Com investimento de 20 bilhões de euros e 10 milhões de componentes, o reator ITER virou o maior desafio científico da humanidade ao tentar manter um plasma de 150 milhões de graus Celsius em 2026

Com investimento de 20 bilhões de euros e 10 milhões de componentes, o reator ITER virou o maior desafio científico da humanidade ao tentar manter um plasma de 150 milhões de graus Celsius em 2026

No sul da França, uma das máquinas mais complexas já concebidas pela humanidade está sendo montada peça por peça. O reator ITER, sigla para Reator Termonuclear Experimental Internacional, é a aposta de 35 países para provar que a fusão nuclear pode gerar energia limpa e praticamente inesgotável. Seu objetivo é manter um plasma a 150 milhões de graus Celsius, dez vezes mais quente que o núcleo do Sol, e produzir 500 megawatts térmicos a partir de apenas 50 MW de entrada. Um feito que, se bem‑sucedido, pode mudar para sempre a matriz energética do planeta.

O que é o reator ITER e por que ele é tão importante?

O ITER é um experimento científico em escala nunca vista. Diferente das usinas nucleares atuais, que usam fissão (divisão de átomos pesados), a fusão une núcleos leves de hidrogênio para formar hélio, liberando energia sem gerar resíduos de longa duração. O combustível, deutério e trítio, é abundante e pode ser extraído da água e do lítio. Se o ITER demonstrar que é possível produzir mais energia do que se consome para aquecer o plasma, estará aberto o caminho para usinas comerciais nas décadas seguintes.

O projeto reúne 35 países, incluindo União Europeia (que arca com 45% dos custos), Estados Unidos, China, Rússia, Índia, Japão e Coreia do Sul. O orçamento total já ultrapassa 20 bilhões de euros, e a montagem envolve mais de 10 milhões de componentes fabricados em três continentes. A escala é tão monumental que cada peça precisa chegar com precisão milimétrica para que o quebra‑cabeça funcione.

Diferente das usinas nucleares atuais, que usam fissão (divisão de átomos pesados), a fusão une núcleos leves de hidrogênio para formar hélio, liberando energia sem gerar resíduos de longa duração

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Como o ITER pretende alcançar 150 milhões de graus Celsius?

O coração do ITER é um tokamak, uma câmara em forma de rosca onde o plasma é confinado por poderosos campos magnéticos. Para chegar a 150 milhões de °C, os engenheiros usam o maior conjunto de ímãs supercondutores já construído. O solenoide central, por exemplo, tem 18 metros de altura e é o ímã supercondutor mais potente do mundo, capaz de armazenar energia suficiente para um porta‑aviões.

O vacuum vessel, a câmara que abriga o plasma, pesa 5.116 toneladas e é dividida em nove setores fabricados na Coreia e na Europa. Cada setor foi soldado com precisão de micrômetros usando robôs e lasers. Em fevereiro de 2026, a montagem do vaso de vácuo está na fase final, com os setores sendo unidos para criar o ambiente estanque que conterá o plasma superaquecido.

O solenoide central, por exemplo, tem 18 metros de altura e é o ímã supercondutor mais potente do mundo, capaz de armazenar energia suficiente para um porta‑aviões

Para acompanhar o andamento das obras, o canal FUSION FOR ENERGY, com 7,91 mil inscritos, publicou um vídeo com imagens aéreas do complexo em maio de 2025. No vídeo abaixo, é possível sobrevoar o edifício do tokamak e ver de perto a escala monumental da construção:

Quais são os componentes mais impressionantes do ITER?

