
Um boletim de ocorrência registrado na Polícia Civil do Pará descreve um episódio ocorrido semanas antes da morte do diplomata Filipe Brito Hamburgo, de 28 anos, terceiro-secretário do Itamaraty. O documento se refere a uma confusão registrada na noite de 8 de novembro, em um bar no bairro da Cidade Velha, em Belém, período em que Filipe atuava na COP30. As informações são do Lauro Jardim, do jornal O Globo.
Segundo o registro policial, um desentendimento no local terminou com Filipe sendo atingido por um soco desferido por Thiago da Cunha Cavalcanti, primeiro-secretário do Itamaraty e superior hierárquico do diplomata. A agressão teria provocado uma breve luta corporal, durante a qual Filipe sofreu um deslocamento no ombro. A situação foi contida por seguranças do estabelecimento.

O boletim aponta ainda que, já do lado de fora do bar, Cavalcanti teria continuado a ofender verbalmente o colega, inclusive com a frase “tá tranquilo agora, negão?”, registrada como injúria racial. O documento menciona a presença de testemunhas e informa que Filipe procurou atendimento médico após o episódio.
O caso foi enquadrado como lesão corporal e injúria racial. À época, conforme o próprio boletim, Filipe informou que não formalizou representação criminal contra o agressor.
Esse registro é o que a ONG Educafro solicitou ao Itamaraty nesta terça-feira (30), por meio da Lei de Acesso à Informação. A entidade questiona como o episódio foi conduzido internamente e cobra esclarecimentos oficiais sobre a denúncia de racismo ocorrida durante a COP30.

Cerca de um mês depois do incidente, já em Brasília, Filipe passou a responder a um processo administrativo disciplinar (PAD). Ele foi afastado preventivamente de suas funções e teve o acesso às dependências do ministério suspenso. No dia seguinte à adoção da medida, o diplomata tirou a própria vida.
Até o momento, não há confirmação oficial de que exista relação direta entre o conflito ocorrido no Pará, a instauração do PAD e a morte de Filipe.
Para a Educafro, no entanto, a sucessão de fatos, que inclui denúncia de racismo, jornada de trabalho considerada extenuante e um processo mantido sob sigilo, demanda apuração rigorosa, transparência e uma revisão das políticas de acolhimento e saúde mental no serviço exterior.
A pasta também sustenta que o PAD no qual Filipe figurava como investigado não guarda relação com os fatos ocorridos em Belém e que o afastamento cautelar foi determinado com base no artigo 147 da Lei nº 8.112/1990, com o objetivo de preservar a apuração administrativa.
O Portal iG procurou o Itamaraty e ONG Educafro, mas até o momento não recebeu respostas. O espaço segue aberto.
