Vírus furtado na Unicamp era do laboratório mais seguro do Brasil

O vírus estava em um laboratório de classe de risco 3, que significa que o agente infeccioso apresenta alto risco para o indivíduo e risco moderado para a comunidadeDivulgação/ Unicamp

As amostras de vírus que teriam sido furtadas do laboratório de virologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) foram retiradas de uma área de nível 3 de biossegurança (NB-3), que atualmente é o nível mais alto possível de segurança para estudar agentes infecciosos – como vírus e bactérias – em laboratórios do Brasil, exigindo protocolos rigorosos de acesso. As informações foram obtidas no Termo de Audiência do caso.

A suspeita pelo crime é a pesquisadora e professora doutora Soledad Palameta Miller, que atuava na universidade, ela foi presa na segunda-feira (23), mas a Justiça concedeu liberdade provisória. A pesquisadora vai responder por expor a perigo a vida e saúde de outras pessoas, por transporte irregular de organismo geneticamente modificado e por fraude processual, segundo informações da Justiça Federal.

Miller foi presa em flagrante depois que a Polícia Federal (PF) encontrou as amostras virais em laboratórios da Unicamp, que eram usados pela professora. Detalhes do material biológico serão mantidos em sigilo pelos órgão públicos, conforme determinou a decisão judicial, mas deve ser tratado como “vírus”.

A defesa da pesquisadora afirma que não há materialidade na acusação e que ela utilizada o laboratório do Instituto de Biologia, de onde as amostras foram retiradas, por não possuir estrutura própria.

Miller responderá em liberdade ao processo, mas deve cumprir as seguintes regras:

– Comparecer mensalmente à 9ª Vara Federal, pagar uma fiança no valor de dois salários mínimos, e está proibida de deixar a cidade de Campinas (SP) por mais de cinco dias e de sair do país sem autorização.

– A docente também está proibida de acessar os laboratórios da Unicamp envolvidos na investigação.

A Unicamp informou que abriu uma sindicância interna para apurar o caso.

Como aconteceu?

Cronologia dos fatos:

Em 13 de fevereiro, as amostras do vírus sumiram do laboratório de virologia do Instituto de Biologia da Unicamp.

Em 23 de março, a Unicamp aciona a PF que encontra os materiais em laboratórios da Faculdade de Engenharia de Alimentos, onde Miller atuava. Os laboratórios são fechados para cumprimento de mandados e a pesquisadora é presa.

Em 24 de março, Justiça concede à suspeita o direito de responder em liberdade e menciona que o material biológico é um vírus.

Quem é a pesquisadora?

Soledad Palameta Miller, tem 36 anos e é natural da Argentina, ela coordenava o Laboratório de Virologia e Biotecnologia em Alimentos em linhas de pesquisa orientadas a vigilância epidemiológica e desenvolvimento de diagnósticos e terapias relacionadas aos vírus transmitidos por alimentos e água.

Soledad Palameta Miller, acusada pelo furto das amostrasReprodução Redes Sociais

Segundo dados do portal Docente e Pesquisador da Unicamp, a pesquisadora atuou como analista no Laboratório Nacional de Biociências do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) em projetos na área de engenharia de vetores virais, imunomodulação e anticorpos monoclonais dirigidos para terapia de câncer.

Miller realizou pós-doutorado no Laboratório de Virologia da Unicamp em projetos relacionados ao desenvolvimento de vacinas vetorizadas, protótipos de testes rápidos para diagnóstico de doenças aviárias e estabelecimento de modelos alternativos para diagnóstico e produção de vacinas veterinárias.

Como a professora retirou as amostras de outro laboratório?

As investigações apontam que Soledad não possuía laboratório próprio na Faculdade de Engenharia de Alimentos, e também não podia acessar os locais de segurança, então ela usava a sua orientada de mestrado para abrir as portas dos outros laboratórios para ela, inclusive aos finais de semana.

A professora possuía o consentimento prévio de responsáveis para utilizar os freezers de outros laboratórios.

Por que essa conduta foi perigosa?

A movimentação e o armazenamento do material biológico sensível foram feitos em ambientes não controlados, infringindo as normas. Além disso, houve o descartes de material em lixeiras comuns, expondo a saúde de terceiros a perigo direto e iminente, apresentou o documento da Justiça.

O vírus estava em um laboratório de classe de risco 3, que significa que o agente infeccioso apresenta alto risco para o indivíduo e risco moderado para a comunidade. São agentes que podem causar doenças graves ou letais, transmitidos especialmente pelo ar, e podem se espalhar na comunidade, embora existam medidas de prevenção e tratamento.

Pesquisadores durante trabalho no Instituto de Biologia da UnicampLiana Coll/Unicamp

O Orion, primeiro laboratório do Brasil com nível 4 (máximo) de biossegurança está em construção em Campinas (SP), com previsão de ficar pronto em 2027.

Onde as amostras foram encontradas?

A PF encontrou as amostras em três locais diferentes:

– Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA): foram encontradas diversas caixas com amostras dentro de tubetes em um freezer lacrado.

– Laboratório de Doenças Tropicais (Instituto de Biologia): foram localizados tubetes manipulados e abertos no espaço reservado a Soledad dentro do freezer de outra professora. Próximo ao refrigerador, havia material descartado que provavelmente já havia passado por autoclave.

– Laboratório de Cultura de Células (Instituto de Biologia): uma grande quantidade de frascos descartados foi localizada dentro de uma lixeira.

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