Se você tem entre 30 a 40 e tantos anos, provavelmente vive aquela sensação esquisita de trabalhar até não poder mais, economizar em tudo, e ainda assim ver o sonho da casa própria ou da estabilidade financeira sumir no horizonte. Você olha para o seu bolso, vê a realidade crua e percebe que as contas simplesmente não fecham. Mas aí, num passe de mágica bizarro, você abre os portais de notícias ou liga a TV e se depara com dados oficiais orgulhosos comemorando que a “classe média” está expandindo e batendo recordes no Brasil. Pleno emprego… Pib subindo… Como assim? Será que estamos vivendo em universos paralelos? A resposta curta é: sim, você está sendo enganado por uma ilusão de ótica estatística que foi cirurgicamente desenhada para fins eleitorais.
Para entender esse nó na cabeça, a gente precisa olhar para os dados da PNAD e os estudos da FGV Social, mas com os óculos da realidade. O gráfico de evolução das classes econômicas mostra uma linha ascendente da Classe C.

No papel, parece que o país está enriquecendo. Na prática, o segredo do “milagre” está no rebaixamento do critério de avaliação. A metodologia oficial não mede o seu poder de compra real, a sua capacidade de ir ao supermercado sem precisar fazer as contas de quanto dará a nota, ou se você consegue financiar um apartamento de dois quartos, sem ter que comprometer metade do seu salário por 35 anos. Ela mede uma média puramente matemática e relativa.

Análise do Salto Estatístico até 2026
Praticamente o dobro (2022-2026): O contingente nacional cresceu de forma acelerada na última medição. Em dezembro de 2022, o Cadastro Único contabilizava cerca de 198,7 mil cidadãos nessa condição. Em meados de 2026, esse número saltou para 392,4 mil registros, representando uma alta de 97,4% no período
Ou seja: se a população geral do país empobreceu de forma generalizada e essa régua que define a linha de corte cai junto. Se todo mundo afunda, quem está com a água na altura do nariz é promovido ao “topo” da pirâmide. É um malabarismo burocrático genial para inflar palanques políticos.
Essa ridicularização com a inteligência do brasileiro não é de hoje. Quem tem um pouquinho mais de memória, e mais algumas primaveras de vida ou não se deixa blindar por ideologia barata, lembra perfeitamente do absurdo retórico desenhado nos primeiros mandatos do grupo político que está no executivo do País. Naquela época, o governo federal declarou solenemente que um cidadão que ganhasse uma renda individual na faixa dos R$ 1.000, (o que dava pouco mais de dois salários mínimos na época) , tinha virado a “classe média”. Foi uma revolta generalizada na época, e com total razão. Transformar, num passe de mágica estatística, um trabalhador simples em um “cidadão próspero” é de um cinismo sem tamanho. E adivinha? A receita do bolo continua exatamente a mesma.
A realidade nua e crua fora das redes sociais do governo é que enquanto o seu poder de compra é triturado mês a mês por uma inflação persistente (eu digo inflação real que chega no seu bolso), os preços dos imóveis e dos aluguéis que deram uma dispararam desproporcional a ponto de transformar a moradia em um artigo de luxo inacessível. Para piorar, a insistência obsessiva do governo em gastar mais do que arrecada, ignorando qualquer fiapo de responsabilidade fiscal e expandindo a máquina pública de forma irresponsável, joga o país num ciclo vicioso. O resultado? O Banco Central é obrigado a cravar a Selic nas alturas para frear o descontrole de Brasília. O Brasil ostenta hoje um dos maiores juros reais do planeta, sufocando o setor produtivo, gerando recordes históricos de recuperações judiciais de empresas e queimando mais de R$ 1 trilhão por ano apenas para rolar os juros da dívida pública.
Esse dinheiro astronômico que é jogado no ralo pelo desajuste fiscal do Estado deveria estar em investimentos de real retorno a população.
Fora que maquiam até os índices de desemprego, manipulando a percepção da taxa NAIRU (artigo já escrito nessa coluna) no mercado de trabalho e vendendo a narrativa de que o Brasil está bombando. E muita gente caia nessa ficção.
O Truque de Mágica das Faixas de Renda e a Realidade Sufocante do SERASA
Para entender como essa engrenagem de ilusão funciona na prática, basta olhar para a régua oficial que o governo usa para definir quem é quem na pirâmide social. O critério oficial adota uma divisão por salários mínimos que joga a barra da “Classe C” (a classe média) lá no chão. Pelas regras de corte, uma família com renda total combinada de pouco mais de R$ 3.000 mensais já é carimbada nos relatórios de Brasília como membro legítimo da classe média. Em que lugar uma família que vive com essa renda em uma capital brasileira? Nenhum.

O teatro público e a vida real aparecem quando cruzamos esses dados com o indicador mais fiel do sufoco do brasileiro: os relatórios de inadimplência do SERASA Experian , e esses sim, são incontestáveis, e não há um espectro político que seja, que rebate esses números. Interessante que ninguém duvida né, e porque será? Porque todos os envolvidos sabem que enquanto a narrativa oficial jura de pé junto que a classe média não para de expandir, a realidade bate à porta com quase metade da população adulta do país (45,2%) com o nome negativado. São mais de 75 milhões de brasileiros adultos com o nome sujo, presos na armadilha do cartão de crédito, do cheque especial e dos carnês de embutidos.

Facilitou-se o acesso ao crédito, mais crédito e cada vez mais crédito sem o lastro de um ganho real de salário ou de produtividade. O resultado é esse recorde histórico de inadimplência.
O peso dos impostos (prática mais covarde) sobre o consumo é o fator que mais acelera o achatamento da classe média brasileira.

Diferente de países desenvolvidos, onde o imposto incide mais sobre a renda e o patrimônio, o modelo tributário do Brasil penaliza quem ganha menos e gasta tudo o que recebe para sobreviver.
À pensar …
No Brasil contemporâneo, a maquiagem das planilhas oficiais tenta esconder o óbvio: a nossa suposta classe média não está prosperando; ela está, na verdade, negativada e lutando para não afundar de vez.
*Coluna escrita por Rui das Neves, administrador de empresas, investidor e possui vasta experiência no como incorporador imobiliário.
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