
O avanço das mudanças climáticas e o aumento da frequência de eventos extremos no Brasil têm deixado em evidência a necessidade de debates mais aprofundados sobre a necessidade de fortalecer as políticas públicas voltadas à prevenção de desastres.
Diante deste cenário, duas pesquisas de doutorado em desenvolvimento propõem mudanças estruturais na forma como o país se prepara para enfrentar tragédias ambientais.
Os estudos são conduzidos por Gil Kempers, especialista em desastres ambientais, pesquisador do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Desastres da Universidade Federal Fluminense (NEPED-UFF) e também pesquisador do Centro de Estudos e Pesquisas sobre Desastres (CEPED) da COPPE/UFRJ, um dos principais centros de pesquisa em engenharia da América Latina.
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Proposta de um sistema nacional inspirado no SUS
Uma das pesquisas de Kempers discute a criação de um Sistema Único de Proteção e Defesa Civil, inspirado na estrutura do Sistema Único de Saúde (SUS), com o objetivo de integrar e fortalecer a gestão de riscos e desastres no país.
Segundo o pesquisador, já existe base jurídica para essa proposta na Lei nº 12.608/2012, que instituiu a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil. No entanto, a legislação não prevê uma fonte específica de recursos para ações que antecedem os desastres, como prevenção, preparação e redução de riscos.
“Hoje, na prática, os recursos são destinados principalmente às ações posteriores ao desastre, como resposta emergencial e reconstrução. A proposta da pesquisa é justamente discutir mecanismos de financiamento para as ações preventivas, que são mais baratas, mais eficientes e capazes de evitar mortes”, explica.
Na avaliação dele, o cenário de intensificação das mudanças climáticas torna esse tipo de investimento ainda mais necessário. Fenômenos como chuvas intensas, deslizamentos, enchentes e ondas de calor têm ocorrido com maior frequência e intensidade, além de apresentarem intervalos cada vez menores entre um evento e outro.
Sistema de alerta com previsão antecipada

Além dessa proposta, Gil Kempers. também conduz uma segunda pesquisa voltada à criação de um sistema mais avançado de monitoramento e previsão de desastres no Estado do Rio de Janeiro, com foco no aprimoramento dos mecanismos de alerta à população.
Atualmente, o sistema de sirenes utilizado no estado foi implementado gradualmente: na capital fluminense em 2010, na Região Serrana em 2011 e, posteriormente, nas demais áreas do estado em 2015. Desde então, segundo o pesquisador, houve pouca atualização nos protocolos ou na incorporação de novas tecnologias.
O estudo propõe a modernização desses mecanismos com o uso de ferramentas digitais, análise de dados e inteligência artificial, capazes de ampliar a capacidade de monitoramento e permitir a emissão de alertas com até quatro horas de antecedência.
“Com tecnologias mais modernas e modelos de predição mais precisos, é possível antecipar os alertas e dar mais tempo para que a população e os órgãos de defesa civil possam agir. Essa antecipação pode representar a diferença entre uma tragédia e vidas preservadas”, afirma Kempers.
Para especialistas da área, iniciativas que integrem produção científica, inovação tecnológica e planejamento governamental são essenciais para fortalecer a capacidade de resposta das cidades e reduzir os impactos de eventos extremos, que tendem a se tornar cada vez mais frequentes.
