
Fábio Corrêa
Na manhã seguinte ao atentado à Parada LGBTQ+ em Berlim, as bandeiras da Alemanha no Bundestag, o Parlamento federal alemão, amanheceram a meio-mastro. O ato, determinado pela presidente do Bundestag, Julia Klöckner, da conservadora União Democrata Cristã, mesmo partido do chanceler federal Friedrich Merz, transmitia a solidariedade da classe política – e do governo – alemão às vítimas do atropelamento em massa que, no sábado à noite (25/07), havia causado a morte de uma pessoa e deixado ao menos 29 feridas na Christopher Street Day (CSD), umas das maiores celebrações do orgulho gay na Europa.
Simbolizava também a perplexidade de representantes de um país atacado, como disse a própria Klöckner, em sua “liberdade, igualdade de direitos e diversidade”, por uma violência, desta vez nas palavras de Merz, “não só à comunidade queer, mas também à nossa liberdade”. Mas os observadores mais atentos não se esqueceram de um detalhe: a ausência a bandeira do Orgulho LGBTQ+ nos mastros do Bundestag.
No ano passado, a própria presidente do Parlamento tinha impedido que o arco-íris fosse hasteado, além de 17 de maio, Dia Internacional Contra a Homofobia, Bifobia, Interfobia e Transfobia, também nos dias do CSD, o que vinha ocorrendo desde 2022.
“Nossa bandeira é a da Alemanha e ela representa tudo o que nossa Constituição defende: liberdade, dignidade humana – e também o direito à autodeterminação sexual. Nenhuma bandeira está acima dela”, justificou Klöckner, na ocasião. Merz foi mais direto: “O Bundestag não é uma tenda de circo” para se colocar bandeiras de todo tipo, disse ele, em uma entrevista à TV alemã.
O caso ilustra, se não a negligência, ao menos o distanciamento do atual governo alemão nas questões de diversidade e na proteção de pessoas LGBTQ+, em um momento em que os dados mostram um aumento significativo em casos de violência à população queer pelo país. Crimes relacionados às categorias “orientação sexual” e “diversidade de gênero” cresceram quase dez vezes desde 2010, de acordo com dados do Departamento Federal de Investigações da Alemanha (Bundeskriminalamt). Em 2025, foram registrados, em média, quase seis casos de violência contra a comunidade LGBTQ+ por dia em todo o país.
“Somos alvo de extremistas”
Diante desse cenário, o atentado terrorista em Berlim foi apenas a “ponta do iceberg”, indicaram os representantes da comunidade LGBTQ+. “Estamos diante de um fracasso do Estado em matéria de política de segurança”, disse Andre Lehmann, um dos diretores da Federação da Diversidade Queer – LSVD⁺, maior organização não governamental de direitos LGBTQ+ na Alemanha, à agência epd.
“Precisamos de ações concretas. Somos alvo de extremistas”, acrescentou Lehman, que criticou medidas como o corte no programa federal “Demokratie leben” (Viver a democracia), voltado para a garantia de visibilidade e segurança da comunidade queer. Para ele, esse é um sinal fatal.
A redução no programa vem sendo promovida pela ministra da Família e Educação, Karin Prien (CDU), que chegou a declarar, em entrevista ao jornal alemão taz, não enxergar a diversidade como “objetivo de financiamento governamental” e que os projetos financiados se concentravam excessivamente no “meio liberal de esquerda”. Os cortes no “Demokratie leben”, no entanto, podem levar ao fechamento de centros de aconselhamento para jovens LGBTQ+ e na redução de programas de prevenção da violência contra pessoas queer.
“Percebemos, no dia a dia, que a violência contra indivíduos está aumentando nas ruas. Sei que a polícia está em um bom caminho, mas precisamos melhorar, educar melhor os agentes de segurança”, apontou a encarregada de assuntos queer no Bundestag, Sophie Koch (SPD), à emissora phoenix sobre o atentado em Berlim.
“Mas, antes de tudo, precisamos dar oportunidade para que a comunidade LGBTQ+ tenha locais onde se sinta segura, pessoas com quem possam falar e que projetos da comunidade não sejam cortados e que continuem tendo suporte, porque precisamos desses espaços de segurança mais do que nunca”, acrescentou.
Koch, no entanto, tem tido cada vez mais dificuldades no cargo que ocupa no Parlamento. Segundo uma reportagem da revista Spiegel, publicada antes do atentado em Berlim, o gabinete sofreu cortes de mais da metade do pessoal após a chegada do novo governo, em maio de 2025, formado pela coalizão de conservadores e social-democratas. Além disso, parlamentares do Bundestag vêm adiando a inclusão, na Constituição alemã, de uma emenda já aprovada que estende às pessoas queer a proteção contra discriminação. Até a publicação da matéria da Spiegel, em maio deste ano, Koch não havia sido recebida por Merz.
Alerta contra a instrumentalização do atentado
O atentado causado por Abdul B., de 21 anos, nascido em Berlim e filho de uma imigrante libanesa, foi classificado pelo governo alemão como “ataque terrorista islâmico”. O suspeito, que foi morto no dia seguinte ao incidente por agentes de segurança no oeste de Berlim, havia tentado se juntar ao Estado Islâmico e tinha sido preso preventivamente pelas autoridades alemãs, mas estava em liberdade desde maio. O jovem estava sob monitoramento da polícia, que mesmo assim não conseguiram prevenir o ataque.
Como esperado, a divulgação dessas informações foi um prato cheio para políticos de diversos espectros, em especial da Alternativa para a Alemanha (AfD), de ultradireita, mas também dos conservadores, clamarem por mudanças na política migratória e maior garantia da “lei e da ordem”.
Merz, por exemplo, disse que o país terá que responder com “compostura, mas também com determinação” e fez coro para medidas de restrição de circulação de pessoas que representem ameaças potenciais. Natalie Pawlik (SPD), a responsável por assuntos de integração da coalizão federal, também exigiu esforços no combate à radicalização de crianças e jovens, principalmente nos ambientes online.
“Crianças e jovens devem ser capazes de reconhecer propaganda extremista, avaliá-la criticamente e resistir a ela, tanto no pátio da escola quanto no espaço digital”, afirmou ela, ao jornal Rheinische Post.
A repercussão causou críticas dos organizadores do Christopher Street Day de Berlim, que repudiou “qualquer tentativa” de instrumentalizar o atentado para incitar o ódio contra muçulmanos e pessoas de determinada origem. A entidade pediu moderação, afirmando que, por trás desse tipo de violência, está a tentativa de dividir a sociedade e incitar as pessoas umas contra as outras. “Não permitiremos isso”, disse a Associação do CSD.
Para este fim de semana, quando ocorre a Parada do Orgulho LGBTQ+ em Hamburgo, a polícia prometeu maior reforço na segurança. No entanto, como notou Mohamed Amjahid, articulista do jornal taz e especialista em direitos humanos, “mais policiais, com todo o efetivo policial que já temos, não traz mais segurança”.
“O que está sendo deixado de lado aqui é que pessoas queer precisam de espaços próprios e de apoio para se protegerem e se fortalecerem. Depois do atentado contra o CSD, o que precisa estar em debate é a eficácia da estratégia de segurança, não a ampliação da vigilância policial”, escreveu ele no taz. Pois, como lembra Ahjahid, nos extremismos, tanto de direita quanto islâmico, a “desumanização das pessoas queer é o denominador comum”.
fcl (epd, dpa, AFP, ots)
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Autor: Fábio Corrêa
