
Quase quatro décadas após o Acidente radiológico de Goiânia, a tragédia voltou ao centro das atenções após a série Emergência Radioativa, da Netflix, relembrar um dos episódios mais graves envolvendo material radioativo no Brasil.
O caso, marcado pela exposição da população ao Césio-137, deixou consequências profundas que ainda ecoam na memória coletiva e na história da saúde pública e da segurança nuclear no país.
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O que aconteceu com as vítimas do Césio-137?
As pessoas que tiveram contato com o material radioativo foram expostas de diferentes formas. Houve contato direto com a pele, chamado de contaminação externa. Também ocorreram casos por inalação, ingestão e absorção por feridas, caracterizando contaminação interna, além da irradiação.
Desde os primeiros dias, surgiram sintomas como náuseas, vômitos, diarreia, tontura e lesões na pele semelhantes a queimaduras. Parte dos afetados procurou atendimento médico em hospitais locais.
De acordo com o Governo de Goiás, mais de 112.800 pessoas foram avaliadas na época. Dessas pessoas, 249 apresentaram sinais de contaminação interna e/ou externa.
Em 120 casos, a radiação estava apenas em roupas e calçados, assim, os pacientes foram descontaminados e liberados.
Já as outras 129 passaram a receber acompanhamento médico regular. Entre elas, 79 tinham contaminação externa e receberam tratamento ambulatorial. Outros 50 casos eram de contaminação interna.
Dos casos com contaminação interna, 30 foram atendidos em albergues, em regime de semi-isolamento, e os outros 20 foram encaminhados ao Hospital Geral de Goiânia.
Entre os casos mais graves, 14 pacientes foram transferidos para o Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, onde quatro deles morreram. Oito pessoas desenvolveram a Síndrome Aguda da Radiação (SAR). E outras 14 apresentaram falência da medula óssea. Além disso, um paciente precisou amputar o antebraço.
Ao todo, 28 pessoas desenvolveram a Síndrome Cutânea da Radiação, com lesões na pele conhecidas como radiodermites.
Vítimas fatais

Ainda segundo o Governo de Goiás, as mortes ocorreram entre quatro e cinco semanas após a exposição ao material radioativo. As causas foram complicações típicas da Síndrome Aguda da Radiação (SAR), como hemorragia e infecção generalizada.
As quatro vítimas fatais diretas do acidente foram:
Leide das Neves Ferreira tinha 6 anos e se tornou o principal símbolo da tragédia. Ela teve contato direto com o material e ingeriu partículas. Morreu em 23 de outubro de 1987 e foi enterrada em um caixão de chumbo para conter a radiação.
Maria Gabriela Ferreira, de 37 anos, teve papel importante ao tentar conter a contaminação. Ela apresentou sintomas poucos dias após o contato e morreu na mesma data que Leide. Também foi sepultada em um caixão especial.
Israel Batista dos Santos, de 22 anos, trabalhava no local e participou da manipulação do material. Ele faleceu em 27 de outubro de 1987.
Admilson Alves de Souza, de 18 anos, também teve contato direto com a fonte radioativa e morreu no dia 28 de outubro de 1987.
Relembre como aconteceu o acidente

Em 13 de setembro de 1987, Goiânia foi palco do maior acidente radiológico do mundo fora de uma usina nuclear. Tudo começou quando dois catadores encontraram um aparelho de radioterapia abandonado no antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR).
Dentro dele havia uma cápsula de Césio-137, um material altamente radioativo que acabou sendo transportado e vendido a Devair Alves Ferreira, dono de um ferro-velho.
Encantado com o brilho azul emitido pela substância, ele distribuiu fragmentos entre familiares e amigos. Sem conhecer os riscos, as pessoas passaram a manusear o material, o que provocou sintomas rápidos, como náuseas, tontura, vômitos e diarreia.
A suspeita sobre a origem do problema surgiu quando Maria Gabriela, esposa de Devair, desconfiou do pó. Em 28 de setembro, ela levou a cápsula, dentro de uma sacola plástica, até a Vigilância Sanitária.
O perigo só foi identificado em 29 de setembro. Com o alerta, milhares de pessoas foram levadas ao Estádio Olímpico para passar por processos de descontaminação. Casas foram demolidas, ruas isoladas e grandes quantidades de solo removidas, em uma operação que marcou profundamente a cidade.
Quase quatro décadas depois, o caso ainda é lembrado como um alerta sobre a importância da segurança no manuseio e descarte de materiais radioativos.
Em 2025, a Assembleia Legislativa de Goiás aprovou novas medidas para garantir atendimento contínuo às vítimas, incluindo acompanhamento psicológico, reconhecendo que os impactos do Césio-137 vão além das consequências físicas.
