Como as redes viraram fábrica de ressentimento sexual e violência

Redes sociais jogam parceiras contra parceiros com postagens sobre vida sexualLookstudio/Freepik

A grama do vizinho é sempre mais verde quando alguém acessa o Instagram.

Deslizar a barra do feed ou deixar as bolinhas do stories estourar sozinhas é pegar um avião com destino a uma Pasárgada às avessas, onde todo mundo é amigo do Rei – menos você.

A máquina de indução de infelicidade e insatisfação está na distância entre rotinas pouco instagramáveis e o atestado contínuo de alta performance, profissional, familiar, afetiva e até esportiva, da postagem alheia. Corpos perfeitos, maridos exemplares, pais funcionais, paisagens paradisíacas, varandas perfeitas, pratos compostos por equações matemáticas de fibras e proteínas na medida certa.

Até aí, nada de novo debaixo do Reels. Estamos cientes e prosseguimos sobrevoando a felicidade alheia contratando réguas só aparentemente alcançáveis. Inveja, cobiça e intrigas movimentam as engrenagens humanas, e Shakespeare percebeu isso muito antes da revolução industrial.

Até pouco tempo, os donos das big techs ganhavam dinheiro deixando os usuários fazerem o trabalho sozinhos. A meta de engajamento era uma ordem embutida na terceirização do trabalho: “Briguem, desgraçados. E, se possível, invejem-se. Mas fiquem aqui”.

Só que alguma coisa mudou de um tempo pra cá. Se é verdade que ficamos menos inteligentes dando às redes (o meio) o que a economia de atenção determina, a mensagem também mudou. Ficou mais literal. Marshall McLuhan estava certo. De novo.

Em meu feed, noto uma ofensiva algorítmica cuja ordem de comando é claramente alcançar homens casados com mais de 40 anos. O conteúdo é esteticamente vulgar, e justamente por isso capaz de chamar a atenção e interromper a rolagem de barra por alguns segundos – o suficiente para alguém atrás da máquina celebrar que pegou mais um bobo.

Baseadas em pseudociência, ou estudos simplesmente inexistentes, as mensagens tentam me vender a ideia de que existe um jeito certo de viver mais e melhor, talvez até os 120 anos. Basta aumentar, turbinar, intensificar e apimentar a nossa vida sexual.

Essas são algumas mensagens que recebo no feed diariamente:

“O nível de estresse de um HOMEM pode cair 50% após apenas 10 minutos de passagem feita pela parceira”. 

“Não ter sexo suficiente leva ao ganho de peso”. 

“Estudos mostram quem sêmen pode agir como um antidepressivo natural para as mulheres” (Detalhe para a foto de uma jovem tomando um copo gigante de leite). 

“Fazer sexo 3 vezes na semana protege o seu cérebro do envelhecimento”. 

“Quanto mais sexo um casal tem, mais dinheiro e motivação eles tendem a ter”. “Transar por trás melhora a comunicação”. 

“Homens devem ter relações com suas esposas, em média, 21 vezes por mês para ajudar a prevenir o câncer de próstata, aponta estudo”. 

“Estudos mostram que apertar o bumbum do seu parceiro(a) faz bem à saúde”.

Parte desses cards têm uma mensagem em comum. Deixa claro quem serve e quem é servido. E qual é o papel de quem.

Qualquer pessoa (qualquer pessoa MESMO) que lê mensagens do tipo contrai, de imediato, a sensação de que está em falta (quem faz sexo 21 vezes com a parceira em um mês?). Ou numa curva em direção ao adoecimento.

Deve existir alguma razão para que, no mundo atual, cheio de metas, tarefas, pressões, inclusive estéticas (já tentou seguir todos os passos para trincar a barriga até o Carnaval?), não sobre muito tempo, disposição, energia ou mesmo autoestima (porque todos fracassaremos nessa) pra passar o dia no quarto vivendo como coelhos e se alimentando de amor e o que a natureza oferece. Os boletos ainda são o maior contraceptivo da humanidade.

