Vencedor do Oscar retata época com muitas causas e poucos heróis

Leonardo DiCaprio em cena de ‘Uma Batalha após a outra’Divulgação

Raimundo Faoro definiu a história do Brasil, certa vez, como um romance sem herois.

Quem lê uma sentença chega a ter inveja de atravessar a fronteira com a Argentina e esbarrar com ícones do imaginário vizinho embalados em broches, quadros e pôsteres para turistas: Gardel, Maradona, Che Guevara, Cortázar e outros ídolos estilizados à imagem e semelhança de um Messias de cabelos longos e esvoaçantes. Nós, calejados no espírito de Macunaíma, imaginamos que deve ser muito bom ter um heroi com caráter para chamar de nosso.

Os Estados Unidos, para onde historicamente olhamos em busca de referências e reservas morais – além de iPhones – não fica atrás. Assassinos são tratados como herois de guerra e ex-presidentes ganham rostos impressos até nas rochas de acidentes geográficos como o Monte Rushmore.

Mais do que salvadores, a dualidade entre bons e maus, certo e errado, abismo e salvação permite manejar a mitologia em torno de uma própria ideia de nação. Aqui e ali os lugares se deslocam ao longo do tempo, mais do que os personagens, como um protagonista de faroeste com uma espingarda na mão e um ideal na cabeça flechada.

Vencedor do Oscar de melhor filme de 2026, “Uma batalha após a outra”, de Paul Thomas Anderson, borra as linhas dessa mitologia norte-americana ao pintar herois vacilantes e entreguistas que colocam tudo a perder por razões pessoais e inconfessáveis. Parece até um país governado por um empresário que bota soldados para limpar o terreno inimigo e levar seus empreendimentos em área plana.

Não à toa, três dos personagens centrais – os rebeldes com causa interpretados por Leonardo di Caprio e Teyana Taylor e o militar vivido por Sean Penn – são, em algum momento, chamados de herois pelos pares.

Bob Ferguson (DiCaprio) é um mito de um grupo antifascista que só abandonou a luta quando mudou de identidade e decidiu criar sozinho jovem Willa (Chase Infiniti). Perfídia Beverly (Taylor), a mãe, é lembrada em casa como alguém que morreu na luta para dar a vida à filha e a todos. E Steven Lockjaw (Penn) é homenageado em seu círculo militar pelo trabalho de conter os perigos representados pelos imigrantes que inundam a grande nação.

A verdade é que Ferguson é um personagem errático, ansioso, alcoolizado e incapaz de resgatar Willa das mãos de seus perseguidores – não sem a ajuda do imigrante interpretado por Benício del Toro, que tem a missão ali de respirar, pensar e executar um plano mínimo de socorro. O dueto entre o desespero de um e a segurança de quem bebe na fonte oriental do front, do outro, é uma das partes altas do filme. 

Del Toro concorreu a melhor ator coadjuvante, e talvez merecesse levar a estatueta (tinha a minha torcida, inclusive). Mas o páreo com Sean Penn era duro.

O chefe dos militares tem a alcunha irônica de uma algema inquebrável, mas também coloca tudo a perder ao se envolver com uma inimiga, se apaixonar, e depois mobilizar um exército para apagar o “vacilo” (ok, já demos spoilers demais, e quem não viu até aqui que se vire para descobrir). Se falasse português seria certamente enquadrado por Sérgio Buarque de Hollanda como um sujeito cordial que coloca as relações (ou desejos) pessoais acima do bem público. No caso, as grades onde trancafia imigrantes – uma missão estratégica para o ideário trumpista, mas aqui nas mãos de um homúnculo que desaparece ao descer da camionete de rodas avantajadas e outras estruturas de poder que reforçam o que se quer transmitir ao espectador.

E Perfídia é retrato que o nome sugere – uma decepção para a filha que, para suportar a ausência materna, abraçou o mito da heroina para encontrar sentido no próprio abandono. A origem daquele mundo é, na verdade, um verbete que engloba deslealdade, falsidade, traição e delação. A causa em risco pelo prazer do risco, enfim.

Num tempo de vilões reais sem nuances e de economia de atenção, Thomas Anderson assumiu o risco de levar às telas um universo caricatural de traços de personalidades perversas, paranoides e amedrontadas numa estrada de alta velocidade. “Uma batalha após a outra” é uma espécie de “Velozes e Furiosos” com pedigree e selo político.

A rodovia que leva é a mesma que traz de volta. Ela é cercada pelo deserto e transforma sujeitos coletivos com códigos de sobrevivência (mal) decorados em lobos solitários de mãos atadas – ali não tem causa, não tem Estado, não tem grupo rebelde nem horizonte nem margem de manobra para evitar acidentes. Estamos todos sozinhos num grande salve-se quem puder e atire a primeira rajada quem tem juízo. O senhor tolere, diria um jagunço filósofo, isso é o deserto.

Os personagens de “Uma batalha após a outra” não têm concorrentes na vida real. Trump, o alvo da mensagem, no mesmo dia dizia em voz alta que pode voltar a atacar uma base já destruída no Irã “por diversão”. 

Anderson pode, assim, exagerar à vontade na caricatura – poderia transformar os vilões em vampiros para deixar mais clara a alegoria, mas seu concorrente em “Pecadores” usou essa no slam dos indicados para ver quem gritava mais alto para ser ouvido numa sala de som abafada pelas bombas lá de fora. 

De dramas sutis já basta a vida – ou o concorrente a melhor filme estrangeiro, que desbancou a versão brasileira da caçada humana nos tempos de homens sórdidos, e que fez tanta gente dormir na sessão. A concessão à sutileza e ao drama dito universal, desses que acometem as melhores famílias em tempos de guerra ou não, estava garantido. (Em tempo: eu avisei que “Valor Sentimental” era a grande pedra no caminho de “O Agente Secreto”. Dito e feito, mas agora não adianta declarar guerra à Noruega)

Em um mundo debelado e explosivo, ganha quem grita mais. Thomas Anderson gritou. DiCaprio gritou. Todo mundo ali gritou para alguém atender. E assim garantir a estatueta em um país que aboliu a sutileza.

*Este texto não reflete necessariamente a opinião do Portal iG

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