A lista de componentes do ITER parece saída de um filme de ficção científica. Abaixo, alguns dos números que definem a magnitude do projeto:

  • 10 milhões de componentes individuais, fabricados em mais de 30 países
  • Ímãs supercondutores: 18 bobinas toroidais e 6 poloidais, além do solenoide central de 18 m
  • Vaso de vácuo: 5.116 toneladas, dividido em 9 setores, com paredes duplas refrigeradas
  • Blankets de primeira parede: 440 módulos que suportam o fluxo de calor do plasma
  • Criostato: a maior câmara de vácuo em aço inoxidável já construída, com 30 m de altura
  • Sistemas de aquecimento: injeção de partículas neutras e ondas de rádio para aquecer o plasma
  • Orçamento: € 18–22 bilhões, financiados por 7 membros (UE, EUA, Rússia, China, Índia, Japão, Coreia)

Qual o cronograma real do ITER em 2026?

Apesar do entusiasmo, o ITER sofreu atrasos significativos. O primeiro plasma, que originalmente estava previsto para 2020, agora é esperado apenas para meados de 2033. As operações com deutério-trítio, que vão de fato testar a geração de energia, ficaram para 2039. A pandemia de COVID-19, problemas logísticos e a necessidade de reforços orçamentários de € 5 bilhões atrasaram o cronograma em vários anos.

Em fevereiro de 2026, a montagem física do tokamak está entre 75% e 85% concluída. Os ímãs principais já foram instalados, e o vaso de vácuo está sendo finalizado. Enquanto isso, outros reatores experimentais, como o WEST (também na França), vêm batendo recordes. Em 2026, o WEST conseguiu manter um plasma aquecido por 22 minutos consecutivos, um marco importante para a estabilidade da fusão.

Enquanto isso, outros reatores experimentais, como o WEST (também na França), vêm batendo recordes. Em 2026, o WEST conseguiu manter um plasma aquecido por 22 minutos consecutivos, um marco importante para a estabilidade da fusão

Como o ITER se compara a outros projetos de fusão?

O ITER não está sozinho na corrida pela fusão. Diferentes abordagens estão sendo testadas ao redor do mundo. A tabela abaixo resume as principais diferenças:

⚛ A corrida pela Fusão Nuclear (2026)

Comparativo de temperatura, potência e status operacional

🇫🇷 ITER (Tokamak)

Temperatura do plasma

150 milhões °C

Potência de saída

500 MW térmicos (projetado)

Status em 2026

Montagem 75–85% (Plasma em 2033)

🇺🇸 NIF (Laser / Inercial)

Temperatura do plasma

100 milhões °C (instantâneo)

Potência de saída

Fusão por inércia (pulsos breves)

Status em 2026

Ganho Q>1 (2022), mas não contínuo

🇫🇷 WEST

Temperatura do plasma

50–100 milhões °C

Objetivo

Testes de longa duração (tungstênio)

Status em 2026

Recorde de 22 min de plasma

🇯🇵 JT-60SA

Temperatura do plasma

Milhões °C

Objetivo

Pesquisa fundamental em física de plasmas

Status em 2026

Operacional desde 2023

O NIF, por exemplo, conseguiu em 2022 uma reação de fusão que produziu mais energia do que a usada para iniciá‑la, mas o processo é pulsado e não contínuo. O ITER, por sua vez, busca uma queima sustentada, essencial para futuras usinas comerciais.

O que o ITER significa para o futuro da energia?

Mesmo com atrasos, o reator ITER continua sendo o maior esforço colaborativo da ciência para resolver um dos problemas mais urgentes da humanidade: energia limpa, segura e em escala. Se tudo correr conforme o novo cronograma, o primeiro plasma em 2033 será um momento histórico, equivalente à primeira reação nuclear controlada de 1942. Depois disso, virá a fase de demonstração, e só então, por volta de 2050, as primeiras usinas comerciais de fusão poderão começar a operar.

A fusão não é uma solução para amanhã, mas é a aposta mais sólida para o futuro distante. O ITER é a prova de que, quando a humanidade se une em torno de um objetivo comum, é possível construir máquinas que desafiam os limites da física e da engenharia. E, ao fazer isso, talvez garanta que as próximas gerações tenham energia tão abundante quanto a luz das estrelas.

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