Mas, como dá pra perceber, ninguém anda mais inteligente consumindo dopamina barata em rede social o dia todo. E, para quem não tem anticorpos ao entrar nessa, a sensação de falta, ou falha, se converte na corrente sanguínea em ressentimento e culpa. No caso, das pessoas ao redor que se negam a serem nossas parceiras de aventuras rumo aos 120 anos de eterna juventude.

Pode ser só uma grande coincidência. Mas, no meu círculo pessoal, tenho ouvido queixas cada vez mais comuns de amigos homens sobre a (baixa) frequência da vida sexual. Não é que ela não exista; ela só não é igual ao que todos (todos: as redes) dizem ser normal, saudável, digno de parceria. A conversa se confunde com discursos sobre direitos e necessidades naturais, numa leitura meio torta de conceitos bíblicos, hormonais e morais. A culpa é geralmente direcionada a quem do nada resumiu os interesses a trabalho, filhos e uma boa noite de sono.

Falar assim, em voz alta, com tanta propriedade, sobre um déficit íntimio não era tão comum até pouco tempo. Ainda mais entre homens.

Mas, de um tempo pra cá, basta entrar numa roda de dois ou mais marmanjos para ouvir um abecedário de lamentos. Muitas vezes as parceiras estão do lado. Às vezes os filhos também. Na segunda cerveja já está todo mundo salivando, dizendo “hoje tem” e apalpando quem cruza o caminho, como manda o mandamento do card. 

Aqueles posts, desconfio, não levam a relações mais saudáveis (sim, sexo é saudável, mas não é disso que estamos falando), e sim a um portão alargado de outros dispositivos que as próprias redes oferecem, como pornografia, prostituição , quem sabe, cursos para recuperar a virilidade perdida e ensinar quem é que manda.

No vídeo em que praticamente assume por que matou a companheira, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, se gaba de possuir um nível de testosterona equivalente ao de um jovem entre 16 e 21 anos. E que tal nível tornava difícil lidar com a abstinência sexual. Daí a pressão por sexo dentro de casa – que, tudo indica, custou a vida da também PM Gisele Alves Santana.

As mensagens extraídas do celular dela apontam que o oficial tratava a vida sexual em casa como contrapartida pelo fato de arcar com as despesas do apartamento onde moravam, no Brás, em São Paulo. A cobrança era justificada pelo fato de que ele era provedor e fisicamente atraente (sic) e ela não devolvia isso com “carinho, atenção, amor e sexo”. (Gisele, obviamente mais assustada do que apaixonada com conversas do tipo, selou a sentença dizendo que não estava disposta a trocar “moradia por sexo”.)

O caso, claro, é extremo, mas tudo o que levou até o assassinato percorre um caminho conhecido nas melhores famílias. A pergunta é: onde o tenente ouviu bobagens do tipo sobre testosterona? Que tipo de conteúdo ele consumia? O que validou o discurso da sua revolta? Essa revolta foi fabricada? Por quê? Por quem?

Assusta um pouco ouvir pessoas conhecidas elaborando com ferramentas discursivas parecidas a suposta ausência de atenção em casa diante de “necessidades” justificadas por hormônios e níveis de felicidade. Ninguém ali frequentou fóruns de grupos red pill ou coisas do tipo. O discurso de ódio, que reduz mulheres a corpos disponíveis, não é tão direto, mas se infiltrou e se alastrou como um rastrilho.

Toda lógica de mercado, que fabrica desejos e não só produtos, opera pela ideia de que algo nos falta. As redes se tornaram uma usina petroquímica de exposição de vidas ideais que talvez ninguém consiga alcançar. Essa frustração é direcionada para promessas igualmente enganosas de cura.

Seria coincidência que discursos do tipo tenham se proliferado em um tempo de ressentimento estimulado, alto consumo de pornografia e altos índices de violência?

Não tenho a pretensão de responder. Mas as pistas estão aí. É nosso dever seguir os indícios, testar correlações e imaginar saídas. Isso envolve um exercício de escuta que não está em conta quando as vozes das nossas cabeças (nós, homens) são mediadas por algoritmos.

*Este texto não reflete necessariamente a opinião do Portal iG

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