A paz que permanece no abismo

Bolsonaro e RobsonDivulgação Sara Nossa Terra

Ao longo da minha caminhada pastoral, aprendi que os momentos mais decisivos da vida humana não acontecem nos palcos, mas nos bastidores da alma. São nas horas de silêncio, de dor e de vulnerabilidade que o ser humano se revela e que a fé é verdadeiramente provada.

“Os momentos mais decisivos da vida não acontecem nos palcos, mas nos bastidores da alma.”

Em diferentes ocasiões, estive com o ex-presidente Jair Bolsonaro para cumprir a assistência pastoral previamente agendada. Independentemente de posições, cargos ou circunstâncias, meu chamado nunca foi político, é espiritual. Eu vou como pastor. Vou como alguém que crê que nenhuma pessoa está além do alcance da graça de Deus.

Em uma dessas visitas, encontrei-o fisicamente fragilizado. Estava abatido, sonolento, não havia se alimentado naquela manhã e soluçava bastante. Em determinado momento, ao tentar se levantar, seu corpo balançou, o que me trouxe preocupação. A fragilidade humana não escolhe biografia. Ela simplesmente se manifesta.

“A fragilidade humana não escolhe biografia. Ela simplesmente se manifesta.”

Compartilhei com ele uma reflexão do Salmo 103:4, que fala sobre o Deus “que redime a nossa vida da cova e renova as nossas forças como a águia”. Há momentos em que a vida parece uma cova escura, profunda, sem saídas visíveis. Mas a fé cristã nos ensina que Deus não apenas nos tira da cova; Ele nos devolve dignidade, fôlego e capacidade de voar novamente.

Em outra visita, percebi que estava um pouco mais equilibrado fisicamente, especialmente em relação aos soluços que o haviam incomodado antes. Contudo, ainda assustado por uma crise de pressão alta que enfrentara no dia anterior. A mente, quando pressionada por circunstâncias intensas, afeta o corpo. E o corpo, por sua vez, retroalimenta a emoção. Somos um sistema integrado: espírito, alma e físico.

“Somos um sistema integrado: espírito, alma e corpo. Quando um sofre, todos sentem.”

Falamos sobre João 16:33, quando Jesus declara: “Deixo-vos a paz. A minha paz vos dou. No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.”

Essa é uma das declarações mais poderosas do Evangelho. Jesus não promete ausência de aflições. Ele promete presença em meio a elas. A paz que Ele oferece não é circunstancial; é existencial. Não depende do cenário externo, mas de uma convicção interna. Quando a mente se ancora nessa paz, ela fortalece todo o nosso ser e sustenta a fé no futuro.

“Jesus não promete ausência de aflições. Ele promete presença em meio a elas.”

Cantamos juntos uma canção simples:

“A paz do Senhor, a paz… shalom Adonai, shalom.”

Há algo profundamente terapêutico no louvor. A música organiza emoções, realinha pensamentos e devolve esperança. Em alguns momentos, seus olhos se encheram de lágrimas. E ele declarou:

“Eu creio na força e no poder de Deus. Não sei como, mas vou vencer.”

“Fé não é saber como. É confiar em Quem.”

Essa frase carrega a essência da fé. Fé não é cálculo. Não é previsibilidade. É confiança. É permanecer mesmo quando não se enxerga o caminho.

Conversamos sobre esperança, sobre o desejo de viver, lutar e vencer. Oramos. Cantamos também “Deus Está Aqui”. Porque essa é a verdade que sustenta qualquer ser humano no mais profundo abismo: mesmo quando tudo parece ruir, a presença de Deus continua conosco.

“Mesmo quando tudo parece ruir, a presença de Deus continua conosco.”

Como pastor, continuo vendo a necessidade de cuidado integral: físico, emocional e espiritual. O ambiente familiar, o acompanhamento adequado, a assistência médica e o fortalecimento emocional são fundamentais em momentos de alta pressão. Nenhum homem, por mais forte que pareça, é indestrutível.

Essas visitas reforçam algo que sempre preguei: o poder não define a essência de uma pessoa. O sofrimento revela sua humanidade. E é justamente na humanidade que Deus age.

“O sofrimento revela a humanidade. E é justamente nela que Deus age.”

A história de qualquer homem público é escrita nos jornais. Mas a história da sua alma é escrita nos momentos em que ele se ajoelha.

E é ali, no chão da oração, que a verdadeira vitória começa.

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