:
Desassoreamento de leitos de rios e do sistema de coleta de águas pluviais
Replantio de matas ciliares em todos os cursos d’água do município, assim como ao longo das divisas de propriedades rurais
Aumento da permeabilidade das ruas e calçadas (as chamadas cidades-esponja)
Arborização das ruas e praças, com disponibilização de locais públicos para refrescamento da população
Guarnições dos Corpos de Bombeiros devidamente instrumentadas, além de encostas e topos de morros reflorestados
Cinturões verdes ao redor de cada cidade, produtores de água e amenizadores de ondas de calor
“Estas são apenas algumas ações dentro de uma visão holística de relações socioeconômico-naturais, as quais precisam ser compreendidas como desejadas e mandatórias, assim como se tornou o cinto de segurança em cada automóvel”, argumentou.
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