
Mapa mundi segundo projeção Gall-Peters
Wikimedia Commons
Se alguém te perguntasse hoje quantos continentes existem no mundo, você provavelmente diria que há seis. Mas isso não é uma verdade tão absoluta assim, e a resposta pode ser diferente em outros países.
O que você aprendeu na escola sobre a divisão do mundo não é a mesma lição ensinada a um estudante nos Estados Unidos, na Rússia ou na Grécia. E, embora pareça uma pergunta teoricamente simples, o número de continentes no planeta Terra varia entre quatro e sete, dependendo dos critérios geográficos, geológicos ou culturais utilizados por cada país ou organização.
No Brasil, a “verdade escolar” consolidada nos livros didáticos e cobrada em exames como o Enem e vestibulares é o modelo de seis continentes: África, América (unificada), Antártica, Ásia, Europa e Oceania. No entanto, essa é apenas uma das formas de ler o mapa-múndi. (Entenda mais abaixo.)
“A ideia de continente não é apenas natural [geológica], mas também uma construção histórica, o que explica a ausência de consenso, porque os critérios variam. Se considerarmos apenas fatores físicos, temos uma divisão oficial. Mas, ao incluir aspectos culturais, históricos e políticos, a definição se torna mais complexa”, explica o doutor em educação pela USP e professor de geografia da Universidade São Judas, Sidnei Ferreira de Vares.
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Para o especialista, essas variações em conceitos tão práticos mostra como o ensino da geografia é influenciado por tradições culturais, o que, segundo ele, pode gerar diferentes percepções sobre o mundo.
Abaixo, entenda as diferentes formas de contabilizar os continentes do nosso planeta:
Modelo de 4 continentes
É o modelo mais rigoroso do ponto de vista geográfico, pois considera apenas grandes massas de terra naturalmente separadas por água. Canais artificiais, como o de Suez ou do Panamá, não são levados em conta para a divisão. Sob essa ótica, existem apenas:
Afro-Eurasia (ou Eurafrásia): O imenso bloco que une África, Europa e Ásia.
América: Unificada.
Antártica.
Austrália (ou Oceania).
Mapa-Múndi com 4 continentes.
Arte: Kayan Albertin/Juan Silva/g1
Modelo de 5 continentes
Este modelo é famoso por ser o adotado pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), representado pelos cinco anéis olímpicos. Ele foca apenas nos continentes habitados, excluindo a Antártica. Os cinco continentes são: África, América (unificada), Ásia, Europa e Oceania.
Mapa-Múndi com 5 continentes (versão Comitê Olímpico Internacional).
Arte: Kayan Albertin/Juan Silva/g1
Modelo de 6 continentes
Existem duas versões principais para este modelo:
América unificada (Padrão no Brasil): Considera a América (Norte e Sul) como um único bloco, junto com África, Antártica, Ásia, Europa e Oceania. É a visão predominante na América Latina e em países como a Grécia.
Mapa-Múndi com 6 continentes (padrão América Latina).
Arte: Kayan Albertin/Juan Silva/g1
Versão Eurásia: Popular na Rússia e em partes da Europa Oriental, este modelo considera que a Europa e a Ásia são uma única massa de terra contínua (a Eurásia), mas mantém as Américas separadas. Geologicamente, faz sentido, já que não há um oceano separando os dois continentes, apenas marcos como os Montes Urais.
Divisão continental com Eurásia.
Arte: Kayan Albertin/Juan Silva/g1
Modelo de 7 continentes
Este é o padrão mais utilizado em países de língua inglesa, como Estados Unidos e Reino Unido, e por órgãos como a CIA. Nesse modelo, a América é dividida em duas (Norte e Sul), resultando na lista: África, Antártica, Ásia, Europa, América do Norte, América do Sul e Oceania. A divisão reflete mais critérios históricos e culturais do que propriamente geológicos.
Mapa-Múndi com 7 continentes.
Arte: Kayan Albertin/Juan Silva/g1
“No modelo de sete continentes, todas as divisões são adotadas. Isso mostra que não há um único critério absoluto, mas diferentes formas de interpretar o espaço geográfico”, explica o Prof. Dr. Sidnei Ferreira de Vares.
Por que a Europa é um continente se está grudada na Ásia?
“Essa divisão não é geográfica, mas cultural e política. Europa e Ásia formam uma única massa de terra, mas, ao longo da história, a Europa foi sendo construída como um espaço distinto, associado a uma identidade própria e a uma ideia de centralidade. Essa separação, portanto, reflete mais uma visão histórica do que uma realidade física”, continua o especialista.
Ou seja, a definição de continente não é puramente física. A Europa “decidiu” existir como um continente separado por razões políticas e culturais, apesar de estar fisicamente conectada à Ásia.
Países como a Rússia exemplificam essa confusão: o país é transcontinental, ou seja, se estende pelos dois lados. A maior parte do território fica na Ásia, mas a maioria da população e os centros políticos estão situados na parte europeia.
Além disso, no caso da Europa, “essa divisão entre Ocidente e Oriente está ligada a uma ideia de progresso que, durante muito tempo, colocou algumas regiões como referência e outras como atrasadas. Isso acabou entrando nos materiais escolares e sendo reproduzido sem muito questionamento”, diz Sidnei Ferreira de Vares.
Por estes motivos, o professor aconselha que, mais do que decorar quantos continentes existem, é preciso entender que essas divisões são construções históricas que dizem muito sobre quem as criou e sobre o contexto em que foram criadas.
