
Nos últimos dez anos, a Receita Federal apreendeu aproximadamente 476 toneladas de drogas em portos, aeroportos e fronteiras brasileiras, sendo a maior parte composta por cocaína e maconha. Em 2025, foram apreendidos 80.5 toneladas de drogas, estabelecendo um novo recorde de apreensões, que superou em 15,6% o resultado anterior, registrado em 2024.
Em 2024, o volume de apreensões de cocaína concentrou-se nos portos, na saída do Brasil (84%). O Porto de Santos continuou sendo o local em que a Receita Federal mais realizou apreensões de cocaína, com um total de 5,1 toneladas.
Na sequência, aparecem os portos do Rio de Janeiro, com 1,65 tonelada; de Salvador, com 1,52 tonelada; e de Paranaguá, com 1,37 tonelada.
Em relação às apreensões de maconha, foram 54,5 toneladas em 2024. O maior volume concentrou-se no Paraná (47,5 toneladas) e em Santa Catarina (4,6 toneladas), o que representa 95,6% do total apreendido pela Receita Federal em todo o Brasil.
As apreensões aumentaram 1.471,1% em 2025 em relação a 2015, que registrou, há dez anos, o menor volume de apreensões de entorpecentes realizadas pela Receita Federal.
Veja as apreensões dos últimos anos:
Em 2024, o total foi de 69.685,65 kg. Em 2023, somaram 35.727,11 kg. Em 2022, chegaram a 36.019,36 kg. Em 2021, foram 45.616,23 kg. Em 2020, o volume alcançou 66.328,60 kg. Em 2019, as apreensões totalizaram 64.437,18kg. Em 2018, foram 39.609,27 kg. Em 2017, o total foi de 47.555,31 kg. Em 2016, somaram 20.547,15 kg. Em 2015, foram 5.127,4 kg.

Valor de mercado das drogas
O valor de mercado das drogas apreendidas também chama atenção. O quilo da cocaína é estimado em cerca de R$ 62 mil, o que equivale a aproximadamente US$ 11,9 mil e € 10 mil, considerando a cotação atual do dólar a R$ 5,20 e do euro a R$ 6,23. Já o quilo da maconha gira em torno de R$ 4 mil, cerca de US$ 770 e € 640.
Corredores do tráfico e logística criminosa
Colômbia e a Bolívia, dois dos três principais produtores mundiais de coca, registraram apreensões recordes de cocaína em 2023, segundo um artigo divulgado pelo InSight Crime. Ambos os países fazem fronteira com o Brasil e o utilizam como rota para o tráfico de entorpecentes.
Na Colômbia, maior produtora de cocaína do mundo de forma recorrente, as autoridades apreenderam 739,5 toneladas de cocaína, das quais 450 toneladas foram confiscadas em águas internacionais, segundo o Ministério da Defesa.
A Bolívia registrou um aumento expressivo de 62% nas apreensões de cocaína entre 2022 e 2023. O país apreendeu 33 toneladas da droga em 2023, em comparação com 20,3 toneladas em 2022, segundo dados da polícia antidrogas boliviana.
O Brasil permanece como o mais importante ponto de trânsito na costa atlântica da América do Sul, apreendendo mais cocaína do que Argentina, Guiana, Suriname, Uruguai e Venezuela juntos.
O trânsito das drogas em direção aos portos brasileiros
O mercado da cocaína é um fenômeno de escala global, já que há demanda pela droga em todos os continentes, especialmente na América e na Europa, onde se consome aproximadamente 75% das mais de 2 mil toneladas da produção total anual, segundo relatórios do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC).
Segundo artigo publicado pelo doutor em Relações Internacionais e pesquisador na área de crime organizado transnacional e terrorismo Christian Vianna de Azevedo, essa carga é distribuída a partir dos países produtores para outros países da América do Sul e para outros continentes por vias terrestre, aérea e fluvial. Dessa forma, as rotas traçadas pelos narcotraficantes são determinadas pelos locais de produção e consumo, com o Brasil funcionando como ponto central das rotas em direção à Europa, África, Oriente Médio, Ásia e Oceania.
Ainda segundo o artigo, o uso cada vez maior de novos países de trânsito, muitas vezes em rotas contraintuitivas (por exemplo, cocaína que sai do Brasil em direção à Austrália passando pelo Mar Mediterrâneo e pelo Oriente Médio antes de seguir para a Oceania), aumenta a dificuldade de rastreamento e de interrupção por parte das agências de segurança pública e dos serviços de inteligência.
