O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) registrou alta de 0,06% em julho, abaixo dos 0,41% observados em junho. Com o resultado divulgado pelo IBGE, nesta terça-feira (28), a prévia da inflação acumula avanço de 3,51% no ano e de 4,52% em 12 meses, ante 4,80% na leitura anterior.
O resultado ficou abaixo das projeções apresentadas por economistas e instituições financeiras. Para Leonardo Costa, economista do ASA, a principal surpresa baixista veio da alimentação no domicílio, especialmente dos produtos in natura, que apresentaram quedas mais intensas do que o esperado.
O grupo Alimentação e bebidas recuou 0,66% no mês e exerceu impacto negativo de 0,15 ponto percentual sobre o índice. Apenas a alimentação no domicílio caiu 1,14%, com reduções nos preços do tomate, da batata-inglesa e do café moído.
IPCA-15 veio abaixo das projeções
O ASA projetava alta de 0,17% para o IPCA-15 de julho, enquanto a mediana do mercado apontava avanço de 0,21%, segundo Costa. O economista destacou que a média dos núcleos de inflação avançou 0,21%, também abaixo da projeção de 0,24% do ASA e da mediana de 0,25% do mercado. Em 12 meses, a média dos núcleos desacelerou para 4,35%.
Os núcleos são medidas que procuram reduzir a influência de itens mais voláteis e ajudam a avaliar a tendência da inflação. Segundo Costa, a surpresa baixista também apareceu no núcleo de serviços, com deflação nos serviços veiculares e queda de itens ligados à recreação.
“A inflação de curto prazo segue apresentando um comportamento benigno, liderado pela queda dos preços de alimentos e combustíveis”, afirmou Costa.
Na avaliação do economista, a redução dos alimentos reflete uma sazonalidade mais favorável para os produtos agrícolas. Nos combustíveis, o movimento estaria associado à dissipação da primeira onda de impactos do choque do petróleo observado no início do ano.
Serviços e bens industriais mostram desaceleração
A análise do Daycoval também apontou que a surpresa baixista foi disseminada entre diferentes componentes do índice. O banco projetava inflação de 0,17% em julho. Além dos alimentos, o banco destacou a deflação registrada em bens industriais, como vestuário, etanol, eletrodomésticos e automóveis. Na avaliação do Daycoval, o grupo mantém um comportamento de menor pressão sobre a inflação.
Os serviços também vieram abaixo do esperado, com quedas em serviços automotivos, transporte por aplicativos e atividades de lazer. No sentido contrário, as passagens aéreas subiram 11,70%, enquanto a alimentação fora do domicílio acelerou de 0,40% para 0,55%.
O Daycoval ressaltou, porém, que os itens intensivos em mão de obra continuam exercendo pressão sobre a inflação de serviços, ainda que sem deterioração adicional. O núcleo de serviços subjacentes manteve trajetória de desaceleração na comparação anual.
Para Costa, a inflação de serviços começa a apresentar sinais mais claros de moderação, em linha com o esfriamento gradual da atividade econômica e do mercado de trabalho.
“Sem indicar uma desaceleração abrupta da economia, esse ambiente tende a favorecer leituras mais benignas para a inflação subjacente no curto prazo”, disse o economista do ASA.
Energia elétrica lidera as pressões de alta
Apesar da desaceleração do índice geral, o grupo Habitação avançou 0,97% e exerceu o principal impacto positivo no IPCA-15, de 0,15 ponto percentual. A energia elétrica residencial subiu 3,03% e respondeu sozinha por 0,12 ponto percentual do resultado mensal. A alta refletiu a vigência da bandeira tarifária amarela e a incorporação de reajustes em diferentes concessionárias.
O Daycoval avaliou que os preços administrados vieram abaixo do esperado devido à queda mais intensa da gasolina. A energia elétrica, por outro lado, apresentou alta próxima da projetada e pressionou o segmento.
Em Transportes, a inflação foi de 0,11%. A alta das passagens aéreas foi parcialmente compensada pela redução de 0,90% dos combustíveis, com quedas na gasolina, no etanol, no diesel e no gás veicular.
Núcleos trazem sinais positivos, avalia Bmg
Flávio Serrano, economista-chefe do Banco Bmg, afirmou que o resultado ficou abaixo da projeção de 0,19% da instituição e do consenso de mercado considerado pelo banco, de 0,22%. Segundo Serrano, a principal surpresa também ocorreu na alimentação no domicílio. O grupo recuou 1,14%, enquanto o Bmg projetava queda de 0,86%.
O economista destacou ainda sinais positivos nas medidas de inflação subjacente. Pelos cálculos do banco, a média dos núcleos avançou 0,20%, abaixo da expectativa de 0,24%.
Já a medida subjacente da inflação de serviços apresentou alta de 0,30%, próxima da projeção de 0,29%.
“No geral, o IPCA-15 traz notícias positivas em meio a um ambiente complexo para o Banco Central, uma vez que as expectativas de inflação seguem subindo e o mercado de trabalho continua apertado”, afirmou Serrano.
Analistas mantêm cautela com o cenário à frente
Apesar do resultado abaixo das projeções, as análises indicam que o cenário ainda exige cautela. O Daycoval chamou atenção para a possibilidade de condições climáticas mais adversas no segundo semestre, com a ocorrência do El Niño, o que pode voltar a pressionar os preços dos alimentos. A instituição projeta inflação de 5,2% ao final de 2026.
O ASA avalia que a inflação pode permanecer relativamente comportada nos próximos meses. Segundo Costa, os bens industrializados perdem força após terem sido pressionados pelos efeitos do petróleo e do câmbio.
IPCA-15 pode influenciar decisão do Copom
A leitura abaixo do esperado ocorre antes da próxima reunião do Comitê de Política Monetária, que decidirá o nível da taxa Selic. Serrano acredita que o Copom realizará um novo corte de 0,25 ponto percentual, levando a taxa básica de juros a 14,00% ao ano.
O economista avalia, no entanto, que o Banco Central poderá interromper em breve o processo de redução dos juros para observar a evolução das expectativas de inflação, do mercado de trabalho e dos indicadores de preços.
Nesse contexto, o IPCA-15 de julho amplia os sinais de desaceleração da inflação corrente e dos núcleos, mas não elimina os riscos associados às expectativas desancoradas, aos serviços intensivos em trabalho e às pressões que podem surgir nos alimentos durante o segundo semestre.
Leia mais informações sobre o IPCA-15
IPCA-15 fica em 0,06% em julho, com queda dos alimentos
O post Inflação perde força em julho, mas economistas ainda recomendam cautela apareceu primeiro em BM&C NEWS.
