Razões para Bolsonaro ler “Crime e Castigo” na prisão

Jair Bolsonaro poderá ler Dostoyevski na prisãoAgência Brasil

Raskólnikov, protagonista de “Crime e Castigo”, de Fiodor Dostoievski, acredita que a humanidade é dividida entre duas categorias básicas de pessoas. As ordinárias e as extraordinárias. 

A maioria está no primeiro grupo. A elas cabe nascer e morrer. No meio devem apenas calar e obedecer.

As extraordinárias são raras e impulsionam o progresso histórico. Em nome de uma ideia maior, podem violar leis morais, jurídicas e até cometer crimes, se for preciso. Tudo pela causa. Vai morrer gente? Vai. Mas é da vida. Todo mundo morre um dia. Nem todo mundo tem histórico de atleta para assistir de camarote à revolução. O mundo mesmo se encarrega de se livrar dos fracos/ordinários.

Não é preciso ser crítico literário para entender onde reside o limite da tese do personagem de Dostoiévski. 

Raskólnikov desenvolve a própria tese depois que comete um assassinato. É quase uma lei moral idealizada em causa própria.

Quem define quem pode ou não cometer um assassinato (ou 700 mil, em tempos de pandemia) nunca vai admitir que, no fundo, é só uma pessoa ordinária com delírios de grandeza. Ou paranoia. Vai sempre justificar o injustificável pelo viés da causa nobre: a liberdade, o combate ao inimigo, os empregos, etc.

“Crime e Castigo” é um dos livros que Jair Bolsonaro (PL) poderá ler na cadeia para abater o tempo de pena. Como qualquer outro apenado, ele pode requerer o direito e diminuir o tempo da condenação com leitura.

O pedido foi entregue por seus advogados ao ministro do STF, Alexandre de Moraes.

O livro de cabeceira, até então, do ex-presidente são as memórias de Carlos Alberto Brilhante Ustra, a quem fez questão de homenagear durante o voto pelo impeachment de Dilma Rousseff. Ustra foi um dos mais notórios torturadores da ditadura. Fez o que fez porque acreditava ter nas mãos o destino do mundo contra vítimas que considerava “ordinárias”. Era só um assassino.

Há outros livros na lista que Bolsonaro pode se aventurar. Romances históricos, como “Ainda estou aqui”, de Marcelo Rubens Paiva, que retrata a retirada do convício familiar de um pai que a ditadura declarou inimigo, distopias como “O Conto da Aia”, de Margaret Atwood, sobre um mundo onde meninos vestem azul e meninas são odiadas e condenadas a gerar filhos como animais, e até leituras mais leves, como “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry – um manual sobre afeto e responsabilidade pelo mundo, por menos que ele seja. 

Mas nenhum vem tanto a calhar quanto “Crime e Castigo”. Tivesse feito isso antes, talvez não se tornasse na figura dostoyevskiana em que se tornou desde os tempos de militar: solitário, perturbado, delirante, cheio de culpa, medo e mania de perseguição. Ainda assim, convicto de que paira acima da moral comum.

A leitura pode ser uma cura. Um encontro com a própria consciência. Ou a maior das torturas. 

*Este texto não reflete necessariamente a opinião do Portal iG

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