Segundo dados reunidos nos relatórios dos países membros da Organização das Nações Unidas (ONU), a maioria dos países fora das Américas aponta o Brasil como o país de origem da cocaína que chega a seus portos e aeroportos, seguido por Colômbia, Equador, Venezuela e Peru. Dessa forma, o Brasil configura-se como um país estratégico para as organizações transnacionais do narcotráfico.
Os portos como eixo central do narcotráfico internacional
Em entrevista ao iG, o doutor em Relações Internacionais Christian Vianna de Azevedo explicou que a importância das apreensões nos portos tem a ver com o volume de cocaína que é exportada via portos. “Segundo análises da International Chamber of Shipping, entre todas as drogas transportadas ilegalmente pelo modal marítimo, a cocaína é a mais prevalente: cerca de 90% da substância traficada no mundo segue por esse meio, em navios, contêineres, graneleiros, veleiros e embarcações afins. Por isso, a maior parte da cocaína em circulação global passa pelo mar”, afirma.
De acordo com Christian, mais importante do que as apreensões de drogas é a desestruturação das organizações criminosas. Para ele, isso envolve não apenas pontos próximos aos portos ou a prisão dos envolvidos diretamente no tráfico, mas também a identificação e responsabilização dos facilitadores, como servidores públicos corrompidos que auxiliam nas transações, além de advogados, contadores, entre outros, acrescenta.
As investigações podem ter início de diversas formas, como por meio de denúncias anônimas, operações baseadas em análise de dados, cruzamento de informações e até apurações financeiras. “As formas de ocultar entorpecentes em navios são inúmeras. A droga pode ser escondida, por exemplo, dentro de contêineres misturada à carga, entre grãos, em cargas vivas, como navios que transportam gado para abate no exterior, na alimentação dos animais, no casco das embarcações, entre outras possibilidades”, relata Christian.
As principais rotas internacionais da cocaína que partem do Brasil têm como destino a África Ocidental e a Europa Ocidental, explica Christian. Segundo o pesquisador, o continente europeu concentra múltiplos pontos de entrada da droga. “Na Europa Ocidental, há vários portos na Itália, Espanha, Alemanha, Portugal, Holanda, Bélgica e França. Ou seja, existem diversos pontos de entrada dessa droga no continente”, afirma.
Já na costa africana, o fluxo também é amplo e pulverizado. “Na África Ocidental, os destinos vão desde a Nigéria, no Golfo da Guiné, passando por Gana, Togo, Senegal, Marrocos, Guiné-Bissau e Guiné”, completa.
O especialista também chama atenção para os desafios logísticos da fiscalização portuária, especialmente no controle de contêineres. De acordo com ele, o volume de cargas movimentadas diariamente inviabiliza uma inspeção total sem comprometer o comércio internacional. “Milhões de contêineres passam por grandes portos todos os anos.
Se todos fossem escaneados e fiscalizados individualmente, isso provocaria uma enorme lentidão no comércio internacional e aumentaria os custos do transporte marítimo, já que as empresas pagam diárias de permanência da carga, entre outros encargos”, explica.
Além disso, a inspeção física é ainda mais complexa do que o simples escaneamento. “O escaneamento permite avaliar um grande número de contêineres, mas a inspeção física exige recursos humanos, materiais e tecnológicos. Eu desconheço qualquer porto no mundo que tenha conseguido superar completamente essa barreira”, afirma.
Para o pesquisador, o percentual de contêineres efetivamente inspecionados costuma ser baixo. “Em geral, o volume de inspeção varia entre 2% e 5%, podendo chegar, no máximo, a algo entre 8% e 10% dos contêineres”, completa.
Para Christian, o Brasil ocupa um papel estratégico no tráfico internacional por ser um país de trânsito. “A cocaína só é produzida em três países no mundo, Colômbia, Peru e Bolívia, que possuem as condições climáticas para o cultivo da folha de coca. A partir desses países, a droga é distribuída globalmente”, explica. Ele destaca que a cocaína é uma das drogas mais lucrativas do planeta e está presente em todos os continentes.
A posição geográfica do Brasil amplia essa vulnerabilidade. “O país faz fronteira terrestre com esses três produtores e possui uma infraestrutura rodoviária, fluvial, portuária e aeroportuária considerada a melhor da América do Sul, o que torna o território altamente viável para o escoamento desse comércio ilegal”, afirma.
Na análise do pesquisador, o tamanho das fronteiras também dificulta o controle. “Não é possível vigiar cada metro, especialmente em regiões como a Amazônia e o Centro-Oeste, que têm alta cobertura vegetal, muitos rios navegáveis e baixa presença do Estado em áreas isoladas.”
