Diário de um bunker

Meus vizinhos inusitados no bunker do prédio em que vivemosMiriam Sanger

As guerras sucessivas de Israel acabam criando, para quem vive aqui, uma espécie de linha do tempo pessoal.

“Minha” guerra de estreia foi em 2014, exatamente dois anos depois de eu ter me tornado israelense. Lembro vividamente da primeira sirene que ouvi e de como desci rapidamente para o abrigo no térreo do prédio onde eu morava. Nunca havia entrado nele antes: era empoeirado, bruto, em seu cimento sem acabamento e repleto de bugigangas abandonadas pelos moradores ao longo dos anos. No entanto, para temperar a visão desoladora do bunker, estavam ali os meus vizinhos, que eu mal tinha visto e com quem certamente nunca havia conversado antes. Meu marido (então meu namorado), capaz como ninguém de quebrar o gelo nas situações mais adversas, falou sorrindo:

— Nada como uma guerra para nos conhecermos melhor.

Assim, ele me ensinou duas coisas. Primeiro, como olhar essa situação maluca que vivemos, em que passamos os dias nos assegurando de que haverá por perto um bunker para nos escondermos quando for necessário. Segundo, não há lugar melhor no mundo para encontrar os tipos mais pitorescos do universo.

A professora e o físico quântico

Apenas uma vez, nesses quatro anos em que vivo nesse prédio, vi um dos 14 apartamentos trocar de mãos. Há pouca rotatividade, apesar de pelo menos metade deles estar alugada. A família que se juntou à nossa é francesa: mãe, pai e três filhos. Ela leciona francês em três escolas e fala hebraico com um sotaque fortíssimo, repleto de erros. Não a culpo: é incrivelmente difícil aprender uma língua peculiar como o hebraico depois de certa idade. Eu que o diga. Ela se veste como se ainda estivesse em Marselha, cidade de onde eles vêm. O marido é físico quântico. 

Chegaram a Israel depois de seis anos vivendo em Nuremberg, na Alemanha, onde ele trabalhou em um projeto que amava na cidade que adorava — e mudou-se para cá sob pressão da esposa. Os filhos são discretos como o pai e, enquanto a mãe fala sem parar, ele esfrega a testa nervosamente. Ele trabalha em um instituto perto do aeroporto e chega até lá de bicicleta. São 45 minutos em cada direção. É admirado por todos os vizinhos, obviamente, pela boa forma física.

Quando descemos para o bunker, os franceses se sentam sempre próximos dos dois filhos do oficial do exército, charmoso e gigantesco, que mora em uma das duas coberturas. Ambos estão de passagem — vivem em prédios que não dispõem de abrigo subterrâneo como o nosso. Um dos irmãos desce sempre com uma bebê de cerca de seis meses, cheia de cachinhos, e com a esposa. O outro traz consigo o Simba, seu enorme labrador branco.

Canil animado

Simba sempre chega até nós, sempre animadão, não importa o horário ou a frequência enervante dos nossos vários encontros, diários e noturnos, no bunker. Pede atenção a todos — e recebe. Também fica encantado com a presença do nosso cachorro idoso, o Nacho, que, ao contrário dele, treme quase sem parar enquanto tenta entender o que está acontecendo.

No segundo andar vive uma família ruidosa com sete filhos. O pai, um handyman de família marroquina e de voz grave, não aparece quase nunca — como vários nesta Terra Santa, acredita mais em Deus do que no concreto e raramente busca proteção quando o alarme soa. A mãe, filha de espanhóis, de sangue quente e de voz estridente, fica pouco tempo no abrigo. Já os filhos… bem, nunca conseguimos vê-los todos ao mesmo tempo. O mais velho, nunca o vimos, mas sabemos que é atleta profissional. Uma das filhas aparece sempre no bunker, empurrando três dos mais novos, que à noite chegam embrulhados em cobertores e com os olhinhos fechados. 

Conhecemos bem a cuidadora de uma senhorinha iemenita que mora no primeiro andar. É uma mulher bonita, na casa dos 30 anos, com um sorriso de dentes de marfim e praticamente nenhuma palavra em hebraico ou em inglês além de “bom dia” e “obrigada”. Conseguimos entender que ela vem do Sri Lanka, como muitos cuidadores por aqui, e nos mostrou fotos de rios e de cachoeiras. Ela nunca consegue levar sua paciente até o bunker: a senhorinha não consegue descer escadas e não é recomendável entrar no elevador depois que o alarme começa a soar. Há centenas de milhares de pessoas nessa condição por aqui.

