53 vítimas: Brasileiros viram descartáveis na guerra da Ucrânia

Brasileiros que morreram ou desapareceram na guerra da UcrâniaReprodução/Redes sociais e Arquivo pessoal

A guerra na Ucrânia já fez ao menos 53 vítimas brasileiras desde o início do conflito contra a Rússia, em fevereiro de 2022. Desse total, 30 brasileiros morreram e 23 seguem desaparecidos, segundo apuração da reportagem do Portal iG.

Os dados foram levantados a partir de entrevistas com amigos e familiares das vítimas, análise de redes sociais de pessoas próximas e consulta a outras produções jornalísticas que acompanham a participação de brasileiros no conflito.

Por outro lado, números oficiais do Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty, indicam um cenário diferente. De acordo com a pasta, 17 brasileiros tiveram a morte confirmada na guerra da Ucrânia, enquanto outros 41 permanecem oficialmente desaparecidos. Os dados refletem apenas os casos comunicados às autoridades brasileiras e não encerram as incertezas enfrentadas pelas famílias, que muitas vezes lidam com informações desencontradas e a ausência de confirmações formais.

Além das vítimas brasileiras, estimativas internacionais apontam para um número ainda maior de mortos no conflito. Autoridades dos Estados Unidos calculam que cerca de 120 mil pessoas tenham morrido na Rússia, número significativamente superior ao registrado na Ucrânia, onde aproximadamente 70 mil mortes teriam sido contabilizadas, segundo o jornal The New York Times.

Lista de brasileiros mortos

1. André Luís Hack Bahi 2. Antônio Hashitani 3. Arthur Henrique Pereira 4. Bruno de Paula Carvalho Fernandes 5. Carlos Fernando Pereira da Silva Filho 6. Carlos Henrique Morais 7. Dangelo Riberte Romulo Placido 8. Daniel Lucas de Campos 9. Douglas Rodrigues Búrigo 10. Francinaldo Alves dos Santos Filho 11. Gabriel Ferreira Silva 12. Gabriel Pereira 13. Gustavo Rodrigo Faria Mazzocato 14. Gustavo Viana Lemos 15. Jackson Aurélio Lourenço do Rosário 16. Jefferson de Paula da Silva Jacobe 17. Júlio César Sales Soeiro 18. Kauã Victor da Silva 19. Leonardo Ribeiro dos Santos 20. Lucas Andrade * 21. Lucas Lima 22. Luís Felipe Martin 23. Luís Felipe Vieira Toledo Porto 24. Murilo Lopes Santos 25. Rafael Oliveira Bueno de Camargo 26. Tailon Ruppenthal 27. Thalita do Valle 28. Thiago Paulo Bulhões 29. Tiago Nunes Silva 30. Felipe de Almeida Borges

*Nome fictício. A identificação foi alterada a pedido da família, que preferiu não ter o nome real citado na reportagem. 

Lista de brasileiros desaparecidos

1. Alan Farias de Meira Rondon 2. Arthur Santiago 3. Bruno Barros Melo 4. Bruno Silva 5. Bryan Caldeira Vasconcelos 6. Francisco Elton Araújo 7. Gabriel Lopacinski 8. Gilvan Jose Rodrigues Costa 9. Igor Fagundes Lamas 10. Isac Matheus Braga 11. Joás da Rosa Oliveira 12. José Nito de Souza 13. Luis Kauan Marta de Freitas 14. Marcello Monteiro Macedo Junior 15. Maxuel Gomes Ribeiro 16. Raysson Mendes dos Santos 17. Robson Santos de Almeida 18. Tobias da Silva Junior 19. Wagner da Silva Vargas 20. Weverton Miranda Santos 21. Wendrilli Polga Lopes 22. William Cavalcanti 23. Ygor Monteiro

Joni Carlos, amigo de Joás da Rosa Oliveira, informou que o grupo que atuava em combate com ele comunicou que Joás está desaparecido. Segundo o relato, Joás teria sido atingido por um drone e, em seguida, conseguiu avisar pelo rádio que estava realizando os primeiros socorros em si mesmo. Momentos depois, perguntou aos colegas se um drone que se aproximava era aliado, mas não obteve resposta. Na sequência, informou que o rádio estava ficando sem bateria.

Após algumas horas sem contato, um drone foi enviado à área para tentar localizá-lo, mas não houve sucesso. Duas semanas depois, os pertences de Joás foram encontrados no local, sem qualquer vestígio de seu corpo.

