Homens com obesidade podem ‘transmitir’ problemas para os filhos; entenda mecanismo


Pesquisa investigou como homens com obesidade ‘transmitem’ problemas metabólicos para os filhos.
Freepik
Os pais são responsáveis por passar aos filhos uma série de características – cor dos olhos, do cabelo, tipo sanguíneo. Mas são também por meio dos genes que se determinam a propensão a certas doenças.
Já se sabia, por exemplo, que a saúde alimentar dos pais, o que inclui problemas como obesidade ou desnutrição, pode influenciar no risco de doenças nos filhos.
➡️Mas um novo estudo publicado na revista científica “Nature Communications”, que contou com a participação de pesquisadores brasileiros, mostrou como isso acontece no caso da obesidade.
“Ele [o estudo] mostra que essa ‘herança’ pode ser transmitida pelo pai através do espermatozoide, usando pequenas moléculas, os microRNAs, que carregam informações sobre o estado de saúde do organismo”, detalha Marcelo Mori, professor do Instituto de Biologia da Unicamp e um dos pesquisadores envolvidos no estudo, em entrevista ao g1.
VEJA TAMBÉM:
Mais que IMC: especialistas propõem reformulação de diagnóstico da obesidade
O grupo realizou experimentos com camundongos e observou que os filhotes de machos obesos nasciam com peso normal, mas, com o passar dos dias, apresentavam um quadro de intolerância à glicose e resistência à insulina.
👉Essas características contribuem para o desenvolvimento do diabetes tipo 2.
Outro ponto importante revelado pelo estudo é que essa influência negativa vinda do pai pode ser revertida.
Isso porque os pesquisadores também notaram que, quando o homem com obesidade perdia peso, houve uma redução desses microRNAs no esperma.
“Perder peso melhora a ‘qualidade molecular’ do esperma, pelo menos no que diz respeito aos microRNAs estudados”, explica Mori.
LEIA TAMBÉM:
Cozinhar em casa ao menos uma vez por semana pode reduzir risco de demência, afirma estudo com idosos
Ultraprocessados podem afetar desenvolvimento do embrião e reduzir fertilidade em homens, mostra estudo
MicroRNAs e a ‘transmissão’ de doenças
Durante o estudo, os pesquisadores observaram que os animais obesos passaram a expressar em excesso no tecido adiposo e também no espermatozoide um tipo de microRNA conhecido como let-7.
🧬Os microRNAs funcionam como “interruptores finos” das células: eles não produzem proteínas, mas controlam quanto de cada proteína é produzido.
“Quando ocorre a fecundação, essas moléculas passam para o embrião e alteram o funcionamento das células desde o início da vida, aumentando o risco de problemas metabólicos no futuro”, comenta Mori.
Isso mostra que não é só o DNA que importa. O esperma também leva sinais sobre o estado metabólico do pai na forma de microRNAs.
Os pesquisadores ainda não sabem como esses microRNAs aumentam no espermatozoide e de onde eles vêm.
Efeito semelhante em humanos
Para validar os achados em humanos, foram selecionados 15 homens com nível de obesidade severo e que se preparavam para tratamentos de fertilidade.
📈Análises iniciais mostraram excesso do let-7, tanto no tecido adiposo quanto no sêmen – como observado nos camundongos.
Quando submetidos a uma intervenção no estilo de vida e a uma reeducação alimentar, os homens também tiveram uma diminuição nos níveis desse microRNA.
“Em humanos, os estudos mostram principalmente associações, porque é difícil separar fatores biológicos de fatores de estilo de vida (como alimentação familiar)”, compara o pesquisador Marcelo Mori.
Desafios e próximos passos
De acordo com os pesquisadores, uma das grandes perguntas, após entender melhor como funciona o mecanismo responsável por transmitir a herança para os filhos, é justamente de onde vêm esses microRNAs.
“Uma hipótese é que eles venham do próprio tecido adiposo (a gordura do corpo)”, analisa Mori.
Se essa hipótese for confirmada, no futuro há a possibilidade de intervir nesse processo e reduzir o risco de transmissão desses sinais moleculares para a próxima geração.
Para isso, são necessárias novas pesquisas que investiguem a origem desse microRNA bem como estudos clínicos para aprofundar os achados em humanos.
Adicionar aos favoritos o Link permanente.