EUA e sua fúria épica contra o Irã

Prédio de Tel Aviv atingido por míssil iranianoInternet

A ofensiva militar americana contra o Irã, batizada dramaticamente como Fúria Épica, não é fruto de conveniências ou picuínhas domésticas. Trata-se, na verdade, do capítulo mais recente de um confronto estrutural que se estende por mais de sete décadas, e que molda a relação entre Washington e Teerã desde a instauração do regime islâmico naquele país.

Ainda assim, muitas reportagens e posts publicados nos últimos dias atribuem o ataque a uma tentativa de desviar a atenção do público de temas internos, como as notícias sobre a possível ligação de Donald Trump com o maníaco Jeffrey Epstein.

Outras análises retratam o avanço como resultado direto da parceria entre os Estados Unidos e Israel. A guerra no Oriente Médio, em curso desde outubro de 2023, quando o Hamas invadiu o sul de Israel, também contribui para a falsa impressão de que a atuação americana responde prioritariamente aos interesses israelenses, e não aos seus próprios.

É um equívoco. Washington e Teerã estão, mais uma vez, acertando as contas de tensões que remontam à década de 1950.

A Revolução Islâmica

Em 1953, os Estados Unidos apoiaram um golpe que buscou destituir do poder o advogado Mohammad Mossadegh, democraticamente eleito primeiro-ministro do Irã, após ele nacionalizar a produção local de petróleo. A primeira tentativa fracassou; a segunda foi bem-sucedida e permitiu o retorno do xá Reza Pahlevi ao poder. Para Washington, o monarca tornou-se um aliado estratégico durante a Guerra Fria.

Inicialmente popular entre os iranianos, o xá perdeu apoio ao longo do tempo, à medida que seu governo se tornava cada vez mais autoritário. O crescente descontentamento popular levou à sua derrubada em 1979, dando lugar ao aiatolá Khomeini, clérigo radical que fundou o Regime Islâmico do Irã — um governo teocrático que extinguiu o programa de ocidentalização e secularização implantado pelo xá.

A partir desse momento, o Ocidente passou a ser tratado como um inimigo do Irã: os Estados Unidos receberam a alcunha de “Grande Satã”, enquanto Israel passou a ser designado como “Pequeno Satã”.

Guerra Irã x EUA

O primeiro ataque iraniano foi realizado já no primeiro ano do novo regime, quando militantes iranianos cercaram a embaixada norte-americana em Teerã e mantiveram 52 cidadãos americanos como reféns por 444 dias. A recém-instaurada República Islâmica enviava, assim, sua primeira mensagem a Washington.

Outros episódios de grande impacto se seguiram. O Hezbollah, braço armado do Irã no Líbano, explodiu a embaixada americana em Beirute matando 63 pessoas e ferindo 17. No mesmo ano, 241 soldados da marinha dos EUA morreram em um ataque terrorista conduzido pelo mesmo grupo. Foi um dos ataques mais mortíferos contra forças marítimas americanas desde a Segunda Guerra Mundial. Durante a Guerra do Iraque, milícias apoiadas pelo Irã mataram 603 militares dos Estados Unidos.

O acordo nuclear

Em 2015, após uma década de negociações, os EUA assinaram, ao lado da União Europeia, da China e da Rússia, o JCPOA — Joint Comprehensive Plan of Action. Pelo acordo, o Irã se comprometeria a adequar seu programa nuclear às exigências internacionais em troca do alívio das sanções econômicas.

Três anos depois, após um longo período de embates diplomáticos com Teerã, Trump retirou os Estados Unidos do acordo e restabeleceu sanções severas. As tensões voltaram a escalar e, em janeiro de 2020, o presidente ordenou o assassinato do general Qassem Soleimani, o mais alto comandante militar iraniano.

No mesmo mês, o Irã respondeu lançando mísseis balísticos contra bases americanas no Iraque. Entre outubro de 2023 e o início de 2024, milícias ligadas a Teerã realizaram mais de 170 ataques contra forças americanas no Iraque e na Síria.

Em junho de 2025, enquanto Israel conduziu a Guerra dos 12 Dias contra o Irã, Trump ordenou um ataque aéreo com o objetivo de destruir instalações nucleares do regime. A operação foi parcialmente bem-sucedida. No último sábado, o presidente voltou à carga, agora com um objetivo adicional: enfraquecer o regime islâmico e criar condições para que a própria população iraniana provoque sua derrocada.

Ao longo dos últimos 47 anos, o regime nunca abandonou seus programas balístico e nuclear. Paralelamente, construiu uma extensa rede de proxies — organizações terroristas que atuam sob seu comando em diferentes regiões do planeta. Teerã é a patrocinadora do Hezbollah, sediado no Líbano, mas com operações globais; o Hamas; milícias xiitas no Iraque; e os Houthis, no Iêmen.

O discurso do presidente Trump

Esses elementos foram citados no recente discurso em que Trump justificou o ataque. “O objetivo é impedir que essa ditadura radical e cruel continue ameaçando a América e nossos interesses de segurança nacional. Vamos acabar com seus mísseis e com sua indústria de mísseis”, afirmou.

Sabe-se que regimes não são derrubados por meio de ataques aéreos. Resta saber quem se prestará a esse papel em campo — e a partir daí, quem sabe, o povo iraniano comece a enxergar o fim dessas amargas décadas sobre um regime fundamentalista islâmico.

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