Além da infraestrutura, a atuação de facções criminosas fortalece o papel do país nas rotas internacionais. “Hoje, o Brasil é apontado por alguns relatórios internacionais como o principal país de trânsito de cocaína no mundo”, diz.
Ele cita organizações como o Primeiro Comando da Capital (PCC), que possui mais de 40 mil integrantes e atuação internacional, além do Comando Vermelho, e de dezenas de outras facções envolvidas diretamente no tráfico transnacional. “O tráfico de cocaína representa uma fonte substancial de receita para essas organizações, que já operam com rotas consolidadas há mais de duas décadas”, afirma.
O pesquisador acrescenta ainda que o tráfico tem buscado alternativas aos portos tradicionais, diante do aumento da fiscalização. “Nos últimos anos, observamos um crescimento significativo das apreensões de cocaína em veleiros e barcos pesqueiros”, explica.
Para ele, essas embarcações saem, muitas vezes, de marinas privadas ou ancoradouros com pouca ou nenhuma fiscalização. “Elas transportam grandes quantidades de droga, às vezes em toneladas, cruzam o Oceano Atlântico e chegam à Europa ou à África com relativa facilidade. É uma rota mais difícil de detectar, a não ser quando já existe uma investigação de inteligência em andamento”, conclui.
Sistema Portuário do Brasil
Com uma costa de 8,5 mil quilômetros navegáveis, o Brasil possui um setor portuário que movimenta anualmente cerca de 700 milhões de toneladas das mais diversas mercadorias e responde, sozinho, por mais de 90% das exportações.
O sistema portuário brasileiro é composto por 37 portos públicos marítimos sob gestão da Secretaria de Portos da Presidência da República (SEP), 16 encontram-se delegados, concedidos ou tem sua operação autorizada aos governos estaduais e municipais. Os outros 18 marítimos são administrados diretamente pelas Companhias Docas, sociedades de economia mista, que tem como acionista majoritário o Governo Federal
Existem ainda 42 terminais de uso privativo e três complexos portuários que operam sob concessão à iniciativa privada.

Ao todo, são sete Companhias Docas, assim distribuídas:
- Companhia Docas do Pará (CDP) – Portos de Belém, Santarém e Vila do Conde.
- Companhia Docas do Ceará (CDC) – Porto de Fortaleza.
- Companhia Docas do Rio Grande do Norte (Codern) – Portos de Natal e Maceió, além do Terminal Salineiro de Areia Branca.
- Companhia Docas do Estado da Bahia (Codeba) – Portos de Salvador, Ilhéus e Aratu.
- Companhia Docas do Espírito Santo (Codesa) – Portos de Vitória e Barra do Riacho.
- Companhia Docas do Rio de Janeiro (CDRJ) – Portos do Rio de Janeiro, Niterói, Angra dos Reis e Itaguaí.
- Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp) – Porto de Santos.
Sistema Aéreo Brasileiro
O Brasil é o segundo país do mundo em número total de aeroportos, com cerca de 2.700 terminais. Segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), os aeroportos brasileiros transportaram quase 130 milhões de passageiros em 2025, foi a primeira vez na história em que esse patamar foi alcançado, estabelecendo um novo recorde.
Os principais aeroportos internacionais, concentrando a maioria do fluxo, incluem:
- l Aeroporto Internacional de São Paulo-Guarulhos (GRU): O maior e mais movimentado.
- l Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim (Galeão) (GIG): Rio de Janeiro.
- l Aeroporto Internacional de Brasília (BSB): Importante hub de conexões.
- l Aeroporto Internacional de Viracopos (VCP): Campinas, destaque em cargas.
- l Aeroporto Internacional de Confins (CNF): Belo Horizonte.
- l Aeroporto Internacional de Porto Alegre (POA).
- l Aeroporto Internacional de Fortaleza (FOR).

Fronteiras brasileiras
O Brasil possui uma extensa fronteira terrestre de 16.886 quilômetros, a terceira maior do mundo. Os países fronteiriços são: Guiana Francesa, Suriname, Guiana, Venezuela, Colômbia, Peru, Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai. Cada uma dessas fronteiras conta com bases da Polícia Federal, responsáveis pela fiscalização e pela apreensão de produtos ilegais, drogas, entre outros ilícitos.
A cidade de Tabatinga, no Amazonas, próxima à tríplice fronteira com o Peru e a Colômbia, já foi apontada como a segunda maior porta de entrada de cocaína no país, atrás apenas da chamada Rota Caipira, no Mato Grosso do Sul, segundo a Federação Brasileira de Segurança Pública.