Galina Kovalenko, ucraniana e esposa de Arthur Santiago, afirmou que o marido é oficialmente considerado desaparecido.

“Artur é considerado desaparecido; essa é a informação oficial. De forma não oficial, ele morreu. Eu continuo as buscas e tenho muita esperança de que ele esteja vivo”, declarou.

Alguns familiares, diante dos ataques que vêm sofrendo nas redes sociais, optaram por não conceder entrevistas no momento.

Segundo a psicanalista Christina Tarabay, ataques e comentários hostis nas mídias digitais, podem prejudicar a elaboração da perda e gerar o que chamam de “luto desautorizado”. 

O conceito descreve perdas que não são socialmente reconhecidas ou legitimadas. No caso de familiares de vítimas de guerra, comentários que minimizam a dor ou responsabilizam a própria vítima, como a ideia de que “essas pessoas escolheram morrer”, podem invalidar o sofrimento e provocar sentimentos de raiva, isolamento, vergonha e culpa. “Há uma reverberação constante de perguntas como ‘Por que eu não fiz algo?’ ou ‘Por que deixei ele ir?’, o que gera uma culpa social que paralisa e afasta essas pessoas do apoio coletivo”, explica.

A psicanalista ressalta que o luto exige rituais e gestos simbólicos que ajudam a reconhecer e elaborar a perda. Cerimônias como velórios, cremações ou missas cumprem um papel fundamental nesse processo, pois dão forma e sentido à dor de quem fica. Quando esses rituais não acontecem, o luto se torna ainda mais difícil.

Em casos de desaparecimento, em que não há sequer a confirmação da morte, instala-se o que Tarabay define como “morte invisível”. A ausência de um fim concreto impede a elaboração plena da perda e mantém a esperança como uma presença constante. Os familiares passam, então, a viver um luto simbólico, não decorrente de uma morte confirmada, mas da ausência permanente de alguém cuja presença deixou de existir no cotidiano.

No caso dos brasileiros mortos em combate, há também um luto que atravessa continentes, ligando trincheiras no Leste Europeu a casas silenciosas no Brasil.

Conheça a história de alguns brasileiros que morreram na guerra

1. Jackson Aurélio Lourenço do Rosário

Jackson Aurélio Lourenço do RosárioReprodução/Arquivo pessoal

Natural de Cáceres (MT), Jackson era descrito pela família como alegre, acelerado e de “coração enorme”. Tocava violão desde os 13 anos e gostava de cantar desde criança. Serviu por quatro anos no Exército Brasileiro, experiência que, somada à promessa de ganhos financeiros e ao fascínio pelas Forças Armadas, o levou a se alistar para lutar na guerra da Ucrânia.

Jackson chegou ao país em 9 de junho de 2025. Pouco mais de um mês depois, morreu em sua primeira missão no front. Após a guerra, planejava permanecer na Europa e viver da música.

Segundo relatos da família, antes de ser enviado ao combate, os ucranianos teriam informado que ele ficaria em uma posição defensiva, a quilômetros de distância das forças russas. Na prática, estava a poucos metros do inimigo. Em mensagens enviadas cerca de cinco dias após o início da missão, Jackson relatou estar sem água e sem comida, afirmando que precisou beber a própria urina após drones com suprimentos serem abatidos. Também teria contado que colegas tentaram se matar dentro do bunker.

Ele ainda afirmou que só receberia salário se fosse enviado ao front. Em 23 de julho, deixou de responder às mensagens. Enquanto colegas afirmavam que ele havia morrido, um major do batalhão negava a informação. A família só recebeu a confirmação oficial meses depois, quando foi informada de que Jackson era considerado desaparecido, sem possibilidade de resgate do corpo. Em dezembro de 2025, veio a confirmação de que ele havia desaparecido em 19 de setembro, após um ataque inimigo.

2. Gabriel Pereira

Gabriel PereiraReprodução/Arquivo pessoal

Nascido e criado em Minas Gerais, Gabriel Pereira serviu ao Exército em Belo Horizonte antes de decidir, ainda jovem, aos 21 anos, lutar na guerra da Ucrânia. À família, disse que iria se alistar na Legião Estrangeira da França. No entanto, por meio de um recibo de aplicativo de transporte, a mãe constatou que o filho estava, na verdade, em uma cidade ucraniana.

Segundo os familiares, durante o processo de recrutamento, os jovens são incitados a mentir para a família sobre o destino. O aliciamento, de acordo com Gustavo, irmão de Gabriel, é “muito fácil” e ocorre principalmente pelas redes sociais. Ele afirma que o irmão foi seduzido pela promessa de salário oferecida pelos recrutadores.

