
Falta mais de um ano para a Copa do Mundo de 2026, mas ela já começou. Pelo menos no imaginário coletivo. Os dados do relatório Predictions 2026, da Ipsos, mostram que 71% dos brasileiros planejam assistir ao torneio. Índice acima da média global e que confirma algo conhecido, mas nem sempre bem interpretado: no Brasil, a Copa é, além de um evento esportivo, é um fenômeno cultural.
O futebol segue sendo um dos poucos rituais capazes de atravessar classes sociais, plataformas e gerações. Mas os números revelam nuances importantes.
O maior entusiasmo está entre os homens da Geração Z, enquanto o interesse diminui entre públicos mais velhos, especialmente entre os homens baby boomers no Brasil (dado que inverte a lógica observada globalmente). Isso sugere que o futebol, como linguagem cultural, está sendo reapropriado pelos mais jovens, enquanto parte das gerações anteriores se distancia não do esporte em si, mas do formato do evento.
Essa diferença ajuda a explicar por que a Copa do Mundo deixou de ser apenas televisão ligada na sala. Ela hoje é vivida em múltiplas telas, recortada em highlights, memes, comentários em tempo real e narrativas paralelas nas redes sociais. Para a Geração Z, assistir à disputa não significa necessariamente acompanhar os 90 minutos, significa participar da conversa. Para marcas, emissoras e plataformas, isso muda tudo.
Curiosidades
Outro dado chama atenção pela sua carga simbólica: quase metade dos brasileiros acredita que ao menos um jogo pode ser cancelado ou interrompido por condições climáticas extremas. A Copa de 2026, que será disputada em três países e em pleno verão do hemisfério norte, carrega um elemento novo para o espetáculo esportivo: a crise climática como variável real, não mais abstrata. O futebol, que sempre foi tratado como escapismo, passa a ser atravessado pelas mesmas ansiedades que moldam o noticiário, o consumo e a política.
Esse cruzamento entre entretenimento, clima e percepção de risco revela um público mais consciente — e mais cético. A Copa segue sendo desejada, mas já não é vista como uma bolha imune ao mundo real. Isso também afeta expectativas esportivas. Globalmente, a maioria não acredita na repetição do título argentino, enquanto países como Brasil e Japão mantêm uma confiança que beira o desejo. A Copa do Mundo, afinal, é tanto projeção racional quanto exercício de fé.
Alerta ao mercado
Para o mercado, os números da Ipsos funcionam como alerta e oportunidade. Há audiência, há interesse e há engajamento. Mas eles não são automáticos. A Copa de 2026 exigirá narrativas mais fragmentadas, estratégias multiplataforma e uma leitura fina das diferenças geracionais. Não basta estar presente — será preciso ser relevante em contextos diversos, de quem assiste ao jogo inteiro a quem consome o campeonato em pílulas de segundos.
A Copa do Mundo começa muito antes do primeiro jogo porque ela não é só futebol. É espelho de um país, de suas expectativas, de suas tensões e de sua relação com o futuro. Em 2026, o mundo vai assistir aos jogos. Mas também vai se enxergar nela.
