Dia das Mulheres: o que exatamente estamos comemorando?

Feliz Dia das Mulheres?Crédito: Gerada por I.A.

Ontem foi dia das mulheres, mas eu não sei se, atualmente, é um dia pra comemorar.

Há mais de 100 anos, em 1915, o autor Lima Barreto escreveu isso:

“Deixem as mulheres amarem à vontade. Não as matem, pelo amor de Deus.”

Parece que foi escrito semana passada. O que fazer pras pessoas entenderem algo tão simples? Não batam em mulheres!

Aliás, o que fazer pra um conteúdo como um tema tão delicado como esse não ser rotulado simplesmente de lacrador?

Impressionante como o feminicídio funciona como uma máquina do tempo. É só entrar no assunto que parece que voltamos pra época medieval.

Durante milênios a humanidade olhou para o feminino e viu algo próximo do divino. Civilizações antigas cultuavam deusas por um motivo simples: o corpo feminino gera vida.

E o que aconteceu no meio do caminho?

De deusas a vítimas: alguma coisa deu muito errado

É só ler as notícias:

  • Em Natal, uma mulher levou 61 socos do namorado dentro de um elevador, em apenas 34 segundos.
  • Em Brasília, outra mulher também foi espancada dentro de um elevador por quase quatro minutos.
  • No Acre, quatro jogadores de futebol foram presos acusados de estupro coletivo contra duas mulheres dentro do alojamento do time.

Em São Paulo, o estado mais rico do país, 2025 registrou o maior número de feminicídios da série histórica: 270 mulheres assassinadas.

Cibelle Monteiro Alves: morta a facadas pelo ex-companheiro dentro do local de trabalho num shopping de São Bernardo.

Tainara Souza Santos: atropelada e arrastada por cerca de um quilômetro na Marginal Tietê.

Só em 2025 foram mais de 83 mil estupros no Brasil: uma vítima a cada seis minutos.

Mais de 70% das vítimas têm menos de 14 anos.

No mesmo ano, o país registrou cerca de 1.470 feminicídios. O maior número desde que o crime entrou na legislação.

A maioria dessas mortes acontece dentro de casa. Quase sempre pelas mãos de quem jurava amar.

Esses dias, o TJ de Minas Gerais inocentou um homem que vivia como marido de uma menina de 12 anos. Depois voltou atrás. Esse episódio mostra como, muitas vezes, a primeira reação da sociedade é proteger o agressor, não a vítima. 

Isso revela um fato incômodo: Feminicídio é um problema masculino.

Jovens estão se sentindo no direito de tratar mulheres como qualquer coisa. 

No Rio de Janeiro, uma adolescente de 17 anos foi atraída para um apartamento em Copacabana e sofreu estupro coletivo por quatro jovens, um deles menor de idade.

Mas por que isso continua acontecendo?

Eu perguntei pra psicóloga Lala Fonseca qual é o motivo da prática do estupro:

 “Quando falamos de estupro, muita gente pensa em desejo sexual. Mas, na maioria das vezes, o que está por trás é dominação e poder. São homens que não aprenderam a lidar com limites ou rejeição e usam a violência como forma de afirmar controle. No estupro coletivo entra também a dinâmica de grupo: ninguém quer confrontar o líder ou ser excluído. No fim, a mulher deixa de ser vista como pessoa e passa a ser tratada como objeto de posse.”

Resumindo: uma cultura que confunde amor com posse e rejeição com humilhação.

Talvez a resposta esteja numa contradição humana

Existe uma contradição curiosa. Muitos homens dizem que a mãe é sagrada. 

Mas nem sempre tratam com o mesmo respeito a mulher com quem se relacionam.

Que, inclusive, pode ser justamente a mãe dos filhos dele como no caso do secretário de Governo de Itumbiara que matou os filhos pra atingir a esposa e mãe deles.

Parte dessa diferença talvez esteja no fato de que, nas relações afetivas, entra um elemento que não existe na relação com a mãe: o desejo sexual.

O problema começa quando desejo vira sensação de posse.

Uma das soluções está em ensinar à nova geração algo além de dar flores no dia das mulheres: rejeição não é humilhação, e ninguém perde a dignidade porque uma mulher decidiu colocar um limite.

O que falta pra gente começar a fazer isso? Talvez a humanidade não precise voltar a tratar mulheres como deusas. Já seria um grande avanço tratá-las como pessoas

E, quem sabe, um dia o pedido do Lima Barreto deixe de ser atual.

Em tempo…

Quando eu estava acabando este texto, vi outro caso: Thais Rodrigues Rocha de Oliveira foi assassinada pelo próprio marido e ele enviou um vídeo pras famílias pedindo perdão.

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