“Ele recebeu treinamentos, mas eram muito básicos, muito aquém do que é necessário para enfrentar uma guerra desse nível”, relata Gustavo. “Além disso, não cumpriram com o salário. Na propaganda, dizem que os soldados vão receber, mas, na prática, o pagamento só ocorre pelos dias e horas em que o combatente está na linha de frente.”

Além de só receber quando era enviado ao front, Gabriel também reclamava das condições dos equipamentos fornecidos. Segundo a família, os coletes eram de tamanho inadequado e os capacetes, de baixa qualidade. Com isso, parte do pouco dinheiro que recebia precisava ser usado para comprar equipamentos melhores dentro do próprio exército.

“Ele praticamente não conseguiu juntar nada. O que ganhava lá era usado para se manter vivo ou com um pouco mais de segurança”, afirma o irmão.

A família também acredita que, após a morte de Gabriel, comunicada informalmente por um amigo que estava com ele, a brigada optou por não confirmar oficialmente o óbito. Em vez disso, informa apenas o desaparecimento do soldado.

Segundo os familiares, o fluxo do pagamento funciona da seguinte forma: o governo da Ucrânia repassa o salário às brigadas, que, por sua vez, o destinam aos soldados. Quando um combatente é oficialmente declarado morto, o valor deveria ser transferido à família, além do pagamento de um seguro por morte. No entanto, ao manter o status de “desaparecido”, a brigada retém o dinheiro.

“Eles não assumem a morte. E, enquanto ele é considerado desaparecido, não há pagamento do salário para a família nem do seguro. Mas o repasse continua sendo feito”, relata Gustavo.

3. Dangelo Riberte Romulo Placido

Dangelo Riberte Romulo PlacidoReprodução/Arquivo pessoal

Um dia após a filha completar cinco anos, em 9 de dezembro de 2025, Dangelo, de 34 anos, morreu em combate na Ucrânia, onde era responsável por uma tropa. Assim como outros brasileiros, ele se alistou acreditando que receberia um salário elevado. Segundo a esposa, Vilmara Souza, o valor recebido foi muito inferior ao prometido.

Mesmo após sua morte, vídeos de Dangelo continuam sendo usados nas redes sociais para atrair novos combatentes. Vilmara também suspeita de traição dentro do próprio batalhão, afirmando que um sargento teria “pedido a cabeça” de Dangelo por ele estar se destacando e ter direito a bônus por missões cumpridas.

No Brasil, Vilmara enfrenta o luto e dificuldades financeiras. Dangelo sustentava a casa e planejava voltar para visitar a família em janeiro.

4. Gustavo Viana Lemos

Gustavo Viana LemosReprodução/Arquivo pessoal

Gustavo, de 31 anos, saiu de Laguna, em Santa Catarina, decidido a lutar na guerra. Ao comunicar a decisão à família, afirmou que se tratava da realização de um sonho. Ex-integrante da Marinha do Brasil e trabalhando como segurança, ele tinha convicção de que seguiria para o combate.

Em 21 de janeiro de 2025, Gustavo partiu para a Ucrânia. A realidade encontrada, no entanto, foi diferente da que ele imaginava. Durante cerca de três meses de treinamento, antes de ser enviado à primeira missão, ele relatava à família que não estava recebendo salário e passou a pedir ajuda financeira à mãe.

Segundo a prima Mariana Bonazza, “todo mês ele pedia dinheiro pra mãe dele para suprir as necessidades básicas e comprar os equipamentos para ir pra guerra”.

No final de abril, Gustavo foi transferido para uma brigada de assalto, unidade responsável pelos combates diretos no front. Esse foi o último contato com a família.

De acordo com um amigo que esteve com Gustavo e conseguiu deixar a guerra, ele afirmou que não iria embora, independentemente do que acontecesse. Um dos paramédicos que atuou ao seu lado também relatou à família que Gustavo ajudou a resgatar muitas pessoas durante o período em que esteve no conflito.

Em agosto, o Itamaraty enviou um e-mail confirmando o desaparecimento de Gustavo e informando os procedimentos para o eventual resgate da indenização em caso de morte. O contrato estipula o valor de 15 000 000 hryvnias (UAH), o equivalente a R$ 1.8 milhão, e prevê que a família precise ir até a Ucrânia para realizar o resgate. Segundo as regras, 20% do valor é pago de forma imediata, enquanto os 80% restantes são parcelados em 40 meses.

