Parlamentares não estão acima da lei. Mas agora estão perto disso

Hugo Motta durante sessão na Câmara Câmara dos Deputados

Até 2013, as emendas parlamentares não tinham caráter impositivo. Isso significa que durante anos o mecanismo serviu como moeda de troca de qualquer governo. O controle do orçamento pelo Executivo ditava as regras do jogo parlamentar.

Isso começou a mudar com o enfraquecimento de Dilma Rousseff (PT) a partir das manifestações de junho de 2013. Ela pagou alto pela vitória em 2014, obtida na marra em meio a uma curva decrescente de popularidade.

Tinha como “fiador” (risos) uma raposa nascida e criada no Congresso. Quando a curva de popularidade da então presidenta entrou num ponto de não retorno, a raposa eleita como vice na chapa da petista assumiu o comando do governo e chamou os “parças” do Parlamento para a festa.

Nunca mais a relação entre os dois poderes foi a mesma. Ponto para Michel Temer.

De lá pra cá, o Congresso aprovou uma série de medidas que tiravam do Executivo as rédeas orçamentarias. Elas passaram de vez para o comando de deputados e senadores quando, em 2019, Jair Bolsonaro (PL) selou uma aliança com o centrão em troca de apoio. Resultado: os repasses, agora impositivos, explodiram.

Um levantamento da Folha de S.Paulo mostra que, em 2015, R$ 3,4 bilhões de emendas parlamentares estavam reservadas no Orçamento (uma média de R$ 5,8 milhões por congressista).

Em 2024, o valor saltou para R$ 44,9 bilhões (R$ 75,6 milhões por parlamentar).

Desde então o Supremo Tribunal Federal se tornou uma grande pedra no sapato dos festeiros. O governo é sócio oculto dessa vigilância porque, bem, tem interesse em retomar o controle.

Basicamente o que os ministros do STF determinaram, diante de tantos recursos, foi: podem usar, mas com parcimônia e transparência. (Leia-se: roubar não pode. Tá na Constituição, e aí vocês me complicam).

Indicado por Lula (PT) à Suprema Corte, Flávio Dino determinou, na segunda-feira (15), que a Polícia Federal investigue o envio de emendas Pix para 9 cidades. Nelas estão poucos sinais de transparência e muitas digitais. São 25 parlamentares ao todo.

Recentemente a PF cumpriu mandados judiciais contra suspeitos de fraudar licitações abastecidas por deputados e senadores. Um deles é um dos caciques do União Brasil, o deputado baiano Elmar Nascimento.

Tudo isso explica a urgência de deputados em aprovar, à jato, uma Proposta de Emenda à Constituição que limita ações policiais e processos penais contra parlamentares. Alguns deles estavam contando ainda o dinheiro quando viram as luzes do camburão e correram pra votar.

Se o projeto avançar também no Senado, apenas parlamentares poderão quando um colega de gabinete poderá ser investigado ou não. É a certeza de impunidade.

Eles exigem fazer o que bem querem dos recursos públicos e das leis sem ser incomodados. Como se estivessem acima da lei. De fato: se a PEC da Blindagem avançar, eles realmente estarão acima da lei.

*Este texto não reflete necessariamente a opinião do Portal iG

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