
A lógica binária das redes não comporta a complexidade do caso Master.
Erra quem pensa que o banqueiro alçado a vilão número 1 do Brasil – por conseguir contratos com governadores amigos para morder contracheques de servidores, por oferecer aos clientes um retorno que não poderia pagar, por envolver banco público para tapar os cascos do navio, por manter relações estranhas com autoridades e mandar investigar, por comprar notícias positivas, por bisbilhotar e mandar socar oponentes e por uma porrada de outras razões – só era quem era porque tinha lá seus políticos de estimação.
Ele tinha, mas a cor do dinheiro não escolhe parceiros. Daniel Vorcaro dizia em conversa com a namorada que ele achava Jair Bolsonaro um “beócio”. A turba bolsonarista correu pra dizer: ufa, ele não era dos nossos.
Era sim. Foi um governador bolsonarista que aceitou entrar num negócio que não era bom nem para seu banco nem para os cidadãos, que agora pagam a conta. O cunhado dele foi um dos maiores apoiadores de campanha de Bolsonaro e Tarcísio de Freitas. Um jato do banqueiro serviu para Nikolas Ferreira fazer campanha para o ex-presidente e então candidato à reeleição em 2022. O grande amigo da vida de Vorcaro era ministro da Casa Civil do ex-capitão. E toda a bomba que só estouraria agora foi montada sob as vistas grossas do Banco Central então presidido por Roberto Campos Neto.
Ainda assim ele se gabava, nas mensagens com a companheira, de andar no mesmo círculo de “Alexandre Moraes”. Se não for um homônimo (ou quase, se o “de” entre nome e sobrenome), Vorcaro tinha na lista de seus contatos um ministro do STF que poderia acionar em caso de emergência. Como de fato acionou horas antes da primeira prisão, em novembro, ao cobrar uma resposta pendente do contatinho – que, mais esperto, respondeu em mensagem de visualização única. Nunca saberemos o que continha ali.
Fica ainda pior se o contato foi casado com uma advogada contratada para resolver pepinos no banco de Vorcaro na Justiça e órgãos de controle. E pior ainda se o contrato rondar a casa dos milhões.
A revelação do material do celular do banqueiro mostrou que ele se comportava como chefe de máfia, daqueles que enviam mensagem a desafetos com uma cabeça cortada de cavalo sobre a cama. Ele mesmo admitia, nas mensagens privadas, que o meio em que trabalhava era uma espécie de máfia.
Como tal, ele atraiu aliados e protetores de todas as esferas do poder e busca de blindagem. Jogou o jogo que se espera de um líder de gangue. O problema foi quem aceitou a proximidade, as caronas, as festas ou mesmo o canal aberto para casos de emergência.
Se o “Alexandre Moraes” das mensagens não for um homônimo, é bom o ministro vir a público explicar por que não bloqueou o contato de um empresário enroscado com a Justiça. Um investigado não pode ter acesso a um possível juiz a não ser que esteja diante de um tribunal após ser indiciado, formalmente denunciado e tornado réu.
Todo o resto é um golpe na credibilidade tanto de quem não se blindou de relacionamentos tóxicos no ambiente privado quanto da instituição que representa. Há muito ainda a ser explicado.
*Este texto não reflete necessariamente a opinião do Portal iG