Vovó na área

Em uma das coberturas vive uma família com pai americano, mãe israelense e três filhos homens. Apenas um dos meninos aparece sempre que o alarme toca. Os garotos falam entre si apenas em inglês. A avó materna é russa e vive com eles — trazer os pais idosos para morar consigo é um costume que respeito muito naquele povo. O pai, vejo poucas vezes por ano; tudo indica que continue trabalhando nos Estados Unidos, algo relativamente comum por aqui. 

Aos europeus que fazem isso — trazem suas famílias para morar aqui, mas mantêm seu emprego ou negócio fora — chamamos de imigrantes-Boeing. Essa é uma rotina possível para eles, já que estão a poucas horas de voo de Tel Aviv e ganhar a vida aqui é um desafio tão grande quanto no resto do mundo.

A ex-síndica histórica do prédio mora na porta em frente à minha. É uma senhorinha pequenininha, com cerca de 85 anos, que dirige todos os dias um Kia Picanto azul que imagino ter uns vinte anos de uso (aqui, as marcas asiáticas dominam o mercado). Neste último ano, tive duas oportunidades de conversar mais longamente com ela. Na primeira, eu havia ido com meu marido prestar condolências quando sua filha faleceu por uma doença congênita. Ao vermos o aviso de falecimento com o sobrenome dela na porta de vidro do lobby, jurávamos que era ela a falecida — imagine nossa surpresa quando foi a própria quem nos abriu a porta.

A sirene toca nos horários mais imprevistos: amigos no bunker durante happy hour em Tel AvivMiriam Sanger

Da Sibéria para o bunker

Na segunda vez, em uma dessas últimas madrugadas, resolvi sentar-me nas escadas do prédio, com Nacho no colo, em vez de descer até o abrigo no andar térreo. Essa solução funciona para mísseis do Hezbollah, menos potentes do que os do Irã. Ela ficou ali ao meu lado, de pé e com frio, e me contou rapidamente sobre os anos que passou na Sibéria nos anos 1940, depois de escapar com seus pais da Polônia. Sem drama e sem lágrimas, lamentando ter de passar por situações como a daquele momento, depois de tantos anos de sofrimento. Alguém pode tirar sua razão?

Também nos surpreendemos nos últimos dias ao saber que nosso vizinho da frente — casado com uma inglesa com o sotaque mais bonito do prédio — é descendente de mãe tunisiana e pai alemão, e que fala com fluência. A mistura ficou interessante: rosto de árabe com a altura de europeus. É uma família doce e tranquila, com duas menininhas que, incrivelmente, sempre descem para o bunker sorridentes e, muitas vezes, fantasiadas de princesas, até mesmo no meio da noite. A vida delas deve ser um sonho e é uma delícia observá-las.

A vizinha que mora na porta ao meu lado, felizmente, está passando esta temporada em outro lugar. Alegando que tem alergia a animais, ela reclama o tempo inteiro dos meus; quando digo “o tempo inteiro”, eu não estou exagerando. Imagino como seria a sua convivência, nestes dias, não só com o nosso Nacho como também com um labrador visitante e carente de 50 quilos. Melhor assim.

Um emaranhado de histórias peculiares

A família de ultraortodoxos do segundo andar aparece pouco, talvez por ter se desentendido feio com a espanhola dos sete filhos. Já outra família do primeiro andar — dois senhores idosos e um filho de 50 anos que trabalha em uma loja de departamentos do shopping — nunca aparece. Não sei o nome deles. Só sei que, muitas vezes, fui parada pela senhora no lobby, perguntando, irritada, por que estou dedetizando o prédio e fazendo com que todos os mosquitos entrem em sua casa. Ela tem as picadas no braço para provar.

Parece que não há ninguém neste prédio que não carregue uma história peculiar — embora eu desconfie que isso não seja exatamente uma exclusividade nossa.

Meu marido tinha razão: guerras são uma ótima ocasião para conhecer os vizinhos. Ainda assim, que esta seja a última. A última de todas.

 

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