Contrato ucraniano prevê o pagamento de uma indenização de 15.000.000 de hyrvnias aos familiares de militares mortos em combateReprodução/Arquivo pessoal

5. Rafael Oliveira Bueno de Camargo

Rafael Oliveira Bueno de CamargoReprodução/Arquivo pessoal

Amante de esportes e extremamente dedicado aos estudos, Rafael Oliveira Bueno de Camargo, de 22 anos, tinha o sonho de seguir carreira no Exército. Em setembro de 2024, ele deixou Ourinhos, no interior de São Paulo, com destino à Ucrânia.

À família, Rafael disse inicialmente que iria à França, onde tentaria se alistar na Legião Estrangeira. Dias depois, entrou em contato informando que o plano não havia dado certo e que, por isso, seguiria para a guerra, justificativa semelhante à utilizada por outros estrangeiros recrutados, segundo relatos de familiares.

Cerca de três meses após chegar ao país, Rafael foi enviado para sua primeira e única missão. A família tomou conhecimento do falecimento por meio das redes sociais, após colegas de batalhão publicarem uma foto do jovem. A confirmação oficial do desaparecimento foi feita pelo Itamaraty em 11 de janeiro de 2025. Dois dias depois, a Câmara Municipal de Ourinhos realizou um velório simbólico em sua homenagem.

Segundo a família, Rafael evitava falar sobre salário, mas comentava com amigos que, se voltasse vivo da guerra, retornaria rico. A mãe, Renata Teixeira, acredita que há muita especulação em torno dos valores pagos e avalia que a remuneração real era baixa.

“É uma furada. Eles não cumprem nada do que prometem. É um caminho para a morte. Eles usam estrangeiros como bode expiatório para morrer no lugar deles e o que sobra é o sofrimento das famílias”, alertou Renata.

6. Leonardo Ribeiro dos Santos

Leonardo RibeiroReprodução/redes sociais

Leonardo, de 33 anos, morreu na guerra da Ucrânia no dia 26 de dezembro de 2025. Segundo relatos de um amigo, a família foi informada sobre o falecimento após contato feito pelo comandante responsável pela unidade em que ele servia.

Leonardo passou cerca de três meses em treinamento antes de ser enviado para uma missão. Durante a operação, foi atingido por uma granada na perna e encaminhado a um hospital. No entanto, o ferimento já estava em estágio avançado e evoluiu para uma infecção generalizada, com a presença de uma bactéria na corrente sanguínea, o que resultou em sua morte.

O brasileiro tinha o sonho de lutar na guerra e se inscreveu por meio de um site de recrutamento. Antes de deixar o Brasil, Leonardo trabalhava como eletricista em uma empresa no estado do Mato Grosso.

As informações foram confirmadas por um amigo de Leonardo. Procurada, a família informou que prefere não conceder declarações no momento.

 7. Lucas Andrade

O grande sonho de Lucas, de 24 anos, natural de São José dos Campos, no interior de São Paulo, sempre foi ingressar no Exército. Desde os 12 anos, ele já manifestava o desejo de seguir carreira militar. Ao atingir a maioridade, concretizou o plano ao se alistar no Exército brasileiro, onde permaneceu por cinco anos.

Antes de seguir para a Ucrânia, Lucas realizou um curso em Santa Catarina, voltado ao aprendizado de armamento e defesa pessoal. Após o treinamento, informou à família que havia sido convidado para atuar na Ucrânia como segurança de um repórter. No entanto, ao chegar ao país, comunicou que a oportunidade não se concretizou e que, por isso, decidiu se alistar no Exército ucraniano.

A mãe, Maria, tentou dissuadi-lo da decisão, mas Lucas afirmou sentir que precisava ajudar pessoas que não tinham como se defender.

Após três meses na Ucrânia, no último dia de treinamento, em 21 de julho de 2025, a base militar onde Lucas estava foi atingida por um míssil. Segundo o relato recebido pela família, o ataque ocorreu durante um período informado como cessar-fogo, e o batalhão não teria sido avisado previamente.

O Itamaraty comunicou oficialmente a morte à família em 30 de julho. Cerca de 50 dias depois, o corpo de Lucas foi repatriado e sepultado no interior de São Paulo.

Nota: os nomes utilizados para Lucas e Maria são fictícios, a fim de preservar a identidade do jovem e de seus familiares, conforme solicitado.

