Lula, calma

Protestos foram convocados pelas redesCreative Commons

O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, resolveu girar sua bússola durante a Convenção do PT, em São Paulo, no final de semana. Candidato à permanência na cadeira do Palácio do Planalto, discursou com eloquência. O público presente vibrava a cada fala de seu líder.

Em dado momento, teceu elogios ao seu vice, Geraldo Alckmin, que permanece na chapa que irá às urnas eletrônicas em outubro. Os elogios, embora pertinentes, tiveram um momento de lapso de memória. Lula disse que seu vice o deixava tranquilo para viajar pelo mundo e falar do Brasil, pois Alckmin não lhe causaria nenhum transtorno institucional enquanto ele estivesse no exercício da Presidência.

Em seguida, voltou ao passado e afirmou que Alckmin não iria conspirar, como, segundo ele, fez um vice tempos atrás com Dilma Rousseff. Esse vice era Michel Temer.

Geraldo Alckmin e Simone Tebet ouviram a declaração com certo desconforto. Ambos apoiaram a saída de Dilma Rousseff da Presidência da República. Simples assim.

Lula erra ao jogar para a plateia uma narrativa que grande parte do Brasil conhece e interpreta de outra forma. O país vivia uma situação extremamente adversa, com uma recessão de tamanha proporção que causava preocupação dentro e fora do Brasil. Não havia nenhuma luz no fim do túnel para retirar o país do fundo do poço.

Dilma virou as costas para boa parte da classe política com assento no Congresso Nacional. Preferiu conduzir o país de forma isolada. Errou muito em seu segundo mandato. Confiou demais no espelho, e ele não lhe deu tréguas.

Michel Temer foi um vice que buscou garantir a sustentação do mandato, concentrando-se nas articulações políticas que Dilma não possuía. Sustentou, até onde foi possível, acordos que, segundo muitos parlamentares, deixaram de ser cumpridos pelo governo.

Com a economia dando sinais preocupantes e um cenário que muitos comparavam ao da Venezuela, Dilma Rousseff não olhou para trás nem avaliou as consequências do caminho adotado. Acabou afastada do cargo.

Michel Temer, considerado por seus críticos um “golpista”, recolocou o Brasil nos trilhos, na avaliação de seus apoiadores. Os avanços foram visíveis aos olhos de muitos brasileiros. Enfrentou inúmeras dificuldades, algumas delas, segundo seus aliados, provocadas e orquestradas por adversários que desejavam seu fracasso, de olho em possíveis dividendos políticos. Um desses episódios envolveu tentativas de apoio ao governo de Nicolás Maduro, na Venezuela.

O Brasil deve ao governo Michel Temer, na visão deste articulista, parte importante da reorganização do país.

Lula parece ter retomado o discurso do chamado “golpe”, acreditando que isso poderá alavancar sua performance eleitoral. Até o momento, sua estratégia parece surtir efeito.

No entanto, Lula não pode esquecer que existe um espelho na sala. A plateia é uma coisa; o eleitorado é outra. Apresentar um projeto de país seria muito mais adequado do que insistir na narrativa do “golpe”.

Para este articulista, não houve golpe. Houve, sim, um golpe de sorte, pelo qual o Brasil ainda agradece. Sem ele…

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