
Em Brasília um ditado popular diz que se Gilberto Kassab pular do precipício é bom seguir os passos. Não tem erro. Segundo a lenda, ele sempre sabe o que faz.
Talvez a máxima tenha valor diante do senso de oportunidade do chefão do PSD, criado para ser um partido nem de esquerda, nem de direita, nem muito pelo contrário. Ele sabe como poucos avaliar as chances de um postulante numa disputa majoritária. Depois das eleições de 2022, ele virou secretário de Governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos), a quem apoiou em São Paulo, e emplacou três ministros no governo Lula (PT), a quem não apoiou.
Se consegue dar seus plot twists no governo alheio, Kassab não parece ter a mesma habilidade na hora de governar a própria casa. Por cálculo eleitoral ou investimento de curto prazo, ele quer porque quer lançar candidato próprio ao Planalto.
Fez isso estimulando a competição entre três nomes competitivos. Numa ponta estava Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul conhecido por defender uma gestão técnica (seja lá o que isso signifique) e a modernização do Estado. De outro, Ronaldo Caiado, coronel de Goiás e que muitas vezes ameaça se posicionar mais à direita do que o próprio bolsonarismo.
No meio estava Ratinho Jr (PR), e era ele a aposta de Kassab. Uma decisão salomônica que precisou ser revista com a bola das costas tomada no próprio campo, onde Sergio Moro fechou uma aliança com o PL de Jair Bolsonaro e agora ameaça a hegemonia de seu grupo político.
Kassab sabe que as chances de eleger um presidente numa disputa tão polarizada são baixas. Mas sabe também que o valor do apoio no segundo turno pode custar mais caro do que o investimento de agora. Para isso é preciso escolher alguém que tenha lá seus 5% de apoio eleitoral e alguma capacidade de transferência de votos para negociar.
Caiado é este nome, decidiu o partido. E a reação de Eduardo Leite, o pré-candidato preterido, mostra que essa aventura já começou mal.
“Embora essa decisão desencante a mim, como a tantos outros brasileiros, pela forma como insistem em fazer política no nosso país, eu não vou discutir essa decisão”, disse o governador gaúcho, já discutindo o que prometeu não discutir.
Boa sorte para Kassab consertar a confusão que ele mesmo ajudou a causar.
*Este texto não reflete necessariamente a opinião do Portal iG