Vítima mais recente

Felipe de Almeida BorgesReprodução/redes sociais

Felipe de Almeida Borges, de 25 anos, natural de Rubineia, no interior de São Paulo, morreu na guerra da Ucrânia. A informação foi confirmada à mãe do jovem no último sábado (17) pela namorada de Felipe, que recebeu a notícia diretamente do comandante do batalhão em que ele atuava.

Segundo o relato, Felipe teria sido atingido por um drone e ficou gravemente ferido.

O jovem viajou para a Ucrânia no fim de novembro e teria morrido no mês seguinte. À época, ele informou à família que seguiria para a Espanha. A real localização só foi descoberta posteriormente, por meio de amigos, que relataram que Felipe havia se alistado para lutar na guerra.

Denúncias dos familiares

Infográfico mostra a realidade dos brasileiros na guerra da UcrâniaGerado por IA

Salário não pago: segundo os familiares, os combatentes não recebem o salário prometido e não há pagamento durante o período de treinamento.

Pagamento condicionado ao front: o salário só seria pago quando o combatente é enviado para missões no front, o que pressiona os soldados a aceitarem situações de alto risco.

Indenização não recebida: as famílias afirmam que não recebem automaticamente a indenização em caso de morte. Para ter acesso ao valor, seria necessário ir até a Ucrânia, onde apenas 20% do total é liberado inicialmente, com o restante parcelado.

Status de desaparecido: em alguns casos, o combatente não é oficialmente declarado morto, permanecendo como “desaparecido”, o que impede o pagamento de salário e indenização à família.

Omissão do destino: segundo os relatos, os brasileiros são induzidos a não informar à família o verdadeiro destino, sendo orientados a dizer que iriam para outros países.

Equipamentos por conta própria: os combatentes precisam comprar os próprios equipamentos de proteção, devido à falta ou à baixa qualidade do material fornecido.

Falta de comida e água: há denúncias de que, em algumas missões, os soldados não têm acesso regular à alimentação e água, agravando as condições no campo de batalha.

O que dizem os brasileiros que lutaram na guerra

Em entrevista ao Portal iG, o brasileiro Guilherme, que preferiu não ser identificado, e ainda está em combate na Ucrânia, afirma que a participação nas missões é voluntária e que ninguém é obrigado a ir para o front. Ele ressalta, no entanto, que integra uma tropa de elite, o que, segundo ele, pode resultar em um tratamento diferente em relação a batalhões de outras categorias. 

Ainda de acordo com Guilherme, os soldados escolhem se querem participar das operações, recebem treinamento específico e só então seguem para as missões. 

Ele afirma que o salário é pago independentemente da participação em missões e que há bônus adicionais conforme o tipo de operação realizada.

“O salário aqui é relativo, depende da companhia e da função. Dá uma faixa de R$ 5 mil a R$ 6 mil por mês só para treinar, e quando vai para missão vai bonificando”.

Sobre o treinamento, Guilherme diz que dura em média de dois meses e meio a três meses e que as missões só ocorrem após essa etapa. Segundo ele, mortes antes desse período podem ocorrer em unidades convencionais, onde o treinamento é mais curto.

Ele também afirma que alimentação, água, estadia e logística são custeadas pelo batalhão.

Já Carlos, que retornou ao Brasil após atuar no conflito, relata que em seu grupo era possível recusar até duas missões. 

Segundo ele, o soldo básico de 25 mil UAH, o equivalente a R$3.120, é pago mensalmente, enquanto o bônus de 100 mil UAH, o equivalente a R$12.483, é destinado apenas a quem participa de missões.

Carlos também explica que os combatentes assinam um contrato de três anos, com possibilidade de rompimento após seis meses. O treinamento, segundo ele, durou um mês, mas atualmente estaria reduzido a cerca de duas semanas, devido à falta de soldados.

Sobre os equipamentos, Carlos diz que o batalhão fornecia blindagem de nível 6, considerada a mais alta, embora pesada. “Se quisesse algo diferente, mais leve, tinha que comprar.”

Ele afirma ainda que, durante sua permanência, não houve falta de suprimentos.

“Toda semana chegavam comida, água e produtos de higiene. Tinha arroz, feijão, macarrão, carnes, batatas e enlatados.”

A reportagem do Portal iG entrou em contato com a Embaixada da Ucrânia no Brasil para solicitar esclarecimentos sobre os casos de brasileiros mortos e desaparecidos na guerra, bem como sobre os procedimentos adotados em situações de óbito e desaparecimento. Até a publicação desta matéria, não houve retorno. 

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