O data center dentro de uma mina norueguesa com 120.000 metros quadrados que usa água de fiorde para resfriar servidores

Você provavelmente imagina um data center como um galpão barulhento cheio de ar-condicionado no meio de uma cidade. O Lefdal Mine Datacenter, instalado dentro de uma mina desativada na costa oeste da Noruega, é o oposto disso: fica dentro de uma montanha, usa água gelada de fiorde para resfriar os servidores e opera com uma eficiência energética que instalações convencionais dificilmente conseguem alcançar.

Por que o Círculo Polar Ártico virou o destino preferido dos maiores data centers do mundo?

A maior despesa de operar um data center não são os servidores. Em regiões tropicais, os sistemas de refrigeração consomem até 50% de toda a energia elétrica de uma instalação convencional, sem nenhuma utilidade além de evitar que os equipamentos superaqueçam.

A métrica que define a eficiência energética do setor é o PUE (Power Usage Effectiveness): a razão entre toda a energia consumida pela instalação e a energia efetivamente usada pelos servidores. A média global fica em 1,58. Os data centers árticos operam consistentemente entre 1,07 e 1,15, uma diferença que representa centenas de milhões de euros anuais em economia de energia para empresas como Meta, Microsoft e Google.

Nos trópicos, os sistemas de refrigeração consomem até 50% de toda a energia elétrica de uma instalação convencional, sem nenhuma utilidade além de evitar que os equipamentos derretam

O que é o Lefdal Mine Datacenter e como ele funciona dentro de uma montanha?

O Lefdal Mine Datacenter ocupa uma mina de olivina desativada na costa oeste da Noruega e dispõe de 120.000 m² de área subterrânea, o equivalente a 17 campos de futebol escavados dentro de uma montanha. A rocha ao redor mantém a temperatura interna em 8 °C constantes sem nenhuma refrigeração artificial, e o resfriamento é feito com água bombeada diretamente do fiorde a 565 metros de profundidade.

A capacidade instalada chega a 90 MW de resfriamento, distribuídos em 12 trocadores de calor de 7,5 MW cada, com suporte a racks de até 50 kW por unidade e PUE inferior a 1,15. O ciclo completo de resfriamento funciona assim:

  • Água fria do fiorde é captada a 565 metros e conduzida aos trocadores de calor no Nível 3 da mina;
  • Um circuito fechado de água doce absorve o frio e distribui a água gelada pelos pisos elevados dos corredores de servidores;
  • Sistemas inline convertem a água fria em ar frio, distribuído diretamente para os racks;
  • A água doce aquecida retorna ao trocador e transfere o calor para a água do fiorde;
  • A água do fiorde é devolvida ao mar sem contaminantes, pois os dois circuitos nunca se misturam.
Trocadores em circuito fechado aproveitam essa temperatura sem contato direto entre a água do fiorde e os equipamentos dos servidores

Como o data center da Meta em Luleå opera com PUE de 1,07 desde 2013?

Em junho de 2013, a Meta inaugurou em Luleå, no norte da Suécia, a 70 km do Círculo Polar Ártico, o seu primeiro data center fora dos Estados Unidos. A temperatura local varia entre -20 °C no inverno e 10 °C no verão, eliminando a refrigeração mecânica por longos períodos do ano.

A energia vem de doze usinas hidrelétricas nos rios de Norrland, mantendo o campus alimentado por 100% de energia renovável. Com PUE médio de 1,07, um dos mais baixos já registrados para um hyperscale data center, o site atende hoje mais de 75% dos usuários europeus da Meta. O calor gerado pelos próprios servidores é recuperado para aquecer os escritórios do campus durante o inverno ártico.

A expansão do modelo ártico ganhou novo capítulo em março de 2026. O canal Olhar Digital, com mais de 945 mil inscritos, detalhou o projeto da Microsoft em parceria com Nscale e Aker para construir um grande data center em Narvik, a 250 km do Círculo Polar Ártico, com investimento estimado em mais de US$ 6 bilhões:

Como o resfriamento ártico reduz o consumo de energia de um data center em até 90%?

Quando o ar externo já está abaixo de zero, não há necessidade de compressores nem chillers. A Finlândia oferece até 8.000 horas anuais de resfriamento livre, cobrindo mais de 90% do ano sem acionar nenhum sistema mecânico de refrigeração. Nos fiordes noruegueses, a água mantida a 8 °C estável o ano inteiro funciona como um dissipador natural de calor praticamente ilimitado.

A tabela abaixo compara os principais data centers árticos em operação hoje:

Instalação País Fonte de resfriamento PUE aproximado
Meta Luleå Suécia Ar externo ártico 1,07
Lefdal Mine Datacenter Noruega Água de fiorde a 8 °C Abaixo de 1,15
Green Mountain Noruega Água de fiorde Abaixo de 1,15
Verne Global Islândia Ar subártico Abaixo de 1,20
Microsoft Espoo Finlândia Ar externo + aquecimento urbano Abaixo de 1,15

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A água do fiorde é devolvida ao mar sem contaminantes, pois os dois circuitos nunca se misturam

O aquecimento global ameaça o modelo que as gigantes de tecnologia construíram no Ártico?

Um estudo publicado em 2024 sobre a pegada ambiental dos data centers na Suécia confirmou que a combinação de resfriamento livre com energia renovável reduz as emissões de gases de efeito estufa em até 90% frente a instalações em regiões quentes alimentadas por energia fóssil. O mesmo estudo identificou uma externalidade positiva: o calor residual dos servidores, integrado às redes de aquecimento urbano, pode abastecer bairros inteiros durante o inverno.

A ironia não passa despercebida pelos pesquisadores: o Ártico aquece quatro vezes mais rápido que a média global, e são exatamente essas temperaturas que tornam esses data centers economicamente viáveis. Se o aquecimento avançar no ritmo atual, a janela de resfriamento livre pode começar a se estreitar nas próximas décadas, tornando ainda mais urgente a transição para modelos de eficiência que não dependam exclusivamente do clima externo.

O Ártico resolve hoje o problema que o setor criou, mas não pode ser a única resposta

Instalar um data center dentro de uma montanha norueguesa e resfriá-lo com água de fiorde é uma das soluções mais elegantes que a engenharia já encontrou para um problema de escala global. O custo operacional cai, as emissões despencam e o calor residual ainda aquece cidades inteiras no inverno.

Mas a dependência do frio ártico cria uma vulnerabilidade de longo prazo que as próprias empresas que operam esses complexos já reconhecem. O mesmo setor que hoje se beneficia das temperaturas extremas do norte é um dos maiores responsáveis pelo aquecimento que ameaça torná-las menos extremas no futuro.

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