Trump e Netanyahu: a vitória que nunca veio

Há guerras que se vencem no campo de batalha. Outras, mais complexas, se definem na esfera política, econômica e simbólica. O confronto envolvendo os Estados Unidos, Israel e o Irã pertence claramente à segunda categoria. E, sob essa perspectiva, a conclusão é inevitável: Donald Trump — ao lado de Benjamin Netanyahu — emerge como o grande perdedor.

Tratou-se de uma guerra de escolha, não de necessidade. Um conflito assimétrico no qual, paradoxalmente, o lado mais fraco conseguiu extrair ganhos estratégicos relevantes, enquanto o mais forte viu sua credibilidade ser corroída.

O primeiro desses ganhos foi expor, de forma quase didática, a lógica que sustenta o governo de Netanyahu: a guerra permanente como instrumento de sobrevivência política e afirmação regional. Ao buscar consolidar Israel como potência hegemônica no Oriente Médio, multiplicaram-se frentes de conflito, acompanhadas por acusações cada vez mais frequentes — e hoje amplamente reconhecidas — de violações graves do direito internacional humanitário. O resultado não foi segurança, mas instabilidade ampliada.

Paradoxalmente, essa estratégia produziu um efeito ainda mais perverso: contribuiu para o recrudescimento do antissemitismo global. Ao confundir deliberadamente Estado e identidade religiosa, abriu-se espaço para uma reação difusa e perigosa, que termina por vitimar precisamente aqueles que se pretendia proteger. Israel, concebido como refúgio seguro, transforma-se, assim, em um espaço de crescente vulnerabilidade.

Isso não significa, contudo, ignorar que a degradação das normas internacionais foi transversal. Ao longo do conflito, acumularam-se alegações consistentes de condutas configuráveis como crimes de guerra por diferentes atores. Operações militares com impacto desproporcional sobre civis, ataques a infraestruturas críticas e ações que desafiam os princípios de distinção e proporcionalidade passaram a fazer parte do repertório estratégico. O mais grave não é apenas a ocorrência desses atos, mas a sua progressiva banalização — um sinal inequívoco da erosão das bases normativas que sustentam a ordem internacional contemporânea.

Do lado norte-americano, a guerra revelou uma verdade incômoda: a função prioritária dos Estados Unidos não é a proteção de seus aliados árabes, mas a salvaguarda estratégica de Israel. Durante décadas, países do Golfo sustentaram a presença militar americana como garantia de segurança frente ao Irã. No entanto, o comportamento iraniano no conflito — concentrando-se em alvos militares específicos, sem expandir a guerra contra esses países — expôs os limites desse argumento.

Mais ainda: ao demonstrar capacidade de interferir diretamente no fluxo energético global, o Irã reposicionou-se como ator central. A crise no Estreito de Ormuz revelou que o poder militar norte-americano não é suficiente para garantir estabilidade econômica.

Nesse contexto, acelera-se um processo silencioso, mas profundo: a desdolarização paulatina do mercado energético. Ao incentivar transações em yuan e outras moedas, Teerã contribui para enfraquecer um dos pilares centrais do poder global dos Estados Unidos — o domínio do dólar.

Simultaneamente, os países do Golfo começam a rever seus compromissos estratégicos. Ao sugerir que o petróleo americano poderia substituir o da região, Trump não apenas cometeu um erro de cálculo — revelou uma disposição implícita de concorrência. A mensagem foi clara: Washington não é apenas protetor, mas potencial rival.

Nesse ponto, ressoa com particular força a frase atribuída a Henry Kissinger: ser inimigo dos Estados Unidos pode ser perigoso; ser seu amigo pode ser fatal.

O Irã, por sua vez, saiu do conflito enfraquecido militarmente, mas fortalecido politicamente. Diferentemente de outros regimes, demonstrou uma resiliência ancorada em história, identidade e coesão social. A lição é antiga, mas frequentemente ignorada: culturas políticas densas resistem onde estruturas frágeis colapsam.

As sanções, mais uma vez, mostraram seus limites. Longe de provocar mudança de regime, tendem a reforçar narrativas de cerco externo, legitimando internamente aqueles que deveriam enfraquecer.

Os europeus, como tantas vezes na história recente, ocupam o papel mais desconfortável: o de aliados subordinados. Dependentes de energia externa, enfrentarão o aumento dos custos e a persistência de uma estagnação econômica que a guerra apenas agrava. Mas, ao menos desta vez, tiveram a dignidade de não se alinhar automaticamente a Washington para romper com o Direito Internacional.

Ao final, o que se observa não é a vitória de um lado, mas a erosão da ordem internacional. Os Estados Unidos demonstraram limites. Israel aprofundou seu isolamento. E o Irã, mesmo sob pressão extrema, reposicionou-se como ator incontornável.

Trump pretendia afirmar poder. Terminou por revelar fragilidade. E, em política internacional, raramente há derrota mais contundente do que essa.

*Coluna escrita por Marcus Vinícius de Freitas, professor visitante na China Foreign Affairs University, e Senior Fellow no Policy Center for the New South. Tem vasta experiência em relações internacionais e é colunista da BM&C News.

*As opiniões transmitidas pelo colunista são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.

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