
Lula falou na cara.
Diante de Donald Trump, o presidente abriu a Assembleia Geral das Nações Unidas, nesta terça-feira, para levar ao mundo o que tem falado dia sim, outro também, ao público interno.
Quem acompanha a posição dele em relação a temas como o genocídio em Gaza e os ataques da extrema direita, com os Estados Unidos à frente, dos organismos multilaterais, como a própria ONU (mas também a Organização Mundial do Comércio e da Saúde), não viu surpresas na fala.
A dúvida era só em relação ao tim.
E ela se desfez no minuto 1, quando deixou claro aos anfitriões que não era hora de celebração.
Lula disse aos líderes mundiais globais que existe um paralelo “evidente” entre a crise do multilateralismo e o enfraquecimento da democracia. Fala isso com conhecimento de causa: à revelia de organizações como a OMC, Trump usou um pretexto político para aplicar sanções econômicas ao Brasil. Isso porque ele não gostou de saber que seus embaixadores por aqui – os falsos patriotas citados por Lula no discurso – foram condenados na Justiça por atentarem contra a democracia.
O presidente disse que o Planeta assiste à consolidação de uma “desordem internacional” que atenta contra a soberania por meio de “sanções arbitrárias” e “intervenções unilaterais” – a regra, segundo ele, do jogo agora.
Aqui ele tirou da extrema-direita o monopólio de defensores da pátria.
Dali em diante sobrou pra todo mundo: para Jair Bolsonaro, citado indiretamente como artífice de uma tentativa de golpe de Estado, os grupos armamentistas, as nações europeias que se negam a pagar pela redução das emissões de carbono e também para quem se omite diante da escalada autoritária.
O governo israelense também foi lembrado no discurso.
E também as big techs, citadas como oligarcas que exploram o medo e monetizam o ódio com a ajuda dos “falsos profetas”.
Aqui a linguagem da diplomacia incorporou uma passagem bíblica.
Está em Mateus, capítulo 7, versículo 15: “Cuidado com os falsos profetas. Eles vêm até vós vestidos de ovelha, mas por dentro são lobos ferozes.”
Lula entendeu que essa guerra não será ganha com a razão. Não enquanto grupos autoritários continuarem fazendo tudo o que fazem em nome de Deus, como se este fosse um salvo-conduto para a destruição.
Estava cassado assim o discurso messiânico dos extremistas.
Na sequência, Lula afirmou que a “democracia também se mede pela capacidade de proteger as famílias e a infância”. São os grupos mais vulneráveis diante do apetite das plataformas digitais, talvez o alvo principal do discurso – e a razão por trás de todos os ataques de Trump ao Brasil. “A internet não pode ser uma ‘terra sem lei’. Cabe ao poder público proteger os mais vulneráveis. Regular não é restringir a liberdade de expressão. É garantir que o que já é ilegal no mundo real seja tratado assim no ambiente virtual”.
Lula foi além. Disse que “ataques à regulação servem para encobrir interesses escusos e dar guarida a crimes, como fraudes, tráfico de pessoas, pedofilia e investidas contra a democracia”.
Ao fim da fala, ficou subentendido a mensagem: quem são mesmos os defensores das famílias?
A menção a Deus, na última frase (“Que Deus nos abençoe a todos”), não era por acaso. É o jogo jogado no epicentro das negociações diplomáticas, e do chamado à razão, para consertar as maluquices dos degredados filhos de Eva. Estes não são tempos normais, conforme avisou o Luiz Inácio.
*Este texto não reflete necessariamente a opinião do Portal iG
