
Comunidade ribeirinha no Amazonas.
Divulgação/FAS
Houve um tempo em que o jornalismo na Amazônia era feito ao som de máquinas de escrever, com imagens captadas em câmeras enormes e fitas de áudio editadas manualmente. Hoje, o cenário se transformou: drones sobrevoam áreas remotas da floresta e algoritmos de Big Data (imenso volume de dados digitais que exigem tecnologia de ponta para tratamento) cruzam informações para detectar crimes ambientais em tempo real.
Neste 7 de abril, Dia do Jornalista, a profissão dedicada a narrar o cotidiano da maior floresta do mundo não celebra apenas uma data, mas uma verdadeira metamorfose.
Em meio à ‘Infodemia’, saturação de informações que muitas vezes dificulta o acesso a fontes confiáveis, e ao avanço das inteligências artificiais, o jornalista amazônico emerge como um guardião da democracia, unindo a sensibilidade do olhar humano ao rigor técnico no trato com os dados.
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Para a jornalista e doutora em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Edilene Mafra, essa evolução é uma missão de vida. Com uma trajetória que atravessa a transição do analógico para o digital, Edilene não apenas acompanhou a mudança tecnológica, mas se apropriou dela para se ‘ferramentar’ e fortalecer o direito à informação.
“Comecei minha caminhada quando as notícias eram datilografadas em laudas de papel. Viver a transição para o ecossistema digital não foi apenas um desafio tecnológico, mas uma oportunidade contínua do exercício da práxis e da ética”, diz Edilene, que reforça que o uso de inteligências de fontes abertas ajuda a revelar o que está submerso em volumosos bancos de dados.
“Acredite: agora, ‘entrevistamos’ os dados para consolidar matérias que podem transformar a realidade das pessoas”.
Para quem conhece os desafios de atuar na Amazônia, a autoridade do profissional na região depende de um binômio inegociável: o domínio de ferramentas avançadas e o conhecimento profundo do ambiente.
“Para ser jornalista em nosso território, é preciso compreender nossa geografia complexa, nossa história muitas vezes invisibilizada e a alma dos nossos povos. Só assim os dados deixam de ser apenas códigos, vídeos, textos ou sons e passam a ser histórias de vida ou provas cruciais contra a desinformação”, afirma a jornalista.
Academia como Escuta
A celebração da data também marca os 57 anos do curso de jornalismo da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), o pioneiro na região. Como parte das comemorações, o V Congresso de Jornalismo da Amazônia (Conjor) traz o tema ‘Fronteiras Digitais, Vozes Reais’. O evento ocorre entre os dias 22 e 24 de abril.
Segundo a coordenadora do curso de jornalismo, Grace Soares, a temática nasceu de um paradoxo: embora a Amazônia esteja há décadas no centro do debate climático global, as narrativas raramente partem de quem vive na região.
“É uma reflexão complexa que nos obriga a pensar o jornalismo amazônida sob a perspectiva de contar nossa história de ‘dentro para fora’, resistindo a visões estrangeiras estereotipadas e simplistas. Precisamos garantir o direito à informação mesmo em cenários de ‘desertos de notícias’, um conceito que exige toda a nossa atenção”, destaca.
Ao final, a professora Grace Soares define a tônica deste Dia do Jornalista: resistência e inovação. “É chegando aos lugares ‘invisíveis’, investindo em um jornalismo profundo e independente, que combateremos a desinformação. Na era digital, a tecnologia é o instrumento capaz de amplificar nossas vozes, levando-as onde antes o alcance era limitado”, conclui.
Professora Grace Soares durante edição do Conjor.
Divulgação
Voz que transcende o território
A transformação do perfil jornalístico na região também passa pelo protagonismo de quem sempre foi objeto da notícia. Tainara Kambeba, jovem liderança do povo Omagua Kambeba, é um exemplo dessa nova era.
Nascida na Aldeia Jaquiri, em Alvarães, e criada pelos bisavós na Comunidade indígena Três Unidos, na margem esquerda da Área de Proteção Ambiental (APA) no Rio Cuieiras, região do Rio Negro. Lá, Tainara aprendeu desde cedo que a preservação da floresta e da cultura ancestral é imprescindível para o futuro.
Seu interesse pela comunicação despertou aos 12 anos, por meio do projeto “Repórteres da Floresta”, da Fundação Amazônia Sustentável (FAS). O que começou como um sonho de infância para vencer a timidez e produzir jornais impressos na comunidade, sem acesso à internet, tornou-se seu projeto de vida. Para concretizá-lo, Tainara deixou sua casa e passou a morar em Manaus, onde cursa a graduação em jornalismo.
“Eu era muito tímida e mal conseguia me expressar, mas ao participar do projeto, me desenvolvi. Na época, produzíamos jornais impressos para distribuir nas comunidades locais. Descobri na comunicação o sentido para a minha vida e para as atividades que realizo pelo bem do meu povo e da nossa floresta, e foi assim que estive em lugares que nunca tinha imaginado que chegaria. Tudo é comunicação”, afirma.
Hoje, a jovem que distribuía informativos de papel na comunidade ocupa palcos globais e vê no jornalismo a ferramenta definitiva para qualificar seu ativismo. Tainara chegou a participar em duas edições da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP).
Como Jovem Ativista da Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) no período de 2023-2025, Tainara representou o Brasil na COP27 (Egito) e na COP30 (Brasil), além de integrar a Rede de Comunicadores Jovens da Makira-E’ta. Para ela, ocupar esses espaços globais é cumprir um papel que já compreende com clareza: ecoar as vozes de seu povo com técnica e autoridade.
“Nossos ancestrais lutaram muito para que estivéssemos aqui hoje. Carrego a voz daqueles que não podem estar nos lugares onde chego, levando as pautas do nosso território. Através do jornalismo, posso dar visibilidade à cultura e às lutas indígenas, levar informações sobre mudanças climáticas para as pessoas entenderem a importância da floresta. Nessa luta a minha arma é a palavra e a minha voz, afirma a estudante.
Jornalistas Edilene Mafra e Tainara Kambeba.
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O futuro da notícia
Neste 7 de abril, o recado é claro: em meio a algoritmos e fronteiras digitais, a verdade continua sendo o território mais importante a ser desbravado. Com o uso de drones, análise minuciosa de satélites e o cumprimento esperado da Lei de Acesso à Informação (LAI), o jornalismo amazônico reafirma seu papel como sistema indispensável de fiscalização e promoção da cidadania.
Mais do que nunca, a união entre a alta tecnologia e a alma amazônica prova que a informação de qualidade é a bússola que orienta o desenvolvimento sustentável e protege as vozes reais da floresta. O futuro da notícia já começou, e ele é escrito com ética, rigor e um compromisso inabalável com a democracia.
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