
Marielle Francisco da Silva Franco iniciou sua militância após a morte de uma amiga em um tiroteio envolvendo policiais e traficantes. Formada em ciências sociais, ela trabalhava no gabinete do então deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ) quando foi eleita vereadora, em 2016, pelo mesmo partido.
A menina do Complexo da Maré recebeu 46 mil votos – a quinta maior votação no município.
Na Câmara Municipal, defendeu o direito dos moradores de favelas, comunidades negras, das mulheres e da comunidade LGBTQIA+. Assinou projetos lei ligados ao direito à cidade, habitação social e políticas públicas voltadas às mulheres e comunidades vulneráveis. Monitorava abusos de autoridade da Polícia Militar. E também o direito das famílias de policiais mortos ou perseguidos pela milícia.
Seu mandato como vereadora durou cerca de 15 meses. Em 14 de março de 2018, ela foi assassinado a tiros no centro da capital fluminense ao lado do motorista Anderson Gomes.
Tudo porque, a certa altura, passou a incomodar os interesses da família Brazão em seus redutos eleitorais, onde tiravam proveito de cidadãos pobres e ganhavam na Justiça o direito a imóveis e terrenos destituídos de seus antigos donos para habitação social – para serem vendidos depois e fazer girar a fortuna da família.
Nesta quarta-feira (25), a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal condenou por unanimidade Chiquinho Brazão e Domingos Brazão a 76 anos de prisão, cada um, por ordenar o assassinato da vereadora. Outros três acusados também receberam pena por participar ou por atrapalhar as investigações, caso do delegado Rivaldo Barbosa.
Em seu voto, o ministro Alexandre de Moraes, relator do processo, foi didático. Segundo ele, Marielle Franco pagou um preço por peitar interesses de milicianos, que se infiltravam na estrutura do Estado para defender seus interesses.
Moraes não deixou passar despercebido um detalhe fundamental: à questão politica somaram-se a misoginia, o racismo e a discriminação. “Na cabeça misógina e preconceituosa de mandantes e executores, quem iria ligar para isso? … ‘Ah, vamos eliminá-la e isso não terá repercussão”.
Os assassinos acertaram os tiros, mas erraram e muito no cálculo. O assassinato não repercutiu no mundo todo, mostrou a vulnerabilidade da intervenção federal na segurança pública do Rio, em pleno curso, e transformou a vereadora em símbolo político.
No filme “Sementes”, de Emília Silveira, é possível observar a força que brotou da mobilização e busca de justiça. O documentário acompanha mulheres negras que decidiram disputar cargos públicos inspiradas pela trajetória e pelo assassinato de Marielle, ocorrido em 2018. Renata Souza, na Alerj, e Talíria Petrone, na Câmara, dois dos exemplos mais combativos mostrados no filme. Há outros, como a própria irmã da vereadora, Anielle Franco, hoje ministra da Igualdade Racial.
“Nem a força bruta pode o sonho acabar”, diz a música de Ronaldo Bastos cantada por Milton Nascimento. Não só não acabou, como brotou e se multiplicou. A decisão de hoje do Supremo encerra oito anos de impunidade.
*Este texto não reflete necessariamente a opinião do